Fórum de Reflexão Económica e Social

«Se não interviermos e desistirmos, falhamos»

segunda-feira, novembro 03, 2014

Turismo - O nosso petróleo renovável


Com base no tratamento dos dados disponíveis no site knoema.com, referentes a 2012, constatava-se que em Portugal as receitas líquidas do setor do turismo representavam 4,7% do PIB. Para além do nosso país, nos espaços da UE e da OCDE só havia três economias cuja globalidade das receitas turísticas suplantava o défice petrolífero: Croácia – não obstante ter-se tornado Estado-membro da UE somente no início do segundo semestre de 2013 –, Grécia e Turquia.

No conjunto das quatro citadas nações, a Croácia era a mais especializada no turismo, visto que este setor de atividade gerava um benefício – diferença entre as exportações (ou receitas) e as importações (ou despesas) – correspondente a 13,7% do PIB nacional. Em Malta o défice petrolífero (de 15,2% do PIB), o maior de todos no seio dos estados da UE e da OCDE, superava o superavit turístico (de 11,9% do PIB).

De acordo com a mesma fonte, em 2012 as exportações e as importações de turismo portuguesas equivaliam a 6,9% e 2,2% do PIB, enquanto em 2000 as percentagens eram de 5,1% e 2,3%, ou seja, numa dúzia de anos o benefício líquido do setor em apreço cresceu de 2,8% para os atrás assinalados 4,7% do PIB, o que é de enaltecer. Em 2013 a realidade melhorou, tendo o saldo da balança turística aumentado 8,3% face ao exercício anterior.

Devido à conjugação de vários fatores, em 2013 conquistou-se a façanha de, tanto a balança corrente como a balança comercial, terem sido superavitárias – excedente de 881 e 2845 milhões de euros, respetivamente –, marco histórico desconhecido há sete décadas. Para a inflexão do saldo comercial concorreram no mesmo sentido a balança de bens (59%) e a balança de serviços. Dos 41% de contributo desta última, 1/4 deveu-se ao efeito positivo da balança de turismo – os restantes 3/4 prenderam-se por exemplo com serviços de transporte, de comunicações, financeiros e empresariais (tais como os royalties).

Em 2014 os resultados da balança turística têm sido razoavelmente animadores, ao invés do que sucede na balança corrente. Com efeito, o saldo negativo, registado no final do primeiro semestre do presente ano, de 1342 milhões da balança corrente – por oposição ao mencionado superavit de 881 milhões em 2013 – eclipsou totalmente o excedente de 2456 milhões da balança de turismo ocorrido de janeiro a junho deste ano (6130 milhões em 2013). Aguarda-se que o segundo semestre consiga manter o feito alcançado no final de 2013 salientado na parte inicial do parágrafo anterior.

O gráfico seguinte inclui os 25 principais territórios exportadores turísticos, ordenados da esquerda para a direita segundo a quota de mercado das suas receitas de turismo. Esse quarteirão era responsável por 3/4 das exportações turísticas e do PIB mundiais. Apresenta-se ainda o peso do turismo líquido de cada economia face à totalidade de receitas turísticas mundiais, bem como a relação entre o PIB dos correspondentes territórios e o PIB mundial.



Considerando os 147 territórios que em 2012, de acordo com o site identificado no primeiro parágrafo, obtiveram receitas provenientes do setor do turismo, nota-se que os seis mais deficitários foram a China, a Alemanha, a Rússia, o Japão, o Canadá e o Reino Unido. Desse gráfico constam igualmente as 12 economias que no mesmo ano granjearam maiores superavits turísticos no contexto mundial – Portugal encontrava se num honroso 10.º lugar.

No tocante à quota de mercado mundial das exportações brutas de turismo, Portugal era o 23.º território com maior valor de receitas – com uma quota de quase 1,2% –, à frente de tradicionais destinos turísticos como o México e a Grécia. No universo da indicada quase centena e meia de territórios, o peso da economia portuguesa no quadro internacional (medido em termos do PIB) era de cerca de 0,3% – 47ª posição no ranking –, ao passo que a quota de mercado referente ao turismo líquido mundial – associada ao 10.º lugar já mencionado – rondava os 0,8%. Portanto, a quota de Portugal no montante global das exportações turísticas era aproximadamente o quádruplo da sua quota detida em relação ao PIB mundial – 1,2% / 0,3%.

Abra-se um parêntesis acerca de Macau. Recolheu o sétimo maior volume de receitas provenientes do turismo – essencialmente do jogo –, equivalente a mais de 1/5 do volume recebido pelos EUA e acima do triplo do auferido por Portugal. Contudo, conjugando as receitas com as despesas turísticas, Macau foi a segunda economia com maior montante de superavit, logo atrás do gigante norte-americano, como o gráfico denota.

O território asiático encabeçava nitidamente a relação entre o peso nas receitas de turismo internacional e o peso no PIB mundial – o peso no turismo excedia 51 vezes o peso no PIB, enquanto em Portugal tal relação era de quatro, conforme explicitado na parte final do penúltimo parágrafo. A desproporção deve-se ao facto de o saldo turístico macaense representar 83% do seu PIB – a segunda economia mais dependente do turismo era a das Maldivas (com 70% do PIB).

Retomemos à situação portuguesa. Para nos aproximarmos do centro turístico mundial muito tem sido desenvolvido; porém bastante está por encetar. Uma parte do que está por realizar decorre do sonho e da iniciativa; a outra depende da criação de condições favoráveis à dinamização do turismo, que passam nomeadamente pela eliminação de entraves burocráticos. A este propósito convém lembrarmo‑nos da visão (mais do que anacrónica: sombria) do Instituto da Conservação da Natureza, agora designado de Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas, em relação à (recorrente falta de) articulação entre o respeito exuberante pelo meio ambiente e o crónico arranque adiado do desenvolvimento regional.

Também devemos trazer à colação os doutos pareceres das associações ambientalistas. Por norma estão contra os projetos de construção, independentemente dos benefícios de desenvolvimento advindos para a sociedade. Um caso paradigmático sempre recordado – entre dezenas – foi a exacerbada oposição emergida aquando da construção da Ponte Vasco da Gama. É pena que o vigor que as associações impõem nas suas contestações se cinja à perspetiva fundamentalista do meio ambiente e não se preocupem com o financiamento dos projetos, sobretudo quando estes envolvem parcerias público‑privadas. Não se pode exigir tal preocupação aos ambientalistas, é certo; mas é no mínimo expectável que sejam sensatos e humildes na apreciação dos assuntos que abordam.

O meio ambiente não é um museu e muito menos uma coutada (seja de qualquer entidade pública ou organização não governamental, seja dos operadores turísticos); é um bem nacional valioso que cumpre ser fertilizado e estar ao serviço das populações. Lá vai o tempo da validade do provérbio «o bom pano na arca se vende». O património público – seja natural, histórico ou de demais géneros – só tem utilidade se estiver exposto e for racionalmente valorizado. Apenas um tipo de turismo pode aspirar a ser sustentável: o que vende património de forma inovadora.

É através desta via, aberta e moderna, de conjugação do património com a criação de riqueza e de emprego, que se conseguirá dar alguma credibilidade ao objetivo de combate efetivo à desertificação do interior – e porventura do litoral. E ao contrário do que sucede com o petróleo, cuja exploração conduz forçosamente ao seu esgotamento, no turismo ocorre uma odorífera relação simbiótica para todas as partes: Homem, Natureza e História. Daí que o turismo seja o nosso petróleo renovável.

Temos ainda muito património e muito povo por desvendar. Parabéns aos agentes turísticos, sejam privados ou públicos, e a todos os elementos que, num mercado cada vez mais cobiçado mundialmente, contribuem para o fomento da imagem do património e da credibilidade do povo. Que continuem com força e arte para caminhar por estradas honestas e seguras, e com energia bastante para percorrer o horizonte que abraça o destino ancestral do País ao futuro dos portugueses.

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