Fórum de Reflexão Económica e Social

«Se não interviermos e desistirmos, falhamos»

quinta-feira, janeiro 29, 2015

A placebomania dos mitos e o preço do vinho (parte IX/X – Regiões francesas)


Mito 8 – A França contém as regiões vinícolas mais distintas do Mundo.

141. Têm sido sistematicamente divulgadas apologias desgarradas sobre os vinhos produzidos em França, seja em zonas meridionais ou setentrionais. As suas plagas são consideradas por inúmeros críticos vinícolas – escritores ou meros fazedores de opiniões – como as mais empolgantes do Mundo. Em repetidas ocasiões tais indivíduos quedam-se em seu pensamento e confessam que não conseguem identificar o que os (escoltados) vinhos franceses têm que inexiste nos vulgares secundogénitos.

142. Temos de reconhecer que só haverá uma explicação possível para tamanho misticismo. Os vinhateiros franceses são os descendentes modernos dos alquimistas medievais, os únicos que alcançaram a descoberta da pedra filosofal. Pelos vistos a descoberta ainda hoje encontra-se mantida religiosamente no saber recôndito, como que se tratasse dum sagrado segredo. Transparece que eles transportam a ímpar missão filantrópica de partilhar com o gentio o resultado da sua magnum opus, cujo epítome é o vinho francês.

143. A subserviência aos vinhos franceses é aflitiva, tanto mais que os elogios proferidos são contraditórios com os argumentos usados noutras situações, alguns dos quais foram evocados aquando de desmistificações anteriores. Um dos argumentos prende-se com a ideia de que o preço reflete a relação inversa entre a quantidade e a qualidade. Ora quer em anos bons quer em anos maus, Bordéus tem sempre modelado o panorama internacional em termos de tintos, e a Borgonha não se tem sentado atrás em matéria de brancos. E, claro está, Champagne tem sido o núcleo dos espumantes de excelência. Abençoada ínclita trindade.

144. Os escritores de vinhos e demais fazedores de opiniões, de tão ardilosos que por vezes são, chegam a defender que há uma mística no céu, no clima, nos solos, nas uvas de Bordéus, da Borgonha, de Champagne impossível de compreender, que torna únicos os néctares dessas regiões. É profunda a justificação do mito de que a França é o berço das melhores regiões vinícolas do Mundo. A ciência, a metafísica ou qualquer outra lógica racional são excessivamente ténues para conseguirem entrar no domínio da magia dos vinhos franceses e dos dogmas criados à sua volta alusivos à qualidade (e ao preço).

145. Entranhou-se no mercado internacional o arroubo epidémico das cepas francesas. Os produtores europeus e os do Novo Mundo usam e abusam por exemplo da Cabernet Sauvignon, da Pinot Noir, da Syrah ou da Chadornnay, julgando que com iguais castas ficam em idênticas condições com os concorrentes franceses, e por isso não desenvolvem tanto quanto poderiam as variedades autóctones.

146. Se fosse atribuído o prémio da casta-princesa àquela que mais facilmente se molda aos caprichos do Homem, com certeza seria eleita a Chadornnay. De tão vulgarizada que tem sido, atualmente é mais conhecida do que o tremoço, que entra em todos os sítios: desde os recintos mais etiquetados e chiques, sob a forma de pâté, aos cafés mais informais e atabernados, como anexo aos copos colados ao balcão. Refiro-me ao tremoço, pois seria sacrilégio ignóbil referir-me de tal modo popular a um qualquer Chadornnay, por mais banal que seja.

147. Em abono da suma verdade, os produtores não franceses poderiam ficar avantajados ante os franceses, ceteris paribus, visto que o clima francês, caracterizado pelo padrão de irregularidade, é menos favorável à viticultura. As expectativas dos produtores não franceses têm saído algo goradas porquanto eles negligenciam – mais uns do que outros – dois aspetos decisivos já realçados: a intervenção humana, não menos importante do que a própria Natureza; e a influência determinante do marketing, variável que decide o êxito comercial.

148. Ainda a propósito da rendição (certamente bem paga), por parte dos críticos opiniáticos, aos vinhos franceses: não posso deixar de reproduzir uma majestosa passagem semântica atinente ao vinho vegetal, àquele cujo aroma se assemelha a mato e a feno. Os peritos reconhecem que as notas vegetais podem ser benéficas ou prejudiciais, consoante a preferência de cada um. Acho corretíssimo, dado que o consumidor deve ser o comandante do seu gosto.

149. No entanto há zeladores afincados dos vinhos franceses que são perentórios a afirmar que odores um tanto acentuados a verdura são negativos para os vinhos, por ficarem herbáceos. Os mesmos mag(n)os defensores – para quem o vegetal perfeito é a fragrância dos cogumelos silvestres – reconhecem que a verdura é necessariamente um ponto positivo quando está associado a algumas variedades de castas, mormente a Sauvignon Blanc. Parece que quando o vegetal se aproxima de mato silvoso, é mau; mas quando é feno rorejante, passa a bom – e então se advier duma cepa que saiba falar francês, situa-se algures entre o muito bom alto e o ótimo.

150. Alguns argumentos para o preço elevado desaguam na viticultura e na vinificação biológicas, mais presentes em França do que noutros países – embora deva sublinhar-se que abundam regiões de países do Novo Mundo, nomeadamente dos EUA e do Chile, em cujas explorações vinícolas uma parte importante da produção assenta em processos biológicos. Não deixa de ser verdade que os processos biológicos envolvem esforço e mão de obra acrescidos que inflacionam sobremaneira o produto final, já sem mencionar que, face aos processos não biológicos, a produção é substancialmente menor (mas a qualidade é superior – daí que o vinho biológico seja dos mais caros). Todavia é necessário destrinçar os vinhos biológicos.

151. Antes disso gostaria de manifestar o meu entendimento. Creio que é possível valorizar o habitat natural das parreiras e obter uma qualidade muito boa das uvas combinando quantidades moderadas de enxofre e de calda bordalesa (para combater o oídio e o míldio, respetivamente) com componentes orgânicos (seja de origem animal, vegetal ou mineral). Com ponderação e sem fundamentalismos, há lugar para a articulação de tratamentos químicos com processos naturais.

152. O patamar extremo da vitivinicultura biológica é a biodinâmica. Trata-se dum conceito biológico e dinâmico, que impede liminarmente a utilização de qualquer componente sintético em todas as fases, do cultivo das cepas à vinificação, garantido assim a máxima sinceridade da bebida. É factual que existem extensas herdades francesas cuja exploração das vinhas assenta no biodinamismo, pelo que o correspondente vinho é mais dispendioso, até porque o clima francês é deveras propício à propagação de doenças que atacam as vinhas e as uvas, conforme acima indicado. Mas outros factos devem ser tidos em conta.

153. Um patamar inferior ao do biodinamismo é preenchido pela vitivinicultura orgânica. Porém é curioso que os requisitos vigentes em França para efeitos da certificação de vinhos orgânicos abrangem unicamente o tratamento das videiras, ou seja, não se estendem à vinificação em si mesma. Portanto, vinhos biodinâmicos são assaz diferentes de vinhos orgânicos – e ambos são biológicos –, e por isso percebe-se que os primeiros sejam bastante mais caros do que os segundos. Desconheço se na prática o preço de cada um desses tipos traduz tal diferença, apesar de apontar para que a resposta seja tendencialmente negativa.

154. À parte os misticismos que envolvem o biodinamismo, designadamente a filosófica articulação entre o espírito do Homem e o universo cósmico, e entre a energia dos astros e os ciclos da Natureza, existe validade racional para que os princípios da agricultura biológica melhorem a qualidade. O uso descomedido de produtos agrotóxicos – tais como fertilizantes químicos, herbicidas, pesticidas e fungicidas – perturba o equilíbrio natural da terra e destrói quer a microflora (tais como fungos e algas) que transmite os nutrientes do solo às raízes das cepas, quer a macroflora (incluindo vermes e insetos) que permite a aeração dos solos, razão pela qual as videiras ficam cansadas e as uvas crescem carentes de componentes que lhes conferem olor e sabor.

155. Não obstante esperava-se que, ao mesmo tempo que ecoa a viticultura biológica, biodinâmica ou não, para fundamentar os preços dissuasores – como se ela fosse aplicada em todos os vinhedos da França –, houvesse humildade para descer drasticamente o preço nos maus anos agrícolas. Os críticos parecem esquecer-se que, nas herdades francesas convencionais, ou melhor, nas herdades não biodinâmicas, para se conseguirem salvar as más colheitas, originadas seja pelas uvas pouco maduras devido às temperaturas relativamente baixas no verão, seja pelas uvas estragadas causadas pela chuva em outubro – antes disso não é possível vindimar pois as uvas ainda estão demasiado verdes, inclusive nas zonas do sul da França –, usam-se técnicas nada naturais.

156. Entre tais técnicas, realizadas para que no final os vinhos não sejam magros nem acerbos e detenham maior teor alcoólico, camuflando-se de néctares estruturados, estão a adição de açúcar (de cana ou de beterraba) – chaptalização – e a concentração do mosto. Esta segunda técnica, que no fundo consiste nas formas de extração do excesso de água existente no mosto em fermentação – excesso relacionado com a grande quantidade de uva e a respetiva fraca qualidade –, é incomparavelmente mais cara do que a primeira.

157. Contra-atacarão os enólogos franceses e os seus protetores cúmplices, advogando que os processos de enriquecimento do mosto correspondem aos processos de acidificação levados a cabo nos países e nas regiões de climas mais quentes e secos. Recorde-se no entanto que a preferência doutrinal pela acidificação (efetuada em geral acrescentando ácido tartárico ao mosto antes da fermentação para estimular uma sensação de frescura, com o objetivo de criar vinhos que, em anos muito ensolarados, pareçam outrossim mais equilibrados) decorre marcadamente da circunstância de, por regra, os vinhos franceses serem mais ácidos do que os restantes – vide por exemplo, mais uma vez, os parágrafos 11 e 12 de «A placebomania dos mitos e o preço do vinho (parte I/X – Premissas)».

158. Com efeito, a acidificação permitida em regiões quentes e secas, seja da Europa ou do Novo Mundo, é uma batota tão grosseira como a chaptalização e outras formas de fortificação do mosto autorizadas em regiões frias e húmidas, tornando os vinhos igualmente adulterados. Todavia quem adota, contudo como exceção, o processo de acidificação não tem a pretensão de afagar manias ou fama nem a ousadia de colocar a auréola do terroir, da côte, da autenticidade ou pergaminhos quejandos que pouco mais têm de especial do que preços altos inúmeras vezes injustificados. Olhar ao espelho nem sempre é sinal de vaidade; também reflete humildade.

sexta-feira, janeiro 23, 2015

A geopolítica do petróleo


O Orçamento do Estado português para 2015 foi elaborado considerando que o barril de petróleo se situaria, em média, nos 96,7 dólares. Na passada quarta-feira dia 21, a sua cotação situava-se nos 48,97 dólares por barril. Tal significará que o Estado português obtém assim uma folga significativa no que concerne às despesas correntes previstas pois os custos de importação desta matéria-prima registam uma redução muito significativa. Como sabemos, Portugal é um país que importa a esmagadora percentagem do petróleo que consome. Por outro lado, o país registará vantagens numa outra vertente já que esta folga aplica-se igualmente aos restantes países da Zona Euro, permitindo-lhes assim com tais folgas, obter margens orçamentais que lhes permitirá absorver mais importações uma vez que é esperado um aumento do consumo interno em países muito importantes para as exportações nacionais como são o caso da Espanha, Alemanha ou França. Se juntarmos a isto a desvalorização do euro face ao dólar americano, estão reunidos um conjunto de ingredientes para que o ano de 2015, e quem sabe de 2016, sejam anos favoráveis a uma retoma do crescimento económico. Isto quando se sabe que o país quer firmemente apostar de forma significativa no aumento das exportações e nas empresas exportadoras. Qualquer exportação para mercados fora da Zona Euro representará, por isso, uma vantagem competitiva.
Aliás, recente estudo realizado pela Universidade Católica apontava para uma previsão mais favorável do que o esperado no crescimento económico para 2015. Contra uma previsão de crescimento do PIB nacional de 1,3% por parte da Comissão Europeia e de 1,5% do governo português, a Universidade Católica prevê um crescimento do PIB muito perto da casa dos 2% já para este ano o que ajudará a acentuar a queda do desemprego para valores que se estima atinjam os 13,1% no ano que vem.
A estimativa mais corrente entre os analistas económicos e os economistas em geral é que o barril de petróleo se situe este ano, em média, nos 50 dólares. No entanto os países da OPEP, através do seu secretário-geral, contrariam estas previsões e afirmam que não é esperado que o barril de petróleo venha a atingir os 20 ou 25 dólares. Estimam antes que o valor do barril manter-se-á nos níveis atuais para depois subir para perto dos valores registados anteriormente. Naturalmente que quem tem peso aqui é a Arábia Saudita já que a Venezuela, Angola ou o Irão estão à beira de uma crise financeira por falta de receitas que afeta a sua capacidade de adquirir bens ao exterior o que se traduz em falta de divisas externas que lhes provoca fortes tensões inflacionistas.

Mas a Arábia Saudita consegue lidar bem com este quadro. Os especialistas e analistas que acompanham o setor do petróleo afirmam que este país suporta os valores atuais de forma diferente dos seus pares porque, tendo em conta os seus custos de extração e abundância, o país já tem margem de lucro com um preço do barril que se situe no intervalo entre os 10 e os 20 USD.

Muito se tem discutido e especulado quanto ao impacto que esta queda do preço do petróleo terá na economia portuguesa. Pelas informações obtidas junto de quem teve acesso a estudos sobre esta matéria, aparentemente uma quebra de 10 dólares no barril de petróleo representará uma folga orçamental para Portugal na ordem dos 700 milhões de Euros. É muito significativo. Por outro lado, cálculos sobre esta matéria apontam para um outro tipo de resultados sobre os quais merece a pena refletir: nos preços atuais e com os ganhos produzidos, a diferença entre as exportações nacionais e as importações nacionais representam um ganho de 6 mil milhões de Euros, favoráveis à balança comercial do país. Além disto iremos poupar todos na fatura energética: as empresas, o Estado e as famílias.

Esta discussão tem surgido pelo peso e importância que Angola representa no contexto das exportações portugueses e da importância deste mercado para as empresas nacionais. Nada mais verdadeiro.

É um facto que Angola se ressente com este preço do petróleo já que a atividade económica desta matéria-prima representa 40% do PIB, 75% das receitas do Estado e 95% das exportações. Com um orçamento para 2015 considerando um preço por barril de 81 USD, aguarda-se por um orçamento retificativo já no início de fevereiro para o qual, tem sido veiculado pela imprensa, o governo angolano estipulará um preço por barril de 40 USD. Aguardemos para saber.

Angola é já o 5.º mercado de destino das exportações nacionais e o volume das exportações para este país representam cerca de 3 mil milhões de Euros em produtos e/ou mercadorias ao que se soma cerca de 1,5 mil milhões de euros em serviços (são cerca de 6,6% do total do valor exportado) já acima portanto dos EUA. 

Estarão a residir permanentemente em Angola cerca de 250 mil portugueses mais alguns 30 ou 40 milhares que lá trabalham sem vistos de trabalho e que lá permanecem intermitentemente. Estão registadas como exportadoras 9000 empresas com 2000 empresas em Angola detidas por capital nacional.

Independentemente deste cenário, pelos estudos efetuados e pelos valores percebidos, o valor atual do petróleo em termos internacionais é favorável à economia nacional. Estima-se assim que o corrente ano e o próximo possam trazer, se não o verão, pelo menos a primavera à economia portuguesa.

quinta-feira, janeiro 22, 2015

Um Serviço Nacional de Saúde para o século XXI


O SNS tem sido reconhecido não só pela generalidade dos profissionais de saúde mas também por uma larga franja de cidadãos, como um bom sistema e uma das «construções« mais sólidas do período da democracia. Há mesmo quem lhe aponte muitos sinais e exemplos de excelência.

Muito foi feito e investido no SNS ao longo dos anos e muitas das ineficiências foram sendo, também ao longo dos anos, combatidas. Todos temos bons e maus exemplos mas na generalidade, muitos especialistas, estudiosos do tema e profissionais da área que não apenas médicos, testemunharam a sua qualidade comparativa.

Surpreende por isso muitos cidadãos o que se tem passado recentemente nas urgências dos hospitais neste período festivo de Natal e fim de ano. Na opinião de muitos, parece que o colapso se instalou e que os casos dos óbitos ocorridos, ultrapassam o que era esperado e expectável em face de toda a evolução e da qualidade já reconhecida ao SNS.
No hospital Amadora-Sintra, chegou-se ao ponto de um doente ter que esperar em média 22 horas nas urgências para ser atendido. Tal situação, levou à necessidade de contratar de uma só vez 10 médicos para o serviço de urgências. Depois, observando-se o cenário a nível nacional, verificou-se que no Porto esse período de espera foi em média de 18 horas, no centro do país de 10 horas e nos hospitais públicos do sul de cerca de 20 horas. Estas ocorrências foram totalmente inesperadas e levaram à exigência de explicações por parte do governo e alertaram para a necessidade de uma profunda reflexão sobre o que se passa na saúde.

Notícias da primeira semana do ano davam conta que os hospitais de Almada e do Barreiro apresentaram médias de 24 horas de espera nas urgências e que por exemplo o hospital de Abrantes já nem daria respostas quanto ao tempo de espera estimado.

Ouvindo o que os representantes dos enfermeiros e o bastonário da Ordem dos Médicos afirmam, a culpa é da má gestão nas áreas da saúde, da racionalização de meios imposta e da redução dos custos de funcionamento, onde se incluirá  a insuficiente contratação de médicos e/ou o aumento do nº de horas de banco/urgência, imposto pelo governo, o que reduziu estruturas e contribuiu para instalar o caos nas urgências. Haverá médicos e enfermeiros que estão 48 horas em permanência de serviço. Tal não se trata, por isso, de um cenário aceitável e compatível com um país desenvolvido e o que se espera de um SNS como aquele em que o país vinha há muitos anos a investir.

Este cenário em que se vive no momento, tem resultado, segundo várias opiniões provenientes de diversos quadrantes ligados à saúde, da ausência de planeamento adequado por parte do Ministério da Saúde o qual não acautelou o aumento significativo do fluxo de doentes aos hospitais nesta quadra e neste período de Inverno.

A posição tornada pública pela Ordem dos Médicos, Ordem dos Enfermeiros e profissionais da administração hospitalar é que as causas desta situação radicam no mau planeamento o que, a acrescer aos cortes nas verbas da saúde e ao nível mínimo de pessoal em que muitos hospitais operam, muitos deles sem margem de segurança que permita acautelar aumentos da procura, levou à falta de capacidade de resposta das unidades hospitalares.   
Acresce ainda um outro facto curioso: o de os Bombeiros virem a afirmar que as macas chegaram a estar esgotadas e o nº de ambulâncias foi insuficiente para, em determinados períodos, dar resposta às necessidades dos pacientes, situação que não é aliás nova e que já se tinha repetido.

Do lado do governo surgiu a informação, que parece óbvia, de que não é possível adivinhar nem as condições climatéricas que se têm feito sentir neste Inverno, nem o tipo de estirpes da gripe que todos os anos sofrem mutações, fatores associados ao aumento do nº de óbitos nesta época do ano, o que torna difícil uma resposta adequada aos problemas surgidos. Aliado a estes factos está, defende o governo, um outro: a passagem à reforma, no ano transato, de 600 médicos do SNS.

Já a Ordem dos Médicos aponta também a emigração como agravante deste cenário já que é referida a saída para o estrangeiro em 2014 de cerca de 400 especialistas, não porque não fossem necessários, não porque não obtivessem colocação mas sim porque as condições remuneratórias propostas lhes eram muito adversas. A mesma refere também que o problema é ainda agravado porque uma má gestão da saúde permitiu que se deixassem sair estes médicos o que depois levou à necessidade de contratar empresas fornecedoras de mão-de-obra aos hospitais, porém já tarde.

O que se sabe é que no último mês se registou o óbito de 8 pacientes nos serviços de urgência dos hospitais públicos. A Direção Geral de Saúde (DGS) afirma que ocorreram mais 1.900 óbitos para além do esperado nesta época do ano. Entretanto o governo coloca como hipótese vir a contratar médicos reformados para o Centro Hospitalar de Lisboa e voltou a disponibilizar mais 562 camas no serviço público.

Tudo isto exige uma profunda reflexão e debate sobre o que se está a passar no setor da saúde em Portugal. As medidas tomadas ou a tomar, como atrás referido, podem induzir os cidadãos a pensar que nem tudo foi adequadamente planeado e organizado e que os serviços públicos de saúde entraram em rotura por causa disso.

Pelas informações veiculadas na comunicação social e através dos representantes das organizações do setor da saúde, percebe-se mal se há efetivamente falta de médicos; aparentemente parece que sim. No entanto há médicos a ser contratados pontualmente através de empresas prestadoras de serviços afirmando a Ordem dos Médicos que são pagos 8€ por hora nos hospitais públicos quando nos privados lhes são pagos 80€.
Outro aspeto que se entende mal é o acesso à profissão. Em Portugal exige-se os 18 valores como média mínima para o acesso aos cursos de medicina o que limita de forma drástica a preparação de novos médicos. Mas não será a profissão de médico acima de tudo (e sobretudo) uma vocação?

Mereceria a pena uma reflexão sobre a adoção de algumas práticas existentes noutros países, como por exemplo a França (e em algumas universidades na Inglaterra) onde quem quiser e pensar que tem gosto e vocação, entra para medicina. Só depois, no primeiro ano de curso, é feita uma verdadeira seleção segundo critérios de aptidão, notas escolares, sensibilidade, conhecimentos, adaptação, vocação etc.

A restrição em Portugal à entrada de mais alunos leva a que, mais tarde, os mesmos exijam trabalhar nos centros urbanos em vez de no interior e a exigir níveis salariais que o país não consegue pagar.

Importa assim evitar o risco de ver desconstruído e fragilizado o SNS tal como foi concebido e com os méritos que muitos lhe reconhecem. Não se trata apenas e só de um problema de dinheiro. É por isso importante que se escutem os profissionais da saúde: médicos, enfermeiros, gestores hospitalares e outros.

A placebomania dos mitos e o preço do vinho (parte VIII/X – Cabernet Sauvignon)



Mito 7 – A Cabernet Sauvignon é de Bordéus e o resto não passa de imitação.

127. Mais controlável do que os resultados irrefutáveis das provas cegas, o tinto bordelês tem sido comercialmente considerado o rei dos tintos, o arquétipo irredutível para qualquer produtor. Proferir esta afirmação é o mesmo que apresentar a Cabernet Sauvignon, nada e criada para ser a casta-rainha das tintas; daí que seja a variedade da vitis vinifera mais mundialmente difundida. Queiram ou não, os consumidores têm de amargar com o amargo preço da fama fermentada.

128. Arrisco-me a avançar – opinião formulada sem qualquer rastilho de afronta – que uma boa parte dos tintos de corte produzidos com lotes de castas autóctones de superior qualidade tem sido conspurcada pela Cabernet Sauvignon. Frise-se que a conspurcação não decorre do aroma dessa casta em si mas antes do facto de a mistura esmorecer demasiado as fragrâncias das restantes castas. Entendo que há variedades (como sucede com a nossa Touriga Nacional) que saem ofuscadas e adulteradas nos lotes onde entra a Cabernet Sauvignon. Podem acusar-me pelos gostos filistinos. Acho que não é o caso; mas que assim seja.

129. A Cabernet Sauvignon é a cepa que rotula os vinhos de exportação de Bordéus – região responsável por cerca dum terço das exportações francesas de vinho –, e por isso (ou melhor, pelo preço de venda e pelos lucros granjeados) representa a bitola ideal, designadamente para os produtores mais ambiciosos do Velho Mundo. Ainda que seja relativamente frequente a fraca vinificação associada quer aos maus anos, quer à produção excessiva, o filão é intemporal: preços incólumes, como se dum padroado se tratasse. A fé da crítica regular e secular advoga que quando é anunciada a presença da Cabernet Sauvignon as outras devem, por deferência, infletir-se e ir ao beija-mão. Amém ao lisonjeio.

130. Na verdade não passa duma postura idólatra enraizada em inúmeros críticos vinícolas, pois há bastantes vinhos tintos que, embora transportem um equilíbrio normal – contrastando com o equilíbrio artificialmente conseguido – entre aroma e sabor e uma complexidade para envelhecer – um dos panfletos usados para transportar no andor a Cabernet Sauvignon de Bordéus –, são produzidos a partir doutras castas tintas. Para além disso, tenham-se presentes dois pontos que dizimam a escola de pensamento dos tintos de Bordéus, a seguir descritos.

131. Desde logo convém recordar que embora as castas sejam um dos elementos principais que caracterizam os vinhos, os demais são tão essenciais como esse, e portanto o resultado final depende da conjugação de todos os elementos presentes, como tem sido sobejamente abordado em posts anteriores. É infundada em termos científicos a relação entre terroir e qualidade – primeiro mito –, do mesmo modo que é escandalosamente redutor estabelecer uma relação biunívoca entre a qualidade do vinho e a natureza das videiras duma região – segundo mito. Por outro lado, há que não negligenciar a questão subjetiva das apreciações, conforme também já por de mais explicado em várias ocasiões.

132. Como curiosidade atenda-se a que, ao contrário do que vulgarmente se difunde, a Cabernet Sauvignon não é a variedade predominante em Bordéus, mas sim a Merlot. O equívoco decorre do facto de a Cabernet Sauvignon dominar os vinhedos das extensas propriedades de Médoc – outrora de charcos e lodo, como mencionado no parágrafo 33 aquando do primeiro mito –, sub-região donde nasce a maioria dos tintos bordeleses exportados. Ou seja, exporta-se Cabernet Sauvignon não das côtes mas das planícies – ou antes: “côtes planas” –, e apesar disso insiste-se em papaguear com o argumento que as experiências nos outros países, do Velho ou do Novo Mundos, não originam vinhos tão completos e equilibrados como os (das planícies de solos húmidos) de Bordéus.

133. Todavia parece que os santos fazedores de opiniões, como que ansiando provar terem espírito isento e sensato, abrem uma pequena exceção: o plágio da Nova Zelândia, autorizada pelos peritos para produzir vinhos completos e equilibrados semelhantes aos de Bordéus. Releia-se o post «A placebomania dos mitos e o preço do vinho (parte IV/X – Produção, qualidade e preço)», especialmente os pontos 68 a 70, e perceber-se-á a razão para a atribuição do prémio da exceção. Os mercados com funcionamento normal tornam as mentiras e as ineficiências evanescentes; quando o funcionamento é imperfeito, as mentiras e as ineficiências transformam-se em fertilizantes da moda.

134. De acordo com diversos críticos, a Cabernet Sauvignon está para Bordéus assim como a Pinot Noir está para a Borgonha. Para os acólitos, é nessas regiões que as respetivas cepas atingem o auge da sublimação das suas particularidades. Fora delas os vinhos podem ser de boa qualidade; mas não adquirem o grau de excelência, segundo eles. As avaliações que comparam os vinhos produzidos a partir das mesmas variedades de videiras, de que o Julgamento de Paris é um simples exemplo, demonstram o lobby que circunda o processo de formação de opiniões. Alcançados pouco mais de três quartos do post agregado (constituído por dez partes), foi a terceira e última vez que aludo ao Julgamento de Paris – as outras foram efetuadas nos pontos 46 e 120, respetivamente a propósito dos segundo e sexto mitos. Adiante-se porém que poderia ter havido mais referências a esse acontecimento histórico sistematicamente ocultado e enclausurado.

135. Tantos julgamentos estão por fazer, seja comparando vinhos das mesmas castas ou de castas diferentes. Até há quatro décadas julgava-se que as cepas mais velhas geravam uvas de qualidade superior e que os processos tradicionais maximizavam as suas características, tornando os vinhos distintos dos demais. Já se sabe que a poda em verde das parreiras novas permite a maior concentração dos compostos fenólicos, com resultados semelhantes aos obtidos com as videiras mais antigas e menos vigorosas. Não obstante, ainda há demasiados críticos opiniáticos que, para velar pelos caprichos viciosos e tentar afastar a concorrência, acreditam na crença dos vinhedos com mais idade, apesar de a ciência comprovar o contrário. Sublinhe-se que isto ocorre com a Cabernet Sauvignon mas não só.

136. Afastando a comparação de castas – mesmo que dispusesse de conhecimentos para tal, não o faria para não incorrer no erro de cair na perspetiva subjetiva –, há que trazer à colação o facto de, em provas cegas, a esquecida Touriga Nacional ombrear-se com a Cabernet Sauvignon com distinta nobreza e não menos superioridade. É um sinal de que o futuro se está a consolidar para as castas enteadas dos fazedores de opiniões. Crer que a Cabernet Sauvignon cultivada fora da região de Bordéus produz vinhos que são meras imitações dos elaborados, com a mesma cepa, nessa região é duma arrogância tão lancinante como intitular a Cabernet Sauvignon como a rainha das tintas.

137. Porventura é tão rainha como por exemplo a sobredita lusitana Touriga Nacional ou a espanhola Tempranillo (designada em Portugal por Aragonês, no Sul, ou Tinta Roriz, no Norte). Ao identificar esses três tipos de variedades estou obviamente a referir-me não aos vinhos monocasta mas sim aos vinhos de corte em que a Cabernet Sauvignon, a Touriga Nacional e a Tempranillo predominam. Aliás, retomando a parte final do segundo parágrafo do post em causa, o meu gosto entende que os vinhos à base da Touriga Nacional e da Tempranillo ficam desedificados com a presença da Cabernet Sauvignon.

138. Contudo há o outro lado, mais agreste e obscuro. Por muito que as castas locais façam brilhantes vinhos de classe mundial, reconhecidos sem mácula nas internacionais degustações à cega, não inquietam nem sequer beliscam a Cabernet Sauvignon, tais são as imperfeições do mercado. A procura existe; tantos consumidores clamam por oferta e estão dispostos a pagar o preço adequado pela excelência; mas as castas nacionais não vingam como seria expectável e lógico. É expectável e lógico que não vinguem. Prescinde-se de repetir a importância que revestem o marketing e a compra de indulgências.

139. Vejo a situação de Portugal com um sentimento agridoce: agre em consequência e doce em potencial. Nos brancos e talvez mais nos tintos a maioria dos nossos vitivinicultores tem conseguido manter a sua personalidade, conquanto sejam frequentes os cálidos combates entre os amantes das castas nacionais, orgulhosos da identidade que estas demonstram, e os arautos das variedades internacionais, seguidores da tentação de entrar na cadeia viciosa padronizada do fastwine de preço acrescentado. Voltaremos a estes assuntos na décima e última parte.

140. Continua a dar-se ouvidos aos fazedores de opiniões, e estes persistem em prestar vassalagem aos produtores mais assertivos na sua missão de conquistar o mercado. A mensuração da assertividade depende tanto do produto como do marketing. Está visto que é um problema linguístico, a começar pelos rótulos das garrafas. Os críticos opiniáticos e os escanções (ou sommeliers, como é mais apropriado para o mito em apreço) só conhecem o francês da rainha Cabernet Sauvignon das “côtes planas” de Médoc e das suas correligionárias infantas do mesmo idioma.

quinta-feira, janeiro 15, 2015

A placebomania dos mitos e o preço do vinho (parte VII/X – Boca)


Mito 6 – Os vinhos superiores dispensam a boca.

115. Um vinho pode ser apreciado de duas maneiras, consoante a relação de proximidade e confiança entre o consumidor e a bebida. No primeiro momento, quando a pessoa e o néctar se apresentam, dá-se um processo contínuo trifásico: o provador observa, depois cheira e a seguir bebe. Posteriormente, uma vez (bem) consumada a apresentação e sentindo-se a pessoa familiarizada com o aspeto e o aroma, a degustação cinge-se ao sabor. Tal acontece com qualquer comida. Polémica por polémica, talvez fosse menos controversa a afirmação de que os vinhos superiores dispensam o nariz.

116. Para justificar a diferenciação entre vinhos, peritos de alta-roda vendem ilusões pré-fabricadas. Proclamam que, ao invés dos vinhos correntes, os de categoria superior autodefinem-se, e ainda apregoam que basta os consumidores usarem os sentidos da visão e do olfato para apreciar os néctares, ou seja, dispensa-se o palato. A abordagem parece ser enviesada e manipuladora em simultâneo. Independentemente de os olhos e o nariz também comerem, é na boca que tudo se revela. O sabor é o príncipe dos sentidos do vinho. Caso contrário não se bebia; olhava-se e cheirava-se. Deixava de ser uma bebida e metamorfoseava-se em mais um quadro ou um perfume.

117. Tem-se assistido a uma nítida ditadura dos fazedores de opiniões, que discretamente cerzem as preferências do público. Contudo – início do parêntesis –, no que toca às escolhas dos consumidores, não sejamos ingénuos. Mesmo num cenário em que os consumidores destronassem de moto próprio os críticos – pelo facto de se desprenderem do que estes falam ou escrevem –, logo de seguida o poder absoluto transferir-se-ia para os vinicultores enquanto criadores e niveladores de gostos. Acentuava-se a aromamania mencionada no parágrafo 49.

118. Os criadores de gostos nivelados passariam a concorrer entre si com produtos (supostamente) diferentes e inovadores para ocupar o espaço que ficara vazio pela saída dos fazedores de opiniões. Para além disso, realce-se que a fase de destrono dos críticos seria efémera e titubeante, pois uma vez fabricadas novas tendências irromperiam críticos opiniáticos especializados nas mesmas. Impedidos pelos fazedores de opiniões ou impelidos pelos criadores de gostos, os consumidores dificilmente conseguem fazer as suas escolhas despidas de pressões. O veredicto do mercado não é total; depende das forças utilizadas para influenciá-lo – fim do parêntesis.

119. Bastantes peritos referem que, em termos gerais – esta ressalva é da minha lavra – os vinhos do Novo Mundo são essencialmente frutados e irreverentes, ao passo que os do Velho Mundo são sobretudo terrosos e persistentes. Partindo desta curiosa dicotomia entre os néctares frutados (do Novo Mundo) e os terrosos (do Velho Mundo), há inúmeros críticos opiniáticos a jurar que a maioria dos brancos de Borgonha caracteriza-se pela vinosidade – conceito que no fundo traduz um escasso nível aromático de fruta –, e por isso se distingue da maior parte dos Chadornnay internacionais. Os especialistas (pensam que) prescindem da boca para identificar uns e outros – embora todos os sentidos sejam tremendamente insuficientes para alcançar a identificação.

120. Se o pensamento dos especialistas fosse válido, então os vinhos dos dois blocos mundiais seriam inconfundíveis, hipótese rejeitada sem apelo nem agravo em sucessivas degustações à cega, de que o Julgamento de Paris exumado aquando do segundo mito («O corpo do vinho consiste nas castas») foi apenas o acontecimento precursor. Assim sendo, existe legitimidade para suspeitar que tanto a citada dicotomia como a apreciação da vinosidade foram montadas para atingir objetivos pouco sérios ou, no mínimo, muito obscuros: vulgarizar (a qualidade de) os néctares do Novo Mundo, e posteriormente enaltecer (o preço de) os vinhos franceses. Não estou a tecer juízos de valor acerca da aparência e do olor, porquanto é uma matéria objetiva – e controlável pelas técnicas e pelos processos de vinificação.

121. Há quem prefira os vinhos frutados e, pelo contrário, há os que elegem os terrosos. Ambos estão corretos. São gostos indiscutíveis, tal como sucede com o conceito de cada pessoa acerca da beleza e do prazer, pelo que ninguém possui autoridade para os hierarquizar. O único ponto que importa é a impreterível necessidade de assegurar a coerência dos argumentos, ou melhor, a humildade – inteligência, em rigor – de assumir que os argumentos evocados não são coerentes, i.e., são empregues conforme a conveniência.

122. A propósito de conveniência, recordo-me desde logo de dois tipos de episódios. O dos clientes cândidos, provavelmente abonados, que se aconselham com os empregados de mesa oportunistas sobre a bebida adequada para acompanhar a comida, sem terem uma noção do custo da garrafa. E o dos logros desvendados que envolvem reconhecidas leiloeiras e intitulados especialistas vínicos que pouco mais são do que charlatões – para evitar mal-entendidos sublinhe-se que, pelo que acabo de escrever, não se pode inferir que todos os especialistas sejam charlatões.

123. No vinho são inúmeras as ocasiões em que as mentiras espraiadas sem rebuço quase se tornam verdades. O vinho apenas dispensa a boca se a aparência e sobretudo o aroma forem desagradáveis. Se contiver defeitos objetivos, tais como ser azedo, refletir um odor sulfídrico, estiver oxidado ou apresentar problemas de envasilhamento, não é necessário sacrificar o palato para confirmar a má qualidade. Mas se nenhum desses defeitos se impuser – caso se trate dum néctar com afirmada sapidez –, então torna-se claro que é imprescindível o palato, o elemento transformador do aspeto e da fragrância da bebida em prazer, prazer que por natureza será sempre totalmente subjetivo.

124. Sem pretender melindrar a intimidade de cada provador, ter um copo de vinho na mão e autoflagelar a vontade de não desfrutar o seu sabor, retardando a degustação, é comparável ao sexo tântrico. É verdade que tudo acaba bem, mas o tempo que se perde na degustação do prazer é irrecuperável. Esta pode ser a perspetiva de quem não é seguidor da prática de atrasar o momento, de quem entende que atrás dum prazer outro vem, e que tempo perdido é prazer perdido. No entanto há quem aprecie, e regressamos novamente ao mesmo ponto: gostos não se discutem. Até há quem opte por proceder à distância ou por satisfazer-se telepaticamente.

125. O mesmo se passa com o sabor e com o mito em apreço. Claro que o vinho – como qualquer comida, da mais natural à soberbamente confecionada – tem de ser cheirado. O olfato é um sentido fundamental que prende a pessoa ao espaço onde está (ou afasta-a dele) – ainda que, com a evolução da espécie, o Homem seja o animal que menos valoriza esse sentido, pois a sua subsistência já não passa pela necessidade de cheirar os alimentos que consome nem o ambiente que o rodeia.

126. Porém, para dignificar o olfato conviria que o néctar reproduzisse verdade. Tal não ocorre quando os vinicultores impregnam o vinho com dióxido de enxofre (ou anidrido sulfuroso) ou quando o maquilham com carvalho francês novo. Ambas as situações adulteram o aroma. Obviamente que não são comparáveis: com carvalho é bastante mais saudável e odorífico do que com enxofre; mas não deixa de ser batota. Se a bebida expusesse a sua fragrância pura e não fosse travestida como sucede com frequência, poder-se-ia atribuir algum crédito ao mito. A desmistificação impõe-se porque muito do caudal do vinho comercializado é orientado pela maquilhagem e pelo travestismo.



domingo, janeiro 11, 2015

Tartarugas, jacaré e lagartixa



As tartarugas convocaram um jacaré e uma lagartixa para uma visita ao seu jardim. Os dois últimos animais transmitiram previamente às tartarugas que, ao abrigo da lei do segredo dos répteis, eles teriam de fazer a visita à porta fechada, sem a presença de sapos. As tartarugas concordaram, atentos os altaneiros e intocáveis argumentos invocados pelo jacaré e pela lagartixa. Ao que parece, o primeiro ser também solicitara o direito de reserva de imagem, o que se consubstancia na impossibilidade de os sapos, as rãs e demais anfíbios realizarem fotografias ou filmagens.

Chegou o ansiado dia da visita do jacaré. Como qualquer humilde jacaré que se preze, ele esclareceu as tartarugas presentes e os cágados assessores que não era um jacaré “controller” financeiro mas sim um mero jacaré tesoureiro. Independentemente do epíteto atribuído ou assumido, mesmo à porta fechada o jacaré não abriu a boca nem desferiu qualquer ataque. O episódio expôs a superioridade dos jacarés a todos os níveis. Mesmo sem a presença de anfíbios, o jacaré sabia que as tartarugas e os cágados comportam-se como os humanos: não são confiáveis nem conhecem a vocábulo «sigilo».

No dia seguinte – o momento das luzes – foi a vez da lagartixa. Tal como sucedera no dia anterior com o jacaré, os anfíbios estavam fora do recinto do jardim, devido à lei do segredo dos répteis – apesar de constituírem uma classe de animais bastante diversificada e heterogénea, muitos répteis não simpatizam com os anfíbios. Era o dia «D», aquele em que a lagartixa contabilista se apresentava às tartarugas das várias colónias e aos cágados das hostes acompanhantes. A lagartixa vislumbrou um pouco de sol no jardim e logo se estendeu; abriu-se toda, como se estivesse no seu habitat.

Claro que as tartarugas e os cágados depressa se lembraram que estavam à porta fechada e de imediato romperam o combinado em termos de gravação de depoimentos. Fiéis reprodutores da falsidade e da audácia de tantos animais humanos, gravaram as declarações que a lagartixa candidamente ia proferindo e difundiram-nas para os sapos que estavam no exterior do jardim. Deleite especial sentido tanto pelas tartarugas e pelos cágados como pelos sapos. A própria incauta lagartixa, incrédula com tamanha violação da palavra das tartarugas, interrompeu a conversa e ameaçou suspendê-la.

Moral da história: assim vai o espaço da democracia, onde se consome a honra de valores e o compromisso assumido é vilmente branqueado pelos sapos, seres que, quando lhes convém, conseguem vestir-se de camaleões. Por outro lado, os episódios ilustram o pensamento genético de cada réptil. O jacaré, que impôs declarações à porta fechada e reserva de imagem, nada transmitiu literalmente. À boa maneira de jacaré, mostrou quem manda e está no topo. As tartarugas, indignadas com tamanhos sinais de manifestação de poder, ecoaram ironicamente a uma voz para concluir que afinal as declarações poderiam ter sido divulgadas à porta aberta, com a presença de anfíbios. As tartarugas queriam brincar com o jacaré, mas foram elas que acabaram chacoteadas.

Para além de os episódios permitirem constatar que «quem nasceu para lagartixa nunca chega a jacaré», revelaram que as tartarugas e os cágados portugueses desconhecem a virtude da palavra. Por outro lado, confirmou-se que, não obstante o estado de conservação das tartarugas encontrar-se ameaçado, elas são animais versáteis, capazes de entrar em ondas gigantes e sair incólumes. Numas ocasiões por estratégica intenção, noutras por confrangedora inépcia, as tartarugas trocam o essencial pelo acessório, isentando da condenação os tubarões e os gorilas devoradores de milhares de milhões. Como o mexilhão não serve para imolação, a justiça exigirá o sacrifício da lagartixa.

quinta-feira, janeiro 08, 2015

A placebomania dos mitos e o preço do vinho (parte VI/X – Idade e carvalho)



Mito 5 – Os vinhos ambiciosos melhoram com a idade.

99. É vendida a ideia comum de que os grandes vinhos das clássicas regiões europeias, sobretudo os da prodigiosa Gália, distinguem-se dos demais porque crescem com a idade. Os factos comprovam que a falácia flui duma ação de propaganda pró-europeia – e em especial pró-francesa –, pois são numerosos os néctares possantes do Novo Mundo que mantêm intacta a sua personalidade acima duma década, sem perder qualquer resquício de classe e vigor. Um desses casos foi identificado no ponto 94, relativamente ao quarto mito («Os vinhos de alta qualidade têm marcantes características singulares»), a propósito da comparação entre dois Chadornnay, um borgonhês de dez anos e outro chileno somente de quatro anos. Os brancos do Chile, por exemplo, não amadurecem menos do que os da Borgonha.

100. Muitos enólogos do Velho Mundo – liderados pelos apoiantes da França, como não podia deixar de ser –, por crerem que normalmente os vinhos captam mais os aromas e os paladares do terroir do que das castas, consideram que os bons néctares precisam de tempo para mostrar o seu esplendor. Raramente põem no pedestal os vinhos oriundos das regiões e dos países com climas assaz confiáveis e estáveis, mas sim, como de costume, os que têm maior cachet social. Eis porque há ninhos de almas que continuam a jurar honrarias aos produtores franceses, bradando que estes geram vinhos maravilhosos, mais complexos e enigmáticos.

101. Frequentemente sob a capa do mito em questão os logros são totais, assemelhando-se aos crimes de falsificação de documentos. Aposta-se que vinhos toldados de fama vão evoluir com os anos, pelo que o seu preço é inflacionado logo à nascença. Tais néctares vangloriam-se, passeando de leilão em leilão, para no fim os compradores beberem deceção, engano e pesadelo. No epitáfio das bebidas fica registado não mais do que o preço impeditivo e afrontoso. E nada tem a ver com a subjetividade do consumidor, nem com o momento ou o ambiente da degustação.

102. As mesmas pessoas que embandeiram em arco em relação a certos néctares têm colecionado uma miríade de episódios defraudantes de vinhos caros que são objetivamente piores do que vinhos mais baratos. Prova-se um vinho conceituado, pensando e apostando cegamente que ele oferecerá prazer, e dado o primeiro golo, à guisa de canibalismo sexual, as narinas e a garganta do provador são ferozmente atacadas. Ocasiões em que a abstinência pura prevalece sobre o prazer negro.

103. Após sacrificada meditação, mas sem abjurar as suas crenças doutrinárias, alguns fazedores de opiniões têm o fleumático descaramento de sugerir que por vezes as apostas goradas foram fruto do azar, como que se se tratasse duma aposta de casino – tantas vezes é o caso. Como tal, aconselham os consumidores a insistir até encontrarem o vinho que corresponda às expetativas criadas. Hilariante explicação, no mínimo. Posições desse género revelam pouca isenção – ou então acentuado alheamento.

104. Melhor escrevendo: revelam o domínio exagerado do peso que desempenham o rótulo e a rolha abrasonados. Como em princípio os especialistas de provas não são abastados – ou não eram antes de iniciarem a atividade –, é normal que se inebriem com retratos fictícios e escrevam mandamentos vitivinícolas perspicazmente parciais. Homens pobres não governam opiniões; bandeiam-se para as opiniões das marcas do mando. É assim no vinho e no resto: quanto maiores os erros, mais organizadas são as corporações de foreiros que os tentam isentar.

105. Os críticos opiniáticos têm na ponta da língua a resposta eloquente e poética: os vinhos são como as pessoas; têm altos e baixos. Se errar é humano, ao vinho também se admitem erros. Comparação alucinogénia, como que justifique as situações horripilantes de gato por lebre que se apanham, de bebidas dispendiosas mas descaracterizadas ou mesmo decrépitas. Não há livro de reclamações, até porque reclamar faz sentido e é eficaz apenas em mercados que funcionem normalmente.

106. Eu responderia através duma palavra, aquela que é o evangelho seguido pelos fazedores de opiniões: prazer. Se o vinho é o veículo e o meio de transporte para o prazer, para um percurso calmo e reconfortante à geografia das videiras, à história da vinificação e à antropologia dos vinicultores, então constitui profundo masoquismo retardar a viagem pois o amanhã é incerto e não será na outra hipotética vida que a viagem será realizada e o prazer recuperado. «Não guardes para amanhã o que podes fazer hoje», relembra e alerta sabiamente o povo.

107. O tema da idade é mais um dos que resvalam para o debate inconclusivo entre a escola tradicional (do Velho Mundo), agora e finalmente não tão sobranceira, e a escola técnica (do Novo Mundo), cujo cavalo de batalha já não é combater o exuberante perfume frutado. Os protetores da primeira têm crido que só os melhores vinhos clássicos europeus – ou porventura franceses – progridem com a idade, mas esquecem-se de referir que o envelhecimento é em parte devido a aditivos durante a fermentação ou mesmo antes de esta começar, bem como a métodos de vinificação ou a processos de engarrafamento que permitem artificialmente aumentar a natureza dos néctares e maximizar o seu período de estabilidade.

108. A escola técnica entende que pode assegurar o mesmo resultado (do envelhecimento) mas com menor intensidade dos aditivos, métodos e processos atrás indicados. Privilegia a atuação para a otimização dos conhecimentos propiciados pela ciência, inclusive respeitantes ao aproveitamento das condições edafológicas e climatéricas das regiões. A diferença de filosofia, entre repetição e investigação, entre consistência e experiência, no fundo entre o costume da escola tradicional e a inovação da escola técnica, reflete-se sobremaneira não na qualidade mas no preço.

109. O mito em apreço orbita bastante à volta do engarrafamento. Por isso o envelhecimento podia ser autonomizado, como oportunamente foi abordado: o mito de que o carvalho confere bouquet ao vinho. Mais uma área onde reinam os preconceitos. Por exemplo, a estratégia dos barris de carvalho para transmitir ao vinho olores abaunilhados e aumentar o seu período de vida é deveras valorizado pelos produtores europeus, o que torna as bebidas necessariamente caras. A utilização de aço inoxidável é incomparavelmente mais barata e permite que os vinhos mantenham a sua pureza, pois preserva a fragrância e o sabor naturais das uvas.

110. A maquilhagem não é gratuita, e muito menos as campanhas publicitárias – não raras vezes patéticas – para tentar convencer que o seu uso é benéfico. Marketing formatado e deformado. Não se espera que mesmo uma mulher bela frequente um restaurante de luxo trivialmente trajada; passava quase despercebida ante a vulgaridade aperaltada lá existente. O mesmo acontece com os vinhos maquilhados, conquanto de menor qualidade – qualidade natural, entenda-se – face a vinhos bons que são puro sumo da uva, puros sem artimanhas ou estratégias vínicas ou comerciais.

111. Retome-se o recorrente emprego do carvalho. Os consumidores são impingidos com a ideia de que quanto mais fenóis tiver o vinho, melhor. Os taninos – compostos químicos naturais provenientes das uvas (não da polpa mas sim das cascas, das sementes e dos engaços) – têm-se mostrado insuficientes para os caprichos de grande parte dos críticos opiniáticos. Assim, estes evangelizam os consumidores sobre a importância de outros fenóis, referindo-se especialmente à vanilina – fenol constante do carvalho, que concede um cheiro e um paladar parecidos com os da baunilha.

112. Porém, o procedimento de amadurecer o vinho em barricas novas de carvalho e envelhecê-lo posteriormente em garrafa tem sido inúmeras vezes usado, sem ponderação ou critério, como sinónimo de superior categoria. Na prática o que sucessivamente se faz é, através do controlo das doses aromáticas do carvalho, transformar bebidas comuns em néctares empoladamente complexos. Forma alternativa de marketing, tão eficaz como a declaração de terroir ou o financiamento dos críticos especialistas. Juntando a trindade – carvalho, terroir e críticos –, é desnecessário mencionar o fim alcançado.

113. Virá o dia em que o carvalho será substituído pela pureza de odores e sabores. Não é tanto o uso dos tonéis de madeira – seja de carvalho, castanho ou abeto – para a fermentação do vinho que está em jogo, mas antes a febre do uso de pipos novos de carvalho francês. Quem atribui legitimidade à semelhança entre o vinho e o homem reproduzirá a parte final do ponto 2, de que «pode envelhecer-se sem a ajuda do carvalho; mas este, se for novo, valoriza a idade, como a maioria concordará.»

114. O carvalho não é um elemento natural e como tal é facilmente secundarizado. Pode-se perfeitamente retirá-lo do emblema da qualidade. Basta que a maioria dos produtores não franceses sinta orgulho em fabricar vinho que fermente em recipientes que garantam a neutralidade de fragrâncias e paladares das uvas, e que paralelamente invista em críticos opiniáticos que corroborem a vontade e a coragem desses produtores. Como em quase tudo, é uma questão de preço. Para telintar os gostos afeitos aos mitos, até nem será cara a campanha de informação.

segunda-feira, janeiro 05, 2015

Évora, 21 de janeiro de 2015 – Excursão da interioridade ou da inferioridade?



Ontem, 4 de janeiro, ouvi de relance no rádio uma notícia que me embebeceu por completo o espírito. Um grupo de admiradores do anterior primeiro-ministro está a organizar, para o próximo dia 21 deste mês, uma excursão a Évora, que partirá da Covilhã. Precisamente dois meses após a noite fatídica – fatídica para a classe política – em que esse ex-dirigente governamental foi detido no aeroporto de Lisboa. Todos serão bem-vindos a participar. Como um dos organizadores realçou, se puderem ir milhares de pessoas, não irão centenas.

A excursão de apoio é, de acordo com a organização, um ato que visa mostrar ao País o profundo reconhecimento que as gentes do interior sentem pelo trabalho desenvolvido pelo ex-chefe do Governo. Cumpre reconhecer que a iniciativa não foi mal formulada. A reboque do assunto por vezes crispante entre o litoral e o interior, tenta carrear-se para o processo judicial em curso a ideia de que o acusado (pelos crimes de branqueamento de capitais, fraude fiscal e corrupção) foi – e é – o sumo representante da interioridade lusitana.

Assim – há que reconhecer – procurou matar-se dois coelhos com uma só cajadada: defender a personalidade em causa, desde logo junto da opinião pública; e granjear incentivos para as hostes do partido a que ele está ligado. Nada a opor à jogada, perfeitamente possível à luz das regras da política democrática. Todavia uma dúvida insofismável assola qualquer indivíduo cujo prazo de validade da sua memória não seja inferior a um mês e meio.

Com efeito, desde os primeiros instantes após a detenção do sujeito em questão foi construída uma “narrativa” que deixou os ouvidos dos cidadãos anónimos feridos em carne viva, tal a frequência com que ela foi continuamente repetida. Transmitiu-se e defendeu-se até ao tutano que o processo é de natureza jurídica, e por isso deve ser avaliado tão-somente em sede judicial. «A César o que é de César, e a Deus o que é de Deus», ou seja, à justiça o que é da justiça, e à política o que é da política, era o alfa e o ómega da cada intervenção com que os portugueses foram incessantemente massacrados.

Constata-se agora que afinal houve uma mudança radical da “narrativa”, por desventura para pior, ou antes, para um patamar inferior (apenas comparável a uma endémica realidade, ignóbil e imperdoável, com que as instâncias nacionais têm tratado de olhos vendados: a violação do segredo de justiça, sinal evidente de que o aparelho judicial e a comunicação social teimam em andar de candeias às avessas). Afinal o argumento – esse sim, de nível superior – de que as instituições deveriam funcionar normalmente e sem pressões teve lamentavelmente uma vida efémera.


Somente os mais incautos alinham no cariz altruístico da excursão. Direta ou indiretamente esta terá como objetivo condicionar a “narrativa” nem sempre conveniente da separação de poderes entre justiça e política. Desejo que os romeiros dos novos tribunais façam ótima viagem. Mas não se demorem muito, sob pena de perderem a memória do caminho para o regresso. Excursão da interioridade geográfica ou excursão da inferioridade memorial?


quinta-feira, janeiro 01, 2015

A placebomania dos mitos e o preço do vinho (parte V/X – Alta qualidade e singularidade)



Mito 4 – Os vinhos de alta qualidade têm marcantes características singulares.

82. Que uma zurrapa se distingue fácil e objetivamente dum néctar, ninguém duvida, tal como se consegue separar o azedo do amargo e o doce do salgado. Justifica-se portanto a variação de preços entre essas duas bebidas de opostas categorias. Para qualquer pessoa uma mistela é uma mistela e ponto final, sem mais delongas. O mercado das zurrapas é livre, concorrencial e democrático, onde o preço reflete a genuína lei da oferta e da procura, pelo que os enólogos e os críticos vinícolas dele se distanciam. No mercado dos néctares o cenário é completamente diferente, com a agravante de a diferença continuar camuflada para a generalidade dos consumidores.

83. Até se aceita que as características sejam singulares e únicas, desde logo porque se pode defender, ainda que ironicamente, que não há dois seres vivos iguais (mesmo que clonáveis) ou até dois objetos iguais, visto que a matéria de que são feitos é distinta. O que contesto é alguém apontar que as características sejam o reflexo duma dada região e por isso incomparáveis, com o pretexto de fundamentar o preço como se houvesse uma transmissão dinástica das regiões para os vinhos – desmistificada no post «A placebomania dos mitos e o preço do vinho (parte II/X – Terroir e côtes)». A legião dos críticos seguidores duma região comete esse equívoco quase de forma involuntária.

84. Se os vinhos superiores emanarem características invulgares, então admite-se – já lá vamos – que estas devam ser refletidas no preço final, desde que obviamente exista uma relação forte entre a qualidade do produto e o seu custo de fabrico. Mas também é crível, ao contrário do admitido na frase anterior, que a relação entre preços de venda e custos de produção não faça sentido, por nalgumas situações ser a antítese da eficiência de recursos.

85. Com efeito, num mercado de funcionamento normal, os produtores que, para a mesma qualidade dos bens oferecidos, registem maiores despesas face aos seus concorrentes desaparecem do mercado e são substituídos por outros mais eficientes, que praticam custos e preços competitivos. Porém, dado que uma parcela material do mercado do vinho não é suficientemente concorrencial, os compradores toleram inconscientemente que os produtores repercutam nos preços finais os elevados custos incorridos, acabando assim por beber ineficiência quando julgavam beber qualidade.

86. Seja-me permitido transcrever o que foi realçado no parágrafo 21 do post «A placebomania dos mitos e o preço do vinho (parte I/X – Premissas)». «É inquestionável que o preço deve refletir os custos (normais ou empolados) de produção e de comercialização. Aspeto bem diferente é cristalizar as sensações do público, injetando-lhe a mensagem de que preços elevados – que em regra estão associados a maiores custos operacionais – significam impreterivelmente uma reconhecida qualidade acrescida. Custos maiores implicam preços de venda maiores – a não ser que os produtores percam dinheiro –; mas maiores custos de produção (já para nem incluir os custos de propaganda) ou maiores preços de venda não representam forçosamente maior qualidade. É aqui que reside o ponto nevrálgico.»

87. Duvido da classe superior proclamada com apego pelos fazedores de opiniões, não apenas por uma questão de ceticismo mas sobretudo por razões empíricas. Formigam os episódios de provas cegas em que, para os próprios sapientes da aparência, do aroma e do sabor, os resultados dos seus sentidos puros – quando as garrafas se expõem nuas – divergem sobremaneira das preferências manifestadas através dos sentidos formatados – quando os vinhos se apresentam vestidos com os rótulos, como se se tratasse de festas de gala. Acontece que os sábios são humanos, e por isso erram – resignação inquietante expressa por algumas eminências, para branquear a irracionalidade.

88. Se os provadores especialistas se enganam redondamente, humilhando os vitivinicultores ufanados que creem produzir bebidas desiguais, é impossível esperar pior quando as provas envolvem consumidores ingénuos. Tanto para os profissionais como para os amadores a regra é a aleatoriedade, ou seja, perante vinhos de diferente jaez, a probabilidade de acertar, escolhendo os de melhor qualidade, é tendencialmente igual à de falhar, optando pelos de pior qualidade – claro que a hierarquização da qualidade depende dos critérios prévios definidos pelos peritos a seu bel-prazer.

89. Dado que a qualidade é uma perceção profundamente subjetiva e mesmo imaginária – como foi realçado em posts anteriores –, e visto que tanto para a crítica especializada como para o público em geral as degustações à cega nada atestam sobre a qualidade, há motivos lógicos para afastar a relação entre a qualidade e o preço. O preço não atesta a qualidade. Existem vinhos de qualidade baratos, enquanto outros, também de qualidade, são caros.

90. Haja humildade e reconheça-se que o preço do vinho depende dos encargos de produção e de comercialização. Haja decoro e tire-se a qualidade do filme da publicidade enganosa. A qualidade tem outrossim uma natureza subjetiva – repito –, dependente de imensas variáveis que afetam o estado de espírito de cada um. Estas variáveis explicam porque em determinadas circunstâncias há vinhos baratos que sabem bem, enquanto noutras existem vinhos caros que sabem mal. É tudo uma questão de momentos, irregulares como o tempo, a não ser que o preço seja um mero placebo do prazer.

91. Por conseguinte, estritamente sob o ponto de vista racional, não se pode anuir à ideia de quem pretende sustentar que as características singulares dum vinho são melhores do que as características únicas doutro, nem que seja por os conceitos de singularidade e unicidade dependerem fortemente da avaliação pessoal. A incontestável evidência da subjetividade só por si arrasa vários mitos acerca do vinho, e consequentemente refuta o preço com que bastantes rótulos e rolhas se apresentam.

92. Fica-se com a noção de que os críticos opiniáticos inventam léxico verborreico para descrever imagens, cheiros e paladares dos vinhos endeusados que lhes caem no goto e que querem colocar no pedestal. Eu também poderia inventar algo, tal como entender que há vinhos de qualidade suprema cujos olores são um misto, na proporção de três para dois, de sol primaveril com céu estival, enquanto noutros verifica-se paritariamente um travo de noite sem trovoada com aurora nublada, salpicado com subtis notas matinais de orvalho.

93. Todavia há quem possa retorquir, pugnando que os néctares com maior caráter estão iluminados pela égide das fragrâncias do xisto obliquamente laminado e dos seixos esbranquiçados e carnudos. Cada um invente à sua maneira, desde que reserve a teórica invenção para si. É o que deviam fazer muitos fazedores de opiniões e demais obscuros críticos luzeiros, tão blasfemos e insolentes quanto me possam considerar neste momento. Como retribuição do escárnio e das heresias que tenho proferido, devo estar a receber uma praga forte como a que sofrem as raízes das videiras não enxertadas. A sorte é que tenho os rizomas assentes em terrenos arenosos, repelentes da filoxera.

94. Ainda a propósito da falta de lógica para que, entre dois vinhos de qualidade análoga, um seja discriminado em detrimento do outro, relembrem-se as analogias da beleza, dos cavalos e dos fadistas constantes da primeira desmistificação («A alma do vinho é o seu terroir»). Um Chadornnay da Borgonha com dez anos, criado através da fermentação malolática, é inconfundível – juram os lacaios dos brancos borgonheses. É tão inconfundível como um Chadornnay chileno com quatro anos, nado e criado com o mesmo desvelo dos franceses.

95. Também posso afirmar que um branco de Bucelas com os mesmos quatro anos – feito com a lusitana casta Arinto, não afamada como a Chadornnay mas não atrás desta em nobreza – é ainda mais inconfundível, e por isso o seu preço deve ser incomparavelmente superior ao de qualquer Chadornnay. A substancial diferença entre a minha opinião e a de conceituados críticos – seguramente com opiniões não mais assépticas do que a minha – é a força do dinheiro das indulgências, como referido no terceiro mito («A produção massiva reflete-se negativamente na qualidade e no preço do vinho»).

96. Inúmeras contradições, ora entediantes ora aleivosas, pululam a memória. Há conceituados críticos (de opiniões uniformes e formatadas) a justificarem que o sul da França é, em todo o Mundo, a zona produtora dos vinhos mais fascinantes devido ao empenho pertinaz levado a cabo pelos vinicultores e enólogos, obcecados por (o lugar-comum de) a «excelência de qualidade». Paralelamente os mesmos indivíduos são perentórios quanto ao destino reservado ao Chile. Entendem que este país, por ter uma aptidão natural para produzir vinhos bons – solos férteis e próximos do mar, conforme abordado nos parágrafos 72 e 73 do post anterior (parte IV/X – Produção, qualidade e preço) –, não deve incorrer em riscos desnecessários e por isso é preferível não esforçar-se por tentar o estrato superior, o dos vinhos excelentes.

97. Laivos de arrogância que significam, por outras palavras, que para a maioria dos países está reservada a sina da mediania, e que a alta categoria está à mercê unicamente dos etéreos produtores predestinados com terroir. Ou seja, no subconsciente de certos conjuntos de fazedores de opiniões, as características marcantes das bebidas estão talhadas para um microconjunto de regiões, a quem cabe o feudo dos néctares nobres e de qualidade azul (por oposição aos vinhos republicanos elaborados pela chusma dos produtores).

98. Doutrina interessante. Os vitivinicultores profissionais e exigentes obterão, no máximo, bons vinhos, equilibrados nas várias vertentes aromático-gustativas, no entanto associados a uma persistência fugaz. Ao invés, os grandes vinhos – acima dos bons –, os que manifestam uma persistência prolongada, estão ao alcance somente dum punhado de alquimistas bafejados por vontades sobrenaturais. Alguns animais veem o espaço a duas dimensões; há pessoas que olham para a realidade e não conseguem escrutinar mais do que a dicotomia de escol e escumalha. Eis o medievo raciocínio ainda vigente no séc. XXI.