Fórum de Reflexão Económica e Social

«Se não interviermos e desistirmos, falhamos»

quinta-feira, novembro 13, 2014

O preço do vinho e os mercados imperfeitos



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A. FRES Vinhos

Os visitantes deste blogue questionarão se o FRES mudou de agulha e transformou-se de grupo de reflexão económica e social em irmandade dos amigos de Baco. Não é o caso, se bem que o grupo integre confrades dotados de conhecimentos vínicos ao nível dalguns fazedores de opinião profissionais e consagrados. Para além disso, vários fresianos têm olfatos e palatos tão apurados e exigentes que conseguem deixar a anos-luz, no momento do casamento entre os vinhos e a comida, determinados chefes de mesa de restaurantes de nomeada.

FRES Vinhos constitui tão-só uma designação agregadora de posts associados ao vinho; no fundo é um elemento de dinamização dum produto tradicional da economia nacional. Nasce agora e, por falta de contributos, pode morrer dentro em breve. Apenas importa a intenção de atribuir ao setor vinícola a consideração que merece. Poderíamos desagregar o FRES por diversas áreas. FRES Vinhos é uma expressão comparável a FRES Impostos, área implícita composta pelos posts alusivos à fiscalidade. Quanto à classificação de assuntos, a etiqueta que talvez eu deva enaltecer refere-se a FRES Democracia, que junta uma série de contributos e reflexões acerca da democracia nacional, tendo culminado com a honra prestada ao 40.º aniversário do 25 de Abril.

Voltemos ao FRES Vinhos. Em primeiro lugar gostaria de declarar que não faço parte dos subconjuntos de fresianos acima identificados, sejam os experientes conhecedores das andanças do vinho ou os simples consumidores refinados. Saliente-se que, por outro lado, não tenho qualquer interesse económico nos setores da vinha e do vinho. Antes de avançar cumpre ainda informar que a grainha que esteve na génese do post em questão foi o preço do vinho no mercado internacional, como o título indiciará.

B. Da produção à exportação
B.1. Comércio internacional
O néctar milenar, expandido a partir do Antigo Egito, apadrinhado por Dionísio (e depois por Baco) e atualmente apreciado pela generalidade dos povos – exceto os muçulmanos, por motivos religiosos –, representava em 2012 cerca de 0,2% do comércio internacional. Ampliando as objetivas, conclui-se que 90% do comércio estava concentrado somente em 24 territórios (que, no seu conjunto, correspondiam a aproximadamente 36% da população e 72% do PIB mundiais). Considerou-se 2012 por ser o último ano em que estão disponíveis dados agregados definitivos respeitantes a todas as rubricas utilizadas nos dois gráficos do presente post.

O gráfico 1 expõe essas duas dúzias de territórios, dos quais nove são exportadores líquidos de vinho – os do lado esquerdo do eixo horizontal. Entre os 15 principais importadores líquidos, destacam-se os EUA e a Alemanha pelo facto de serem, respetivamente, o sexto e o sétimo maiores exportadores mundiais (atrás de França, Itália, Espanha, Austrália e Chile). Os 11 países exportadores atrás indicados – 9 + 2 – detinham quase 96% do valor (93% do volume) das exportações mundiais, razão pela qual convém que sobre eles recaia uma atenção algo refinada, o que acontecerá nas próximas duas subsecções.

Gráfico 1

Portugal era o 10.º no ranking, só à frente da África do Sul e da Nova Zelândia, consoante se trate de valor ou de volume das exportações – o valor sul-africano e o volume neozelandês exportados representavam 92% e 52% dos correspondentes valor e volume das exportações portuguesas. O montante anual das importações de vinho nacionais equivalia a 12% das exportações efetuadas em igual período.

A França, a Itália e a Espanha detinham 56% do volume – 15%, 21% e 20%, pela mesma ordem – e 60% do valor das exportações mundiais – cabendo cerca de metade ao primeiro país e aproximadamente um terço ao segundo. Uns exíguos 8% do montante global das exportações estavam reservados, no outro extremo, à Alemanha, a Portugal e ao Reino Unido. Os seis principais países exportadores emergentes nas últimas décadas – África do Sul, Argentina, Austrália, Chile, EUA e Nova Zelândia (doravante Novo Mundo) – possuíam 25% da quota de mercado do valor da exportação mundial, cada um deles com um peso semelhante ou superior ao do nosso País.

O Novo Mundo do vinho praticamente não tinha expressão até aos anos 80. Recorde-se que ele não brotou nem fluiu duma forma natural; antes pelo contrário. O fórceps foi a astuta iniciativa montada pelos norte-americanos, que permitiu demonstrar à razão que, por as crenças e os preconceitos distorcerem a concorrência, os mercados são muitas vezes imperfeitos e irracionais. Refiro-me essencialmente ao acontecimento fraturante que ficou gravado na História como o Julgamento de Paris, ocorrido em 1976. Voltaremos a este assunto em posterior oportunidade, por ser deveras importante para o cabal esclarecimento dalgumas lendas acerca da qualidade e do preço do vinho.

Na segunda metade da década de 80 a referida meia dúzia de novos países, ainda hoje apodada de interessantes, não ocupava mais do que 3% do volume das exportações mundiais de vinho. No final do milénio representava cerca de 15%, passando para quase o dobro (28%) apenas uma década depois. Tal acréscimo da quota de mercado – em termos quantitativos – foi necessariamente obtido sobretudo à custa dos tradicionais exportadores europeus de referência, em especial a França e a Itália. Apesar de os maiores países europeus verem as suas quotas percentuais cortadas, conheceram – com destaque para a Espanha e a Itália – aumentos significativos no volume de produção, fruto do crescimento sustentado do consumo mundial. Note-se por exemplo que, não obstante a partir de 2007 a contração da quantidade consumida ter rondado os 6%, nos primeiros sete anos do milénio o consumo reforçara-se à volta de 13%.

B.2. Análise por país exportador
Do gráfico 2 consta um conjunto de informação alusiva aos 11 principais países exportadores. Apresentam-se da esquerda para a direita, por ordem decrescente do preço médio das exportações, variável central do presente post, conforme mencionado. Antes de abordar esta variável, interprete-se a restante informação do gráfico, que permite enquadrar objetivamente o tema em apreço.

Gráfico 2


Pode observar-se que a relação entre os volumes de vinho exportado e produzido era substancialmente maior na Nova Zelândia (91%), o dobro da média ponderada do peso calculado para o universo dos países identificados – 54% em Portugal. O gráfico mostra igualmente a decomposição daquela relação, evidenciando os rácios entre a quantidade de vinho exportado e consumido em cada país, por um lado, e entre o vinho consumido e produzido, por outro.

Em cinco países o volume exportado superava o consumo interno – de 109% na África do Sul a 277% no Chile, passando pela Austrália, Nova Zelândia e Espanha. O rácio médio ponderado nos 11 países era de 65% – 73% em Portugal. Nos mesmos cinco países registava-se o menor peso entre o consumo e a produção. O peso era naturalmente maior nos dois países importadores líquidos já explicitados: os EUA e a Alemanha. O peso médio ponderado era de 70% – 74% em Portugal.

Atenda-se a que para o efeito se considerou a quantidade total de vinho (de qualquer tipo, nomeadamente tranquilo, gaseificado e fortificado), engarrafado em recipientes com capacidade até dois litros, bem como o vinho comercializado a granel, embora este último conceito abarque uma diversidade de situações. De facto, de acordo com os critérios internacionais, o vinho a granel vai desde o vinho envasilhado em recipientes com capacidade superior a dois litros vendido aos consumidores finais até ao exportado em contentores (apropriados à preservação das características organoléticas do vinho) e engarrafado somente nos mercados de destino.

B.3. Quantidade, qualidade e preço

Entre os 11 países, os vinhos franceses eram indiscutivelmente os mais bem vendidos: 6,83 dólares por litro. Acima da média (ponderada, de 3,26 dólares) encontravam-se ainda a Nova Zelândia e os EUA – respetivamente 5,93 e 3,45. Portugal (com 2,64 dólares) situava-se 19% abaixo da média. Os entendidos nas áreas da vinha e do vinho costumam defender a premissa de que normalmente a quantidade e a qualidade da produção evoluem em sentidos opostos. Assim sendo, por aplicação da premissa, são forçados a explicar o preço do vinho em função da quantidade produzida e a preconizar que esse preço é um indicador da qualidade do bem transacionado.

Desmonta-se facilmente a forma intransigente como inúmeras vezes a premissa é divulgada. Para além de não haver qualquer relação inversa entre o preço do vinho exportado e o volume das exportações, verificava-se pelo contrário uma relação positiva forte (de 0,78), o que viola uma lei fundamental do funcionamento dos mercados em ambiente de forte concorrência, segundo a qual, para uma determinada quantidade procurada, quanto maior for a quantidade oferecida, maior será a pressão para os preços descerem.

Retorquirão os mais céticos que o preço não depende da quantidade (ou do volume) mas sim da qualidade. À partida admite-se este argumento apenas se os céticos não foram os mesmos que apoiam a premissa (já identificada) sobre a relação inversa entre a quantidade e a qualidade. Porém o argumento torna-se bastante questionável, porquanto para assegurar a sua validade seria preciso comprovar que é a qualidade exalada pelo vinho francês – note-se que a França possuía uma quota de mercado do valor da exportação mundial de vinho de 31% (15% em volume) – que justifica a divergência abissal de preço face à maioria dos demais concorrentes de quaisquer plagas, do Velho e do Novo Mundo. A matéria será desenvolvida em tempo oportuno.

Outra perspetiva que merece ser analisada prende-se com a produtividade das vinhas. Com efeito, relacionar o preço e a quantidade do vinho exportado pode não ser suficiente para equacionar as diferenças de preços, pois a quantidade é per se uma variável absoluta. Existe assim a necessidade de articular o volume de exportação com a área utilizada (no pressuposto normal que a vinha usada para o vinho de exportação tem uma produtividade idêntica à da vinha usada para o vinho consumido no mercado interno). É por isso que no gráfico 2 consta a produtividade das vinhas em cada um dos países.

A relação estatística entre o preço médio do vinho exportado e a produtividade média das vinhas é nula. No domínio da produtividade o nosso País destacava-se humildemente face aos restantes, ou seja, pela negativa, com apenas 2,67 quilolitros de vinho por hectare de vinha, i.e., 46% abaixo da produtividade média (4,93). Conjugando essas duas variáveis, por exemplo através da semissoma do preço do vinho exportado e da produtividade das vinhas (mesmo que o resultado não tenha significado económico), denota-se claramente que os países mais bem colocados eram a França, a Alemanha e a Nova Zelândia – o primeiro e o terceiro são exportadores líquidos antípodas tanto em termos geográficos como em relação à tradição vinícola. Enquanto a França ocupava a alcandorada posição, o carro-vassoura seguia o trilho da Espanha, que estava pouco atrás do seu vizinho ibérico.

Numa distância demasiado curta à dimensão planetária mas enorme à escala das condições climatéricas para a floração das videiras e a maturação das uvas – distância à volta de dois mil quilómetros, entre as regiões vinícolas do soalheiro sul de Portugal e do sombrio norte da França –, assiste-se aos extremos incrustados de geração em geração, de mito em mito: entre Portugal e França, cada um tem o que a (des)ditosa fama dita. Trata-se duma evidência preocupante que merece uma atenção acrescida, até porque ainda não surgiu a tão aguardada retoma do consumo mundial, bastante atingido pela crise económica avolumada a partir de 2008 e, como se o atraso da retoma não bastasse, o preço real do vinho encontra-se ao nível do do início do milénio.

C. Principais mitos

No próximo post tentarei avançar com algumas explicações para o arrepiante e misterioso hiato entre o preço médio do vinho francês e o preço praticado pelos outros países. Para entrar no âmago do preço irei apresentar, sob a forma do desenraizamento de mitos, algumas hipóteses simples em relação ao dogma frequentemente instituído de que le vin c’est français e o resto é pouco mais do que paisagem. A tentativa poderá soar a ousadia da minha parte, admitindo portanto que choverão reações severas vindas dos especialistas dos vários quadrantes.

Certamente que alguns entusiásticos membros das ordens regulares e demais críticos doutrinários ficarão abespinhados comigo por considerem que a desmistificação que procuro encetar não passa duma blasfema manifestação de opinião. Uns acusar-me-ão de insolência ou arrogância; outros somente de desconhecimento ou ingenuidade. Assim seja, embora deva anunciar de antemão que partirei para o exercício com a mente aberta a todas as conclusões.

Se no atual post as evidências resultaram do tratamento dos dados publicados por vários organismos internacionais, com destaque para a Organização Internacional da Vinha e do Vinho, no próximo as desmistificações – ou blasfémias, como entenderem – basear-se-ão essencialmente na viagem silenciosa, ascética e enclausurada ao mundo vínico, para não ser influenciado pela subjetividade inebriante doutras pessoas em relação ao espírito que a bebida transmite.

Procurarei desmontar oito mitos que, a meu ver, têm influenciado determinantemente o preço dos vinhos e distorcem o mercado internacional – e por conseguinte a concorrência –, a saber:
1) A alma do vinho é o seu terroir.
2) O corpo do vinho consiste nas castas.
3) A produção massiva reflete-se negativamente na qualidade e no preço do vinho.
4) Os vinhos de alta qualidade têm marcantes características singulares.
5) Os vinhos ambiciosos melhoram com a idade.
6) Os vinhos superiores dispensam a boca.
7) A Cabernet Sauvignon é de Bordéus e o resto não passa de imitação.
8) A França contém as regiões vinícolas mais distintas do Mundo.


Para quem sente como dogmas as oito afirmações, poderá a si próprio fazer o desafio de refletir sobre as mesmas – ainda que a tarefa dificilmente se vislumbre, a qual será tanto mais improvável quanto mais enfeudadas à corrente dominante estiverem as opiniões. O que para uns são teorias incontestáveis ou convicções escudadas, para mim não passa de mitos. Tentarei ser claro e objetivo na atrevida tarefa de refutar as mencionadas afirmações míticas – que em rigor são apenas uma amostra –, permitindo concluir que os fundamentalismos abundam e vão para além do clubismo, da religião ou da política. Alea jacta est.

segunda-feira, novembro 03, 2014

Turismo - O nosso petróleo renovável


Com base no tratamento dos dados disponíveis no site knoema.com, referentes a 2012, constatava-se que em Portugal as receitas líquidas do setor do turismo representavam 4,7% do PIB. Para além do nosso país, nos espaços da UE e da OCDE só havia três economias cuja globalidade das receitas turísticas suplantava o défice petrolífero: Croácia – não obstante ter-se tornado Estado-membro da UE somente no início do segundo semestre de 2013 –, Grécia e Turquia.

No conjunto das quatro citadas nações, a Croácia era a mais especializada no turismo, visto que este setor de atividade gerava um benefício – diferença entre as exportações (ou receitas) e as importações (ou despesas) – correspondente a 13,7% do PIB nacional. Em Malta o défice petrolífero (de 15,2% do PIB), o maior de todos no seio dos estados da UE e da OCDE, superava o superavit turístico (de 11,9% do PIB).

De acordo com a mesma fonte, em 2012 as exportações e as importações de turismo portuguesas equivaliam a 6,9% e 2,2% do PIB, enquanto em 2000 as percentagens eram de 5,1% e 2,3%, ou seja, numa dúzia de anos o benefício líquido do setor em apreço cresceu de 2,8% para os atrás assinalados 4,7% do PIB, o que é de enaltecer. Em 2013 a realidade melhorou, tendo o saldo da balança turística aumentado 8,3% face ao exercício anterior.

Devido à conjugação de vários fatores, em 2013 conquistou-se a façanha de, tanto a balança corrente como a balança comercial, terem sido superavitárias – excedente de 881 e 2845 milhões de euros, respetivamente –, marco histórico desconhecido há sete décadas. Para a inflexão do saldo comercial concorreram no mesmo sentido a balança de bens (59%) e a balança de serviços. Dos 41% de contributo desta última, 1/4 deveu-se ao efeito positivo da balança de turismo – os restantes 3/4 prenderam-se por exemplo com serviços de transporte, de comunicações, financeiros e empresariais (tais como os royalties).

Em 2014 os resultados da balança turística têm sido razoavelmente animadores, ao invés do que sucede na balança corrente. Com efeito, o saldo negativo, registado no final do primeiro semestre do presente ano, de 1342 milhões da balança corrente – por oposição ao mencionado superavit de 881 milhões em 2013 – eclipsou totalmente o excedente de 2456 milhões da balança de turismo ocorrido de janeiro a junho deste ano (6130 milhões em 2013). Aguarda-se que o segundo semestre consiga manter o feito alcançado no final de 2013 salientado na parte inicial do parágrafo anterior.

O gráfico seguinte inclui os 25 principais territórios exportadores turísticos, ordenados da esquerda para a direita segundo a quota de mercado das suas receitas de turismo. Esse quarteirão era responsável por 3/4 das exportações turísticas e do PIB mundiais. Apresenta-se ainda o peso do turismo líquido de cada economia face à totalidade de receitas turísticas mundiais, bem como a relação entre o PIB dos correspondentes territórios e o PIB mundial.



Considerando os 147 territórios que em 2012, de acordo com o site identificado no primeiro parágrafo, obtiveram receitas provenientes do setor do turismo, nota-se que os seis mais deficitários foram a China, a Alemanha, a Rússia, o Japão, o Canadá e o Reino Unido. Desse gráfico constam igualmente as 12 economias que no mesmo ano granjearam maiores superavits turísticos no contexto mundial – Portugal encontrava se num honroso 10.º lugar.

No tocante à quota de mercado mundial das exportações brutas de turismo, Portugal era o 23.º território com maior valor de receitas – com uma quota de quase 1,2% –, à frente de tradicionais destinos turísticos como o México e a Grécia. No universo da indicada quase centena e meia de territórios, o peso da economia portuguesa no quadro internacional (medido em termos do PIB) era de cerca de 0,3% – 47ª posição no ranking –, ao passo que a quota de mercado referente ao turismo líquido mundial – associada ao 10.º lugar já mencionado – rondava os 0,8%. Portanto, a quota de Portugal no montante global das exportações turísticas era aproximadamente o quádruplo da sua quota detida em relação ao PIB mundial – 1,2% / 0,3%.

Abra-se um parêntesis acerca de Macau. Recolheu o sétimo maior volume de receitas provenientes do turismo – essencialmente do jogo –, equivalente a mais de 1/5 do volume recebido pelos EUA e acima do triplo do auferido por Portugal. Contudo, conjugando as receitas com as despesas turísticas, Macau foi a segunda economia com maior montante de superavit, logo atrás do gigante norte-americano, como o gráfico denota.

O território asiático encabeçava nitidamente a relação entre o peso nas receitas de turismo internacional e o peso no PIB mundial – o peso no turismo excedia 51 vezes o peso no PIB, enquanto em Portugal tal relação era de quatro, conforme explicitado na parte final do penúltimo parágrafo. A desproporção deve-se ao facto de o saldo turístico macaense representar 83% do seu PIB – a segunda economia mais dependente do turismo era a das Maldivas (com 70% do PIB).

Retomemos à situação portuguesa. Para nos aproximarmos do centro turístico mundial muito tem sido desenvolvido; porém bastante está por encetar. Uma parte do que está por realizar decorre do sonho e da iniciativa; a outra depende da criação de condições favoráveis à dinamização do turismo, que passam nomeadamente pela eliminação de entraves burocráticos. A este propósito convém lembrarmo‑nos da visão (mais do que anacrónica: sombria) do Instituto da Conservação da Natureza, agora designado de Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas, em relação à (recorrente falta de) articulação entre o respeito exuberante pelo meio ambiente e o crónico arranque adiado do desenvolvimento regional.

Também devemos trazer à colação os doutos pareceres das associações ambientalistas. Por norma estão contra os projetos de construção, independentemente dos benefícios de desenvolvimento advindos para a sociedade. Um caso paradigmático sempre recordado – entre dezenas – foi a exacerbada oposição emergida aquando da construção da Ponte Vasco da Gama. É pena que o vigor que as associações impõem nas suas contestações se cinja à perspetiva fundamentalista do meio ambiente e não se preocupem com o financiamento dos projetos, sobretudo quando estes envolvem parcerias público‑privadas. Não se pode exigir tal preocupação aos ambientalistas, é certo; mas é no mínimo expectável que sejam sensatos e humildes na apreciação dos assuntos que abordam.

O meio ambiente não é um museu e muito menos uma coutada (seja de qualquer entidade pública ou organização não governamental, seja dos operadores turísticos); é um bem nacional valioso que cumpre ser fertilizado e estar ao serviço das populações. Lá vai o tempo da validade do provérbio «o bom pano na arca se vende». O património público – seja natural, histórico ou de demais géneros – só tem utilidade se estiver exposto e for racionalmente valorizado. Apenas um tipo de turismo pode aspirar a ser sustentável: o que vende património de forma inovadora.

É através desta via, aberta e moderna, de conjugação do património com a criação de riqueza e de emprego, que se conseguirá dar alguma credibilidade ao objetivo de combate efetivo à desertificação do interior – e porventura do litoral. E ao contrário do que sucede com o petróleo, cuja exploração conduz forçosamente ao seu esgotamento, no turismo ocorre uma odorífera relação simbiótica para todas as partes: Homem, Natureza e História. Daí que o turismo seja o nosso petróleo renovável.

Temos ainda muito património e muito povo por desvendar. Parabéns aos agentes turísticos, sejam privados ou públicos, e a todos os elementos que, num mercado cada vez mais cobiçado mundialmente, contribuem para o fomento da imagem do património e da credibilidade do povo. Que continuem com força e arte para caminhar por estradas honestas e seguras, e com energia bastante para percorrer o horizonte que abraça o destino ancestral do País ao futuro dos portugueses.

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