Fórum de Reflexão Económica e Social

«Se não interviermos e desistirmos, falhamos»

quarta-feira, outubro 22, 2014

Portugal – O Turismo e a Economia do Mar


O que fazemos com tanto mar?


Somos um país que sempre teve na designada «economia do mar» um potencial para o crescimento económico e para a afirmação de Portugal no Mundo. Este potencial começa logo na localização geográfica privilegiada, neste fulcro posicional entre Continentes e nesta posição no centro do «triângulo mágico», América Latina, Europa e África. No entanto, após a adesão à CEE, na senda da disponibilização dos fundos comunitários aos novos entrantes e do cumprimento quer das quotas de pesca quer da dimensão da frota pesqueira, o país voltou as costas ao mar e a quase todas as atividades ligadas ao mesmo. Por outras palavras, foram exterminados muitos dos elementos que fariam da «economia do mar», um instrumento e uma aposta estratégica para o crescimento, desenvolvimento e progresso do país.

Para além da riqueza dos recursos da pesca, que resultariam das capacidades de uma forte frota pesqueira, num país em que a Zona Económica Exclusiva o transforma num dos maiores espaços soberanos europeus, das atividades marítimas recreativas, como os desportos náuticos diversos, motorizados ou não motorizados (veja-se o recente caso do surf na Nazaré ou nos Açores ou ainda a vela e o parapente), que podem captar muitos visitantes vindos de fora do país e criar internamente riqueza económica, há também a destacar as oportunidades de divulgação das belezas da costa em termos turísticos, o que levaria ao aproveitamento e melhoramento da orla costeira ao nível do lazer, da restauração e das praias. Para além destes, haverá ainda a salientar o potencial de outras atividades ligadas à indústria marítima como sejam a aquacultura e piscicultura, a gestão e oferta portuária até chegarmos à construção naval.

Destacando esta última e a importância que teve, e poderá ter no futuro, esta indústria, na qual Portugal sempre apresentou fortes pergaminhos e notoriedade em termos internacionais, estou em crer que o país não efetuou as apostas certas para manter o estatuto outrora conseguido e agora perdido. No passado, empresas como a Lisnave, Setenave ou os Estaleiros Navais de Viana do Castelo, catapultaram o país para o topo da indústria naval mundial. Estivemos sempre entre os melhores e os mais capazes. Hoje, esta indústria vive tempos conturbados e ameaça extinguir-se. Entre outras causas, está a ausência de políticas viradas para o reforço, inovação e eficiência destas atividades, um virar de costas, mais uma vez, à «economia do mar». Deixámos que outros tomassem a dianteira. Num momento em que tanto se discutiu a concessão cedida a privados dos ENVC, com a ameaça e risco do seu afogamento, outros países preparam-se para encarar de frente as oportunidades que aí vêm com as novas diretrizes internacionais que exigem que, navios de grande porte do transporte marítimo mundial, sejam revestidos de dois cascos o que dará muito trabalho a esta indústria uma vez que tal obrigará ao crescimento e intensificação das atividades de reparação naval. Alemanha e Holanda já estão na linha da frente. Onde é que Portugal se posiciona?

Já no caso dos portos, Portugal, que é beneficiado por uma qualquer dádiva divina, reúne características quase únicas não só em portos industriais como Sines, Lisboa e Leixões, mas também ao nível de portos recreativos ou turísticos, uma vez que as características dos rios Douro e Tejo permitem, de forma quase única, uma oferta de serviços distintiva e trazer até ao centro das duas maiores cidades portuguesas navios de recreio e de cruzeiro de grande calado, o que permite colocar Portugal, e em especial Lisboa e Porto, nos principais circuitos de cruzeiro mundiais.

Falemos um pouco do turismo do mar, referindo o exemplo dos Açores. Na ilha de São Miguel tem decorrido todos os anos no Verão uma prova do circuito mundial de surf, o «Azores Islands Pro» uma das etapas de qualificação do World Qualifying Series (WQS) que teve a sua primeira edição em 2009. Noticiava a revista Visão em setembro de 2010 que «Não há carros para alugar, os hotéis estão lotados e os restaurantes muito cheios». Na mesma notícia, e segundo as palavras do então Secretário Regional da Economia do arquipélago: «Queremos afirmar os Açores como um destino de turismo ativo. Temos 30 milhões de euros para investir em campanhas de promoção, durante os próximos dois a três anos». Eis aqui um exemplo em como uma atividade ligada ao mar tem potencial para dinamizar a vida de uma região e contribuir com receitas de relevo.

Mas Portugal não é apenas uma costa de mar para o surf. Recordando um estudo realizado pela revista Newsweek em agosto de 2010, Portugal figurava no 27.º lugar entre um conjunto vasto de países considerados como dos melhores do mundo para viver. Esta análise teve como critérios a qualidade da educação (onde nos posicionámos em 37.º lugar), a saúde (23º lugar), a qualidade de vida (27.º lugar), o dinamismo económico (42º lugar), e por fim o ambiente político (onde arrecadámos a 23.ª posição). A União Europeia colocava, em 2009, Portugal como a 10.ª economia em valor de produto turístico e a 6.ª onde o turismo tinha mais peso no PIB. Dados da AICEP de maio de 2011 com referência à Organização Mundial de Turismo (OMT) e a dados do Instituto Nacional de Estatística (INE) comprovam a importância do turismo como setor onde há espaço para criar emprego e maior competitividade. No ranking dos principais mercados recetores de turistas da OMT, Portugal encontra-se no grupo dos 10 maiores a nível europeu e dos 25 maiores a nível mundial e, apesar da concorrência externa, dados de 2012, obtidos através do boletim do E.S. Research de junho de 2013, comprovavam que o setor do turismo representava 5,2% do PIB.

O nosso país apresenta outras vantagens comparativas a vários níveis como sejam, o clima, a segurança, a proximidade à costa, a qualidade das praias, campos de golfe de reconhecida qualidade internacional, oferta diversificada (paisagem, casinos, marinas, história e cultura) ou ainda boas ligações aéreas, regulares, charter e low-cost internacionais, a várias capitais da Europa e do Mundo.

Do ponto de vista cultural são inúmeros os locais a visitar em Portugal, se atendermos que, na lista do Património Mundial da UNESCO, se encontram os centros históricos do Porto, Angra do Heroísmo, Guimarães, Évora e Sintra, bem como monumentos em Lisboa, Alcobaça, Batalha e Tomar, as gravuras paleolíticas de Foz Côa, a floresta laurissilva na Ilha da Madeira e as paisagens vitivinícolas do rio Douro e da ilha do Pico. Já quanto à paisagem e às características naturais e geográficas, depois do 2.º lugar obtido pelos Açores em 2011, numa seleção de 111 ilhas ou arquipélagos, numa iniciativa da National Geografic Traveler, que reuniu um painel de 522 peritos em turismo sustentável, e de a ilha do Pico ter sido classificada pela revista Islands como sendo a 4.ª melhor ilha do mundo para ter uma residência ou uma moradia turística, também nesse ano a Madeira foi eleita uma das 10 melhores ilhas europeias pelos leitores (que são mais de 3,5 milhões) da reputada revista Condé Nast Traveller, aparecendo num honroso 6.º lugar.

Ainda dentro dos critérios que pontuam e que constituem as vantagens competitivas do país na oferta turística, se quisermos fazer referência à qualidade das suas unidades hoteleiras, a Madeira marcava presença em 2011 no «25 Top Europe Resorts», conquistando o 21.º lugar com o Reid’s Palace. Em setembro de 2011 recebíamos a notícia de que o World Traveller Awards tinha atribuído a Portugal várias distinções entre as quais a distinção do melhor destino para a prática de golfe e o melhor destino de praia da Europa, não esquecendo as distinções que Lisboa tem obtido no circuito internacional como das melhores cidades para fazer férias e negócios.

Vivemos ainda tempos conturbados atravessando o país uma crise económica e social como há muitos anos não era sentida. Mas como alguém escreveu «O sol, o sal e o mar, trarão a Portugal no futuro, os recursos para a educação, para a saúde e para o progresso». Portugal joga o seu futuro em vários vetores, sendo sem dúvida o turismo um dos mais importantes para o progresso e crescimento económico, apesar de a concorrência externa ser cada vez mais forte, de, nos últimos anos, em especial a partir da crise iniciada em 2008, estarem encontrados novos destinos turísticos até aqui desconhecidos ou de se terem registado diferentes comportamentos, objetivos e expetativas na procura turística. Posto isto, muito trabalho está ainda por fazer tendo que ser adotados novos posicionamentos na oferta pois a procura turística tem vindo a exigir diferentes tipos de produto turístico, em especial ao nível do serviço, da flexibilidade e da conveniência, áreas que os agentes turísticos nacionais têm por vezes acompanhado mal.

Vemos hoje os sinais da crise os quais vieram alterar quer a procura quer a oferta turística entre os principais países concorrentes, ainda que tenhamos que olhar qualquer país do Mundo como um concorrente. Se atendermos por exemplo aos dados do INE de 2009, ano seguinte ao início da crise que trespassou a Europa, verificamos que a hotelaria registou 23,4 milhões de dormidas de turistas em Portugal, o que correspondeu a uma variação homóloga negativa de 10,7%. O grupo dos principais mercados emissores apresentou um desempenho maioritariamente negativo, liderado pelo Reino Unido (-21%). Neste ano, as receitas turísticas inverteram a tendência de crescimento do ano anterior, com uma quebra de 7,1%, acompanhando o comportamento das dormidas na hotelaria, sendo a maior parte dos turistas que visitam Portugal oriundos principalmente da União Europeia, com o Brasil e os EUA a constituírem as únicas exceções no conjunto dos 10 maiores mercados emissores de turistas para o nosso país.

Há no entanto que destacar as boas performances que o setor tem ultimamente registado em especial na qualidade da oferta de alguns agentes turísticos nacionais o que se prova através de resultados que evidenciam a relevância que o turismo representa para o crescimento económico e afirmação do país no exterior. Veja-se por exemplo o que resulta de um estudo realizado no verão de 2011 pelo Turismo de Portugal o qual concluíu que 85% dos turistas querem voltar de férias a Portugal e que 89% destes ficaram muito satisfeitos com as suas férias no país. Há,aliás, uma franja de 34% destes visitantes que afirma que ficaram acima das suas expetativas. Este estudo divulgou que o Algarve foi destino para 46% dos visitantes e a região de Lisboa para 42% daqueles. A cidade de Guimarães ficou com uma quota de 6% devido certamente ao facto de ter sido a Capital Europeia da Cultura.

Igualmente relevante foi constatar que 40% dos turístas escolheram o destino Portugal através da Internet, o que pode indiciar, por um lado, a falta de outras ações ou estratégias de comunicação alternativas mas por outro lado a importância deste meio de divulgação que dá a informação aos agentes turísticos ofertantes de que estes têm que se apetrechar com as novas ferramentas de comunicação e divulação da sua oferta, respondendo assim às exigências do mundo moderno.

Nota: Texto publicado na Revista Plano_#2,verão 2014, p.97-99.

Foto 

quarta-feira, outubro 15, 2014

A responsabilidade cívica e as moléculas do futuro

A. Lentes multifocais do conhecimento

Em qualquer instituição, independentemente do setor de atividade a que pertence, é possível entrar no incipiente cluster relativo à responsabilidade cívica. Para começar coloque-se a seguinte questão: em que medida a investigação científica encontra-se relacionada com a responsabilidade cívica? A resposta parece estar ao alcance da escassa minoria de visionários cientes de que o melhor laboratório não se esgota nos tubos de ensaio e nas experiências de acontecimentos certos. A investigação científica e a responsabilidade cívica constituem os elementos moleculares do futuro. O exórdio poderá parecer enigmático. Então decifremo-lo.

O futuro da inovação científica – e tecnológica – dependerá duma abordagem holística, que articule os saberes das ciências ditas exatas (como a Química ou a Física) com o domínio das consequências sociais decorrentes da materialização das soluções que a ciência desvenda. Tal significa inevitavelmente que os microscópios dos investigadores terão de se renovar, passando a dotar-se de lentes multifocais do conhecimento: as lentes para a visão ao perto continuarão a concentrar-se na ampliação celular, enquanto as lentes para a visão ao longe possibilitarão analisar a realidade sob outros pontos de vista – entre os quais o cívico.

No mundo moderno os decisores que se destacam não restringem a sua atuação aos negócios que gerem, por mais especialistas e profissionais que eles sejam. Deverão procurar distinguir-se, no tempo e no espaço, através de condutas e pensamentos polivalentes próprios, não raras vezes em contraciclo. Para os projetos de negócios atingirem a ambicionada sustentabilidade torna-se cada vez mais essencial que sejam dinâmicos e resilientes, elaborados necessariamente para se adaptarem aos vários planos de mercado, em que a componente financeira, ainda que fulcral, é apenas um dos planos.

B. Lançamento do livro do FRES

Da cabotagem…

Tomada a decisão de o FRES – Fórum de Reflexão Económica e Social (doravante FRES ou simplesmente Grupo) publicar o livro, houve que selecionar um prefaciador e um patrocinador elegíveis à luz do respeito dos princípios de rigor e isenção previamente identificados pelos seus elementos. Tal como os fresianos previram, o desfecho do processo da escolha do prefaciador foi desmesuradamente célere, pois a pessoa em causa – o Prof. Augusto Mateus –, para além de deter marcantes aptidões técnicas e profissionais, é uma personalidade que conjuga as capacidades de sobriedade, honestidade e sensatez reconhecidas, aptidões e capacidades que outrora tive oportunidade de comprovar e apreciar na generalidade quando o tempo nos intersetou.

Porém, tal como numa relação conjugal, mais importante do que dispor dum padrinho amigo e fiel, com quem o(a) nubente possa contar, é sentir-se convicto que a(o) consorte enquadra-se nos critérios da sua afeição em termos de atitude e temperamento e por isso confere-lhe uma desejável estabilidade, acima de tudo emocional. Saliento que esta menção não retira ao prefaciador uma gota do seu mérito, até porque para que uma relação seja harmoniosa é conveniente que haja uma convivência fraterna entre todos os intervenientes.

Ao invés, o processo da escolha do patrocinador antevia-se mais lento e difícil, não só por envolver o habitual e inevitável ingrediente financeiro, mas também por depender duma articulação meticulosa entre os itens de elegibilidade definidos pelo Grupo e a dimensão da oferta disponível. Seguiu-se uma abordagem fora da recomendada pelos cânones; não se enveredou pela opção de contacto com entidades de comunicação social, abdicando-se portanto das vantagens respeitantes à eventual notoriedade associada a tal opção.

Igualmente não se abordaram instituições que, por via direta ou indireta, estivessem ligadas a organizações políticas ou a corporações de qualquer natureza, para assim podermos assegurar de maneira plena a independência que tem caracterizado e orgulhado o FRES. Pensávamos que o patrocinador natural seria uma entidade do foro académico, fosse de direito público ou privado, por termos entendido que as análises fresianas são complementares à típica missão das universidades que lecionam cursos ligados às ciências económicas, sociais ou políticas.

A relação com o mundo académico revelou-se infrutífera, apesar de termos recolhido amáveis palavras de incentivo – umas menos circunstanciais que outras –, que muito agradecemos. Zarpámos depois para uma organização cívica não-governamental conceituada, mas perdemo-nos no nevoeiro antes da aurora. Não obstante a longa viagem costeira que até aí efetuáramos para alcançar o patrocinador apropriado, faltava ir mais além; carecia ousadia para sair da cabotagem e começar a aventura da navegação em mar-alto, indo até…

… ao Porto Salvo

Claramente a nossa abordagem estava mal delineada. Incorrêramos na inocência, examinando a duas dimensões o espaço que nos rodeava e com o qual melhor nos familiarizávamos, sem ter sopesado devidamente o facto de que as soluções repousam muitas vezes para lá do horizonte do nosso instinto e da nossa vontade. Tivemos de içar as velas e preparar as asas para outros domínios: latitudes, longitudes e sobretudo altitudes – ou não fosse do cimo que melhor se pressente e afere o desconhecimento. Foi então que se formataram as ideias já prensadas e se decidiu alargar o pensamento a desbravadas perspetivas. Refinaram-se os critérios preferenciais para encontrar corretamente o parceiro que não hesitasse em confiar numa equipa de ignotos atrevidos.

Desejava-se que a entidade patrocinadora conjugasse história com futuro. Adicionalmente, entendia-se por conveniente que articulasse, por um lado, uma gestão exigente orientada para a competitividade e, por outro, a observação escrupulosa da conduta social e das normas ético-legais. Como se este conjunto de requisitos não fosse só por si limitativo, ainda se aspirava, a título de tentativa de perfeição, que fosse um agente de referência tanto no âmbito interno como no contexto mundial, e que operasse num mercado aberto e regulado. Ocorreu uma tempestade de hipóteses, na medida em que, se os novos critérios permitiam alargar os alvos a mais setores do que inicialmente prevíramos, os mesmos restringiam as soluções visto que a conjugação dessas três condições tornava a meta mais distante e incerta.

Foi uma odisseia de silêncios incessantes, até que em ditosa hora um argonauta do Grupo assumiu o papel de comandante e vislumbrou uma conexão telepática, um calmo destino que não estava assinalado no nosso portulano. Levou o FRES a aportar num local mais que seguro – Porto Salvo –, onde a tradição rima com inovação, onde se cruzam os aspetos concorrencial e social, e onde há um equilíbrio entre as dimensões nacional e internacional dos mercados, razões explicativas para que a bonança tenha sido atingida, sem resquícios de hesitação, numa empresa filial dum grupo económico multinacional da indústria farmacêutica. Ou seja, conseguiu-se a gesta que não se antevia fácil: assegurar a tríade condicional enunciada no parágrafo precedente.

Com a aliança entre os fresianos e a empresa em apreço evitou-se a consanguinidade e, mais do que isso, dada a nítida e natural diferença de cromossomas entre as duas partes, registou-se um contributo para o reforço da qualidade genética de ambas. O êxito desta parceria reveste-se duma característica adicional de utilidade: a simbiose voluntária e incondicional entre as partes está isenta de subterfúgios ou interesses camuflados. Releva apenas o reconhecimento mútuo, bem como os sãos e harmoniosos elos de amizade.

A crónica da viagem poderia terminar aqui. Seria o suficiente quer para quem lê este post, quer para a própria empresa patrocinadora – a Jaba Recordati, S.A. Todavia para mim não basta, pois o patrocínio concedido ao FRES deve ser entendido como um convicto incentivo e não como um vulgar donativo com contrapartidas. Fica-nos bem que sejamos verdadeiros na apreciação e avaliação que fazemos dos acontecimentos, e que não haja timidez em elogiar, com sinceridade e sem bajulação, o perfil das pessoas e das instituições que nos rodeiam. Fundamentemos portanto a escolha do FRES.

C. Empresa patrocinadora

Binómio tradição-inovação

A conciliação da tradição com a inovação é uma das imagens vincadas da empresa. Ela, que se orgulha do passado, tem sabido usar as suas origens para catapultar o anterior grupo de empresas donde surgira, fornecendo produtos e prestando serviços de elevado valor acrescentado. É de enaltecer a forma harmoniosa como, após oito décadas em que o grupo português Jaba – acrónimo associado ao ilustre farmacêutico que esteve na sua génese, em 1927, o Dr. José António Baptista d’Almeida – e o grupo italiano detido pela empreendedora família Recordati – nascido em 1926 e hoje em dia com negócios espalhados por quase 140 países, cuja representação em cerca de seis dezenas deles é feita através de filiais e sucursais – andavam naturalmente por caminhos separados e, cientes do seu peso desproporcional, souberam dar as mãos, partilhando as virtudes e perfilhando as imperfeições de cada um.

A partir de 2007, ano do início da efetiva ligação luso-itálica, tem havido uma preocupação de a empresa consolidar economias de escala em todas as áreas de negócio onde opera, bem como de granjear sinergias nas atividades ligadas à vanguarda da investigação e do desenvolvimento. Tratou-se dum caso paradigmático de como, com a união, a perda parcial de autonomia da decisão nacional foi mais que compensada tanto com a consolidação da posição de mercado, como com doses adicionais de padrões de qualidade e de rigor científico dos produtos e serviços oferecidos.

Como exemplo deste último aspeto da compensação pode ser apresentada a crescente utilidade marginal que tem resultado da adoção de boas práticas nos campos do controlo laboratorial e clínico dos produtos, da segurança do processo de fabrico dos mesmos e do enraizamento da cultura de farmacovigilância. O tradicional enfoque na materialização de novas ideias terapêuticas tem sido uma permanente exigência, néctar donde são extraídos os resultados que permitem melhorar a vida dos cidadãos e disponibilizar medicamentos de acrescido valor científico e social.

O avultado e sistemático investimento efetuado nas áreas da inovação e da investigação, com recurso às técnicas modernas e aos equipamentos de topo, tem constituído um fator-chave para que a empresa e o grupo onde ela se insere solidifiquem o postulado de que a saúde é a felicidade diariamente renovada. Creio ser graças à genuína absorção deste postulado que a empresa tem articulado de forma notória a experiência acumulada com a facilidade com que encara e suplanta os sucessivos desafios de mercado.

Preocupações concorrencial e social

Outra valência específica da filial portuguesa do grupo Recordati reside no tato diferenciador de conjugar o inadiável objetivo de bom desempenho financeiro dos investimentos efetuados com o persistente respeito multidimensional do meio envolvente, especialmente na perspetiva dos equilíbrios humano, social e ambiental. A empresa, ciente que não pode abrandar a cadência da remada e que tem de harmonizar-se com o mercado e adaptar-se aos constrangimentos exógenos, entra em todas as oportunidades de negócio para deixar a sua indelével marca.

Como aparte refira-se que entre tais constrangimentos estão as restrições orçamentais e legais, compreensíveis e portanto válidas na medida em que decorrem, respetivamente, do facto de o orçamento do Serviço Nacional de Saúde ter vindo a sofrer avultados cortes e o setor farmacêutico ser um dos mais apertados em termos regulamentares (atentos o valor da saúde pública e a obrigação de assegurar a credibilidade clínica dos medicamentos). No entanto incluem um dos custos de contexto portugueses dispensáveis e facilmente ultrapassáveis: as limitações burocráticas, entre as quais residem os atrasos, às vezes injustificados, na atribuição de autorizações de novos produtos.

Seja nos produtos de marca própria – de prescrição médica ou de venda livre –, seja nos genéricos, a evolução contínua é um desiderato ininterrupto. O profissionalismo revela-se tanto na capacidade de alcançar os objetivos e na motivação de transpô-los, como na humildade de aceitar e assimilar falhas, transformando-as em desafios profícuos, razões pelas quais o umbilical compromisso com a auto-supervisão é uma evidência que define e honra a identidade da empresa.

Não obstante, a forte preocupação com a concorrência do mercado é equilibrada com a óptica social presente no quotidiano da empresa. Para a prossecução da faceta multidimensional já evocada, a empresa tem interiorizado o implícito lema de que satisfazer é tão importante quanto vender. A empresa dá valor aos seus credíveis orçamentos, todavia jamais descura os alheios sentimentos. Associar uma postura de proximidade (com os doentes, os seus familiares e a comunidade médica) à responsabilidade social consiste numa caracterização bastante redutora da realidade.

Na verdade a empresa trata sem exceção cada stakeholder como um parceiro estável. Assume inequivocamente que a satisfação das necessidades dos clientes passa tanto pelo pleno cumprimento das normas legais vigentes como pelo estabelecimento de exigentes regras ético-deontológicas próprias que credibilizam o caráter humano do serviço de saúde. Para tal procura munir-se dos apoios certos, tendo para o efeito sabido compatibilizar a dedicação e o talento dos seus empregados com a adequada recompensa – ao ponto de ser uma referência no contexto do mercado laboral português.

Mercados nacional e internacional

A cultura de governação instituída no grupo transalpino, de que os responsáveis executivos das filiais e sucursais sejam cidadãos nativos – o Dr. Nelson Pires, no caso da lusitana Jaba Recordati, com quem nunca me cruzei – é uma prática comprovadamente benéfica para todas as partes envolvidas no processo de delegação dos poderes de gestão. A circunstância de a empresa-mãe ser uma conceituada entidade cotada na bolsa de valores de Milão há 30 anos – cuja maioria das ações continua a ser detida pela família Recordati – não constitui um argumento usado para minguar o poder das filiais e sucursais espalhadas pelo Mundo. Antes pelo contrário; há a plena noção que é imprescindível manter a decisão, operacional e estratégica, no domínio nacional se se pretender concretizar o jargão que, na realização de negócios à escala planetária, há que agir localmente e pensar globalmente.

Apenas com tamanha abertura de espírito – de que quem se senta no cume hierárquico tem a humildade de delegar poder – é possível defender e consolidar o mercado nacional e levar à prática a máxima de que se deve promover a indústria portuguesa. É isto o que a Jaba Recordati tem contínua e incessantemente atingido – apesar de Portugal não ser a melhor solução em termos de custos de produção –, o que constitui um contributo para o crescimento da economia e do emprego nacionais.

Contudo a missão não se resume à escala nacional. A empresa assume compromissos igualmente ousados a nível internacional: reforçar o seu peso no seio do grupo, ajudando-o a conquistar quota de mercado. Neste âmbito, tem havido uma cooperação estreita e intensa entre a empresa portuguesa e os mercados africanos lusófonos, a qual vem sendo coroada de êxito para todos os intervenientes negociais. Recorrendo a tal experiência de cooperação, ela adota como uma das prioridades estratégicas o estabelecimento de laços comerciais com outros países africanos.

É notório o crédito crescente da filial portuguesa tanto sob o ponto de vista económico como científico. Apesar de a Jaba Recordati só representar aproximadamente 4% do volume de negócios do grupo – a filial espanhola regista um peso semelhante e o mercado italiano é responsável por 30% do montante global –, é reconhecida como uma das mais conceituadas em comparação com as congéneres. Mediante a influência e o impulso exercidos pela empresa, o nosso País tem tido uma participação ativa em programas de elevado valor científico acrescentado, nomeadamente na investigação de novas moléculas, algumas das quais desenvolvidas com o fito das descobertas revolucionárias para a cura de doenças raras, rondando os medicamentos para as combater os 10% do total das vendas farmacêuticas do grupo. Este último indicador reveste uma importância assinalável porquanto apenas cerca de 1% das doenças raras já identificadas dispõe de medicamentos autorizados para o seu tratamento.

D. Conclusão

O lançamento do livro do FRES evidenciou a invulgaridade que consiste na capacidade de os agentes ajustarem de forma espontânea os tradicionais microscópios à especificidade da era moderna, incorporando aos aparelhos de precisão revólveres de diversas lentes. Ademais, permitiu comprovar que não é paradoxal existirem entidades que, pese embora estarem literalmente focadas em áreas deveras minuciosas tais como obter soluções eficazes e eficientes para as aflitivas doenças raras, conseguem compatibilizar este nobre trabalho com a adoção de medidas que fomentem a interdisciplinaridade e os seus efeitos multiplicadores.

Cumpre repetir que com o post em apreço não se pretende fazer a apologia da empresa, mas tão-somente explicitar os motivos por que entendemos ela pertence a um conjunto muito limitado de entidades nacionais que observam as três condições traçadas e refinadas pelos fresianos, expostas no segundo parágrafo da segunda subsecção do ponto B. Ante a vontade e a capacidade de a filial portuguesa e as empresas do grupo multinacional em apreço compatibilizarem o rigor e a segurança das experiências e descobertas científicas com as consequências práticas na vida das pessoas que beneficiarão do conhecimento científico, é de enaltecer a sua perspicácia de olhar atenta e concentradamente para o microscópio da Humanidade.

O FRES regozija-se por ser uma das moléculas-alvo da investigação microscópica, e com isso permitir que a empresa se distinga também em termos de responsabilidade cívica, um dos elementos moleculares do futuro. Face ao exposto, conclui-se que a Jaba Recordati tem exportado para o Mundo a imagem dum Portugal moderno e dinâmico, conferindo um prestigiante contributo da prova que o País está preparado para encontrar soluções para os sucessivos problemas com que se vai deparando.

sábado, outubro 11, 2014

TAP: privatize-se, já!

Há quem faça o caminho da esquerda para a direita, mais comum, há quem faça o caminho da direita para a esquerda, há quem faça o caminho dentro de cada uma das correntes, de posições mais radicais para posições mais moderadas, e há quem faça o percurso inverso. Pessoalmente fiz um caminho da ideologia para o que considero certo ou errado, justo ou injusto, ou melhor, mais certo do que errado, mais justo do que injusto.

No que respeita às privatizações comecei por ser contra as de alguns setores estratégicos – não carece explicar aqui as razões – e depois passei a ser mais favorável. E comecei a ser mais favorável não por razões ideológicas, mas por razões práticas. A mudança começou no dia em que essas empresas perderam a sua identidade e se passaram a assemelhar a empresas privadas, copiando modelos e práticas. Concretizando com um exemplo, quando os CTT transformaram as estações de correios em bazares chineses e os empregados – deverei dizer colaboradores – me oferecem lotaria sempre que lá vou, não reconheço ali a dignidade de um serviço do Estado. Se nada distingue o público do privado, então que se venda, pelo menos não dá prejuízo, que um dia terá de ser pago.

Esta minha evolução começou assim. Perante cada caso, analisava já mais o comportamento da empresa em causa do que os benefícios mais tangíveis ou mais intangíveis para o país, porque é com as práticas quotidianas que eu lido e não com os benefícios macroeconómicos que no imediato não sinto. Houve uma empresa – a TAP – em que me mantinha mais ou menos neutral. Apesar de a empresa dar cronicamente prejuízo, de ter periódicas injeções de capital, e de isso um dia ter de ser pago, apesar das greves de pilotos e afins sempre por mais dinheiro numa empresa deficitária, mantinha-me neutral. Agradava-me ver os aviões brancos com a bandeira portuguesa e nomes de navegadores e outras figuras da nossa história, ao lado de outras companhias aéreas de bandeira, agradava-me o profissionalismo – por vezes snobe – e o aprumo das tripulações, e mais do que tudo confiava na segurança da sua quase mítica manutenção. Cheguei mesmo – para destinos mais inóspitos – a adiar a viagem ou pagar mais para voar na TAP. No fundo confiava na empresa e via nela um motivo de orgulho nacional: eis como temos, num sector nobre, uma empresa tão boa ou melhor do que as outras. A minha opinião tem vindo a evoluir nos últimos anos e foi alterada para «venda-se já» há umas semanas» depois de uma viagem de regresso de Londres. 

Nessa viagem paguei bilhete TAP, mas voei numa empresa chamada White. Isso não me foi dito, e como era de noite, e entrei por uma manga, nem dei conta do aspeto do avião. Mas lá dentro percebi que não era TAP. 

A conferir as diferenças:
  1. A tripulação envergava fardas White;
  2. A tripulação não tinha o aprumo TAP; 
  3. A tripulação falava entre si, contava piadas e tinha conversas laterais, mesmo com algum calão, em tom suficientemente audível para os passageiros ouvirem;
  4. Um jovem assistente de bordo apresentava uma camisa branca que parecia ter saído diretamente da máquina de lavar a 60º e sem ver ferro para o tronco do dito;
  5. Outro assistente, ao pedido de um passageiro para trocar o sumo de manga, respondeu que os sumos eram todos iguais; foi o passageiro que viajava ao lado que trocou o sumo com o primeiro; o assistente desculpou-se por não ter reparado, isto quando estava já nas últimas filas de distribuição da refeição;
  6. Não existia nos bancos a habitual revista da TAP, nem sequer televisão;
  7. O passageiro à minha esquerda abandonou o lugar depois da refeição para se ir sentar na executiva ao lado de alguém que deduzi ser o chefe dele; deixou o apoio de mesa aberto com o boião da fruta em cima, e o «assistente da camisa amarrotada» perguntou-me se ele já tinha bebido o sumo para poder recolher o boião, ao que lhe respondi não fazer ideia; em padrão TAP isto seria impensável;
  8. O assistente amarrotado andou a fazer a recolha das embalagens das refeições em – pasme-se – um grande saco de lixo transparente: isto seria mais do que impensável no padrão TAP.
Concluindo, paguei bilhete TAP mas voei com a White, sem ser avisado, o que me parece, no mínimo, enganoso, e viajei com um padrão inferior ao da TAP, com uma tripulação de padrão inferior ao da TAP.  A ser assim no que é visível, admito que possa não ser muito diferente no que não é visível. Por mim, o meu «veredito-cidadão» está feito: que se venda aquilo e quanto mais depressa melhor.

Foto - Paulo J. S. Barata

domingo, outubro 05, 2014

Sombra do petróleo e luz da democracia


A. Petróleo e comércio internacional

Percorrendo quase todas as latitudes e longitudes onde se estabelecem relações comerciais entre diferentes povos, dos lugares mais aprazíveis aos mais inóspitos, ressalta o domínio do petróleo. Para chegar a esta conclusão analisou-se o peso dos 20 produtos com maior valor de transação, identificando sempre que possível os países separadamente dos territórios não soberanos – por exemplo, a Dinamarca e a Gronelândia são economias distintas para efeitos da avaliação e da estrutura do comércio internacional.

A análise do comércio externo abrangeu praticamente todo o espaço terrestre, da jurisdição mais populosa (China) ao território com menos habitantes (Pitcairn). Entre o reduzido grupo – de pouco mais de duas dezenas – de economias não incluídas na análise por falta de informação, encontram-se sete países: Namíbia, Botswana, Lesoto, Suazilândia, Kosovo, Mónaco e Liechtenstein. Desse grupo, Porto Rico é o território não soberano com maior número de pessoas.

Em 2012 o ouro negro representava, no mínimo, 15,2% do montante do comércio internacional e 6,6% do PIB planetário – «no mínimo» porque apenas foram quantificadas as transações de produtos petrolíferos que se encontravam no top 20 das exportações e  importações de cada economia. Os três principais produtos envolvidos eram o petróleo em bruto (ou crude), o petróleo refinado e o gás de petróleo liquefeito, responsáveis respetivamente por 8%, 5% e 2,2% das exportações e importações mundiais.

Como aparte, note-se que as transações internacionais de metais preciosos e de produtos associados pesavam pelo menos 2,5% do valor comercializado a nível mundial – o ouro propriamente dito ocupava 69% de tais transações. O segundo grupo de produtos que concentrava maior volume de trocas comerciais – 7,6% do total – residia nos transportes (rodoviários, ferroviários, marítimos e aéreos). Deste volume, 84% referiam-se aos meios de transporte rodoviário, onde por sua vez se destacavam o comércio de carros, por um lado, e o de componentes de veículos automóveis, por outro, correspondentes a 63% e 25%, pela mesma ordem.

Voltando ao tema principal: entre as 226 economias observadas – que cobrem 99,8% do total da população estimada em 2013 e 98,9% do PIB mundial –, 48 eram exportadoras líquidas de petróleo. O crude era o principal produto exportado em 33 economias, e o segundo em sete ocasiões, frequência também verificada para o terceiro lugar do ranking das exportações. Em 28, 23 e 22 casos o petróleo refinado consistia na primeira, segunda e terceira posições das exportações.

Em 26 dessas 28 situações, tratava-se de economias deficitárias de produtos petrolíferos, facto revelador – na maior parte dos casos – da preocupação de as mesmas atenuarem a sua dependência acrescentando valor ao crude importado. Para o gás de petróleo liquefeito, sete, 15 e seis eram as correspondentes frequências para o primeiro, segundo e terceiro lugares. O ouro em si ocupava as três primeiras posições do pódio em 16, sete e quatro ocasiões. Portanto, entre os lugares possíveis no pódio – 3 x 226 –, os quatro produtos atrás identificados ocupavam 26% do total.

Restringindo a análise ao conjunto das economias da OCDE e da União Europeia, o perfil da constituição do pódio por produtos era bastante diferente. O crude era o dono da primeira posição das exportações na Noruega e no México, da segunda na Holanda e da terceira no Reino Unido e na Dinamarca. Nesse conjunto destacava-se a exportação de petróleo refinado. Este produto era o líder em 15 países – incluindo Portugal –, sendo o segundo mais exportado em quatro ocasiões, e o terceiro noutras tantas. A exportação de petróleo refinado, de carros e de componentes de veículos automóveis ocupava 40% dos lugares do pódio disponíveis no conjunto das economias em apreço.


B. Petróleo e democracia

Comprovada a hegemonia do petróleo no contexto do comércio internacional, convém contemplar outra realidade: o contributo do petróleo para o grau de democracia dos países. Para tanto foi preciso recorrer ao índice do estádio democrático respeitante a 2012, construído pelo imparcial e rigoroso jornal (ou revista) The Economist. O índice assentou em cinco categorias, a saber: processo eleitoral e pluralismo, liberdades civis, funcionamento do governo, participação política, e cultura política. A análise efetuada para efeitos do post em apreço abarca 161 nações, correspondentes a 99,3% da população e 98,7% do PIB mundiais. Comparando com a informação apresentada na parte inicial do antepenúltimo parágrafo, constata-se que os 65 países e territórios não incluídos na mensuração do jornal representavam tão-somente 0,5% da população e 0,2% do PIB.

Para aferir objetivamente a relação entre o peso do petróleo e a intensidade democrática, foi necessário dividir aquelas nações em três grupos, consoante o peso do saldo petrolífero – diferença entre exportações e importações – no total das exportações de cada país. O (A) primeiro abarca 78 países, cujo referido peso era inferior a -10% do valor global das exportações. O (B) segundo comporta 45 estados, em que o peso se situava entre -10% e 10% das suas exportações, pelo que o (C) terceiro inclui as restantes 38 nações – incluindo a Noruega –, onde o peso do saldo petrolífero assumia mais de 10% do total das exportações. Pertencentes ao grupo (B) existiam só seis economias com superavit petrolífero: Congo-Kinshasa, Costa do Marfim, Egito, Indonésia, Papua Nova Guiné e Síria.

O quadro seguinte reflete a distribuição de frequências, por grupo de países, em função do tipo de estádio democrático considerado pelo jornal.

Tipo de estádio democrático (*)
Frequências absolutas

Total
Grupo (A)
< -10%
Grupo (B)
[-10%, 10%]
Grupo (C)
> 10%
Democracia plena
Democracia imperfeita
Regime híbrido
Regime autoritário
7
30
24
17
16
13
7
9
1
8
5
24
24
51
36
50
Total
78
45
38
161
(*) Os três primeiros tipos são regimes democráticos, enquanto o último é classificado de jaez ditatorial.

Sublinhe-se que a avaliação da ligação entre o petróleo e a democracia baseia-se no índice de intensidade democrática e não no tipo de estádio constante do quadro anterior. Tal índice varia entre 0 e 10. Os valores mínimo e máximo estavam preenchidos pela lúgubre Coreia do Norte (1,08) e pela resplandecente Noruega (9,8). Tendo como referência o quadro de cima, Portugal (com um índice de 7,81) era uma das 30 democracias imperfeitas pertencentes ao grupo (A), visto que o défice lusitano respeitante aos produtos petrolíferos representava 14,2% do valor total das exportações (ou 3,7% do PIB nacional). Para o universo dos estados-membros da OCDE e da União Europeia, o défice petrolífero equivalia a 9,4% do valor das exportações (ou 3,3% do PIB).

A média e o desvio-padrão do índice de intensidade democrática eram, respetivamente, 5,68 e 1,82 para o grupo (A), 6,37 e 2,32 para o grupo (B), e 4,09 e 1,94 para o grupo (C). Cumpre assim testar a hipótese paramétrica de as médias dos índices serem iguais entre os vários grupos. Se a hipótese de igualdade for aceite, então admite-se que o saldo petrolífero é independente do estádio democrático dos grupos; no caso de ser rejeitada, será residual o erro de inferir a existência duma relação inversa entre o petróleo e a democracia.

Para a hipótese nula de igualdade das médias nos grupos (A) e (B), o valor da estatística obtida é -1,072 – resultante de (5,68 - 6,37) / [(1,82^2) / 78 + (2,32^2) / 45]^2. Como o teste da hipótese alternativa – de desigualdade – é bicaudal, e dado que para o nível de significância de 5% provém o valor crítico de -1,96, há que admitir a validade da hipótese de igualdade entre os grupos (A) e (B), ou seja, não se pode afastar a hipótese de os índices democráticos serem semelhantes nos dois grupos, independentemente do seu saldo petrolífero.

Conclusão bem diferente extrai-se da comparação quer entre os grupos (A) e (C), quer entre os grupos (B) e (C). Com efeito, para formular a hipótese de os índices democráticos associados aos países dos grupos (A) e (B) serem superiores aos registados para os estados do grupo (C), resulta que os testes da hipótese alternativa são unicaudais à direita, donde o valor mínimo da região crítica corresponde a 1,65 (também para o nível de significância de 5%). Para a igualdade das médias dos grupos (A) e (C), por um lado, e dos grupos (B) e (C), por outro, derivam os valores da estatística de 4,218 e 4,86, portanto claramente pertencentes à região crítica – sinónimo de que o poder do teste realizado é praticamente total –, o que permite rejeitar a hipótese de que, tanto entre os grupos (A) e (C), como entre os grupos (B) e (C), o nível médio do estádio democrático no grupo (C) difere do dos demais grupos e estará relacionado com a quantidade dos recursos petrolíferos.

Os resultados obtidos são consistentes com a ideia cimentada de que o petróleo e a democracia são frequentemente imiscíveis, tal como o azeite e o vinagre. Contudo, ao contrário destes dois – que se complementam –, o filão do petróleo e a fecundidade da democracia muitas vezes substituem-se e lutam entre si. É um confronto entre o poder da sombra e o espírito da luz. Por mais força avassaladora e constritora que a Píton petrolífera detenha, a razão e a sabedoria do Apolo democrático não se extinguirão. Será uma guerra entre o caos e a justiça, cujo epílogo se erguerá apenas quando for lançada a flecha da liverdade – liberdade com verdade –, a estrondosa estrela dos povos dignos do seu futuro.


quarta-feira, outubro 01, 2014

Petróleo, dinheiro e povo




O petróleo é o detergente universal que lava tudo: os princípios morais, os valores cívicos, a memória, a democracia e até o próprio dinheiro, o outro supremo poder. Conquista o universo inteiro, e com um infinito cheiro ousa o verbo corromper. É a lógica vincada do petróleo a seu bel-prazer. Porém o dinheiro – que não nasceu para ser segundo – tal lógica contraria. Ultraja este e qualquer mundo. No meio da fé abunda, do cimo ao fundo; e um vasto mar de lágrimas cria.

O povo assiste à luta titânica entre os dois primaciais poderes e concomitantemente sonha com a equidade, a paz e demais utopias. Contudo pouca pressão exerce para travar a luta. Sabe que é judas da felicidade, pois vira a cara à maldade e somente alimenta as fantasias. Muitas almas ebrifestivas não têm consciência que os teólogos agiotas do petróleo, do dinheiro e do pensamento dominam a sociedade, enquanto as restantes, apesar de conscientes, resignam-se e deixam passar os políticos idiotas que incentivam as batotas e poluem a verdade.

O petróleo não pestaneja. Está ciente que qualquer um deseja dominá-lo, mas que escassas vidas conseguem tamanho dote – apenas as que foram bafejadas pelo acaso do Criador. Apesar de o petóleo alastrar as trevas e fomentar a injustiça, quase todos perseguem os seus ígneos pecados. O dinheiro engalfinha-se e prontamente riposta com a sua vil dignidade. Afirma com arroubo e altivez que também compra moral, virtude e tudo o mais, e simultaneamente cultiva ódios e guerras. Reconhece que o branqueiam com alguns petrolíferos sais, só que ele – o dinheiro –, utilizando estratégias tais, impera em quaisquer terras, independentemente de o ouro aí existente ser negro ou de diferente cor já lavada.

Decerto que, face à força dos senhores do mando, o impávido povo adorava tanto alcançar a aura da revolta na sua alma. Seguramente ansiava ver os seus irmãos acordar e a coragem inflamar. Todavia é o egoísmo mordaz e crónico que o acalma. Ante tamanha incongruência entre a vontade duvidosa e a omissão convicta, o observador mais crítico comprovará que, mesmo o povo de honraria, nem honra dá ao seu honesto lanço. Minado de opulência e mania, contra a total tirania o Zé do Planeta é um animal soçobrado e manso. Ele é fundamental para perpetuar o tripé; caso contrário a dicefalia do poder desmoronava-se e o monstro sucumbia inanido.