Fórum de Reflexão Económica e Social

«Se não interviermos e desistirmos, falhamos»

sexta-feira, abril 25, 2014

Carta aberta a Abril Amigo


Exmo. Senhor Abril Amigo,

Em primeiro lugar, peço imensa desculpa por, neste dia tão festivo – e controverso entre os atuais democratas do poder e os democratas patriarcas da liberdade – e de suprema felicidade para si e sobretudo para nós, escreverlhe para manifestar a minha avaliação sobre o balanço da sua idade. Admito que não me considere simpático, perante as observações que passo a expor. Acaso se melindre com algumas delas, gostaria que ficasse ciente que apenas pretendo ser prático. Acredite que a exposição é um pouco incisiva porque o aprecio e valorizo… profundamente. Se bem que possa prescindir da minha atenção, eu não dispenso a sua – lamento ser sincero consigo e honesto comigo.

Reconhecerá seguramente que naquela primavera o sol brilhou demais e, com tamanha alegria, cegou. Para as trevas da ignorância silenciosamente foi e continua a ir, e o seu próprio destino enterrou, levantando por oposição – contudo nem sempre legitimamente – o de tantos. Os inocentes são contagiados pelo vício de vaidade daqueles que o amigo Abril Amigo ajudou a levantar – i.e., a desequilibrar. Mais do que contágio, provavelmente é uma persistente doença – provinda da hereditariedade ou então do obscuro surgimento –, que propagou ao ponto de não se vislumbrar um tratamento que a contenha.

Por norma, o Senhor refundese no esquecimento e na sina desventurada, aguardando que um milagre venha, agora que a enfermidade foi desvendada. Tem convivido com camuflados padrastos, que o conspurcam e nem assim mostra ofensa. Viu a alma ser lancetada pelos obreiros e lordes fazedores de opinião e transformada em colossal e solidificada desgraça e em arcaica e dura mentalidade. A doçura redolente que em si brotou foi injetada pelo temporal infernal. Os sinais são reveladores dum estado febril permanente, interrompido pela loucura, típico de que o seu organismo anda fraco. Custa perguntar: desanimado e com o orgulho ferido, existe cura para a rara descrença?

Vinte e cinco e os quarenta vilões é um lugar de mansos e galifões, um reino de convívio de leões, tubarões, abutres e restantes carnívoros concorrentes à altura das galinhas no poleiro que não se importam com quem está debaixo. Duma sardinha para três pessoas, o caro Abril aceitou que frequentemente a canastra passasse para uma só. Concordará que dispõe duma infinita capacidade de encaixe: vãolhe às entranhas e não se magoa; aceita os pulhas – com as fingidas imagens boas – que esmifram tudo, sem apelo ou dó; e em contrapartida sobrevive a apertado nó. Sem querer, tem fantasiado filhos e netos; mas a involuntária tentação não releva, pois sabe que faltam valores nobres e retos.

Enquanto usufrui da profunda e completa anestesia, parece que respira gáudio em ser manchado, mesmo cheio de dívidas – enforcado. Eis o fruto duma vasta hipocrisia de quem o pôs nessa vergonhosa situação. A angústia veio na esgalha porque a testosterona, irrompida em abril, no início de maio abalou. O Senhor Amigo teme os papões, permanece infantil e esquecese do que o Zeca lhe ensinou. Propagamse as colónias de fungos, vírus e bactérias, cujos vastos danos são tratados com lérias, ou não fosse a especialidade dos lentes insignes e trapaceiros.

No manicómio do pensamento castrado estão os pais que foram pelos próprios filhos desonrados e torpemente condenados. O estimado Abril tem uma grave consciência decadente, segundo apregoa a maioria da sua população. Com esse problema sério e incurável os parasitas continuam em frente e tornam a honra permeável. Possui a visão afetada mas vê de bomtom os conselhos que o afundam. Classificamno de invejoso se é causídico e reclama e, quando aponta o dedo, tomamno como malcriado. Emana raízes quadradas e cúbicas, e tãopouco uma simples erva abana.

As suas metástases abundam, e pelos vários órgãos se alastram. Julgo que para a mente destonificada a solução encontrará, embora não seja fácil, atendendo ao que tem acontecido. Constatará certamente que a ciência tem saído refutada, pois as vacinas e os cicatrizantes que lhe administram causam contraindicações más, com os antibióticos idem, e sem efeito resultam os tranquilizantes. O Senhor é refém da cura enganada, onde nem os sedativos incidem e os demais fármacos valem nada. Em si estacaramlhe o egoísmo, e por isso está pejado de ostentação e futilidade.

Equivocase, não se apercebendo que tem sido a irrefletida perfeição do servilismo. No fim de contas, para pôr no prego, sobra a saudade dos que partem levando a esperança e deixando a agonia. Paralelamente, abunda o livre fascismo disfarçado, com boys e lobbies do alto ao lado, e para música de fundo foi contratada a imprensa – que mora em igual tacho (por opção dela) ou então na ínfima posição (imposta) que pode existir mais abaixo. Ninguém ousa tocar a rebate. Os comandantes políticos expõem ações para abate, e até com o voto o povo é capacho – da esquerda à direita, a escolha revelase impossível ou demasiado estreita. Quase nada o salva, inclusive a prece, Abril – entendo que, após o que já transmiti nesta carta, posso dirigirme a si com acrescida proximidade.

Não seja dono dum corpo oco, de lógica queimada e de inteligência muda – senão mesmo decepada. Por outras palavras: embargue o império dos ilustres artistas, vestidos à moda dos claros mafiosos moralistas, onde o logro é passatempo e regalo. Alguns socialistas fascistas, ou antes, democratas oportunistas, roubamlhe as vísceras mais o falo, e o meu caro não acorda nem com forte abalo. Uma sentença suja foi declarada – ou melhor, tentada –: como é difícil a correção da direção, querem que se acomode à regeneração arruinada. Faltando a terapêutica eficaz, o desfecho passa porventura pela prevenção, ou talvez pelo sacrifício dos deuses. Acordando e sabendo onde está, concluirá quanto é carente. A cegueira endémica a atacar é o infortúnio e o abismo que assolam a sua gente.

Da romântica revolução da puberdade, uma distinta odisseia urge surgir. Acorde e mude o espírito para a responsabilidade surtir. Não pode negar que, sem humildade e justiça, nem vontade para terminar o jugo, a cunha agora corróio e enfeitiça. Atenda a que o mérito não é refugo. Não se iluda com o tradicional legado e com o corporativismo enraizado. Adote antes o genuíno e salutar empreendedorismo, declare guerra aberta à ignóbil (e ancestral) corrupção, dignifique os notáveis pescador e agricultor – nem que seja por terem sido os bobos ultrajados da adesão à CEE, como se recordará, que consolidou quer a perspetiva democrática, quer a dogmática dos capatazes das eleições –, troque o especulador (que não é necessariamente o financeiro, ao invés do que o seu estigma indica) pelo produtor e valorize a força eterna da razão, ainda que esta possa não lhe convir.

Desmonte do asno velho e lento – atitude benéfica para os dois – e prossiga o caminho pelo seu pé. Não tolere que a fome e a caridade sejam o panteão dos pobres. Há outras formas de padecer e de distribuir o pão – migalhas não, por favor. A virtude da modéstia consoláloá tãosó quando decidir aplicar oportunamente a dose adequada de sulfato para prevenir a moléstia que o atinge. Com inúmeras experiências realizadas, falase que as suas dúvidas não advêm da doença mas sim da metafísica ou de algo transcendente – os efeitos resistem há tanto que até poderão advir do quebranto. Independentemente da origem terá de inverter a sua estratégica: não votar – única alternativa.

Deixe de ser refém de incomprovada verdade. Afaste quem usa a palavra liberdade para brincar com a democracia. Sabe bem que jamais dramaturgo testava tal brincadeira. Não queira ser o laboratório de escuros padrões nem o chão de sol com luz sombria, onde para a horda é noite e para o escol é dia. Enjaule os bichos que o envenenam, cumpra a paz com o futuro e descreia dos mentirosos que acenam com promessas fúteis de bom fado. Atice o seu brio. Não permita que lhe chamem sociedade hipotecada fora de tempo gerada. O Abril Amigo será o que sonhar e mais o que concretizar.

A revolta em si começa. Para defender o seu interesse – o nacional – não basta mexer somente numa peça quando a avaria tem mal geral. O partido da sensatez e a ideologia da coerência são a benévola aliança, senão a incompetência (que cada vez mais avança) ficará tatuada na sua testa. Alistese em nova consciência, desfaça o cordão da resignação e aposte sem medo na convicção. Com esforço e coragem consegue o rumo que há décadas persegue. Ainda que com problemas de natalidade – não forçosamente de virilidade –, implore que nasça o povo merecedor da querida e excelsa Nação.

Caríssimo amigo Amigo, nunca se esqueça que a ilusão é efémera, ao contrário das necessidades, e por isso lembrese que nada é ilimitado, nomeadamente a paciência. Subscrevome com a máxima consideração, desejandolhe, neste seu 40.º aniversário, imensurável saúde e felicidade, na companhia de todos nós – que infinitamente o estimamos – e dos vindouros – espero e acredito que trilhem semelhante estima. Estime(n)os bem, pois o seu nome de Abril é para os que já foram, os que estão e os que virão.

domingo, abril 13, 2014

A política, o humanismo e a pobreza

As mós da política


1. A pobreza – a maior inimiga do humanismo – tem sido um subproduto da política. Da História transparece habitualmente que o bem comum constitui o desejado escudo da sociedade e a política a disfarçada lança que o perfura. Para quem desgostar desta imagem incisiva e bélica, pode substituíla por algo visivelmente mais pequeno: o pó – contudo convém notar que a eficácia do perigo não depende da dimensão dos materiais utilizados.

2. A política tem sido o pó que resulta da fricção de duas mós. Tratase normalmente dum pó contraproducente para a institucionalização do humanismo porque, no processo de moagem das ideias, os grupos refugiamse nas cómodas trincheiras de cada mó, apegados às opiniões cegas e aos egoísmos individuais ou corporativos que transportam. A política, a religião e o clubismo são três áreas onde frequentemente ocorre o vício de raciocínio, e por essa via atrofiam a razão. O fanatismo suplanta a lógica e impede que os atores consigam temperar os princípios por que lutam com a fundamental dose de bom senso.

3. O atrito entre fações é duradouro, e assim continuará enquanto se impuser a lusitana corrente viral, extremada e irrefletida, ora populista ora reacionária, de umas pessoas alijarem a culpa e passarem para as outras a responsabilidade pela resolução dos problemas, de concordarem com tudo desde que saiam incólumes, e de abusarem da tradicional expressão distante e camuflada «tenho pena» quando alguém ao seu lado saboreia agres dificuldades. O antagonismo em torno da riqueza é um exemplo. Os da mó de cima preconizam que a riqueza é o fruto do mérito – forma análoga de propagandear que a pobreza é composta por seres incompetentes, ou seja, sem valências –, ao passo que os da mó de baixo reclamam que a crise deve ser paga pelos ricos – no pressuposto de que os pobres (i.e., os não ricos) não contribuíram minimamente para a atual situação do País.

4. A abordagem que é dada às oportunidades entre os cidadãos é outro exemplo do total afastamento de pontos de vista. Para os da mó de cima, a panaceia para os desequilíbrios nacionais mora no empreendedorismo e na iniciativa privada, negligenciando (por caminhos ardilosos ou não) que em recorrentes vezes o êxito dos empreendedores é sobremaneira alimentado pelo erário público – devido aos negócios e às negociatas feitos com o Estado e com o aval do seu povo pacato (que não é representado esmagadoramente por ricos, para infelicidade de qualquer país, do mais ao menos desenvolvido). Ao invés, para os da mó de baixo, a liberdade de oportunidades deve consubstanciarse na verificação rigorosa da aspiração demagógica de que os cidadãos são iguais, independentemente do empenho e da competência de cada um, como se os indivíduos fossem máquinas ou peças padronizadas e fabricadas pela utopia.

5. Um terceiro exemplo sobre as posições antípodas abrange a previdência social. Ante a demonstrada insustentabilidade financeira do sistema previdencial, os da mó de cima não se importariam em suprimir ou reduzir drasticamente as medidas de caráter social, pois sabem que seriam os menos lesados com a decisão. Pelo contrário, os da mó de baixo são apologistas acérrimos da manutenção e até do aprofundamento das funções sociais do Estado e nem toleram o mínimo sussurro sobre a adequação de tais funções ao correspondente financiamento.

A práxis do humanismo


6. O que acabou de ser abordado é nítido no tocante ao humanismo. Cada fação tem a sua convicção – herdada e fortemente enraizada. Raramente revela suficiente flexibilidade para questionar a validade dos dogmas em que crê, e também para admitir que nada é imutável e, por conseguinte, que os ângulos de visão evoluem. Assim como cada religião tem uma conceção peculiar de Deus, as fações tentam medir o humanismo à sua maneira. Esquecemse porém que não há humanismo de primeiro nível ou de outros níveis; ele não é republicano nem monárquico; nem sequer é de esquerda ou de direita; e muito menos é do centro ou da periferia. É uno e indivisível, ecuménico e imiscível com ideologias, e por isso não constitui uma coutada nem de uns nem de outros, quaisquer que sejam.

7. A restrição de pensamento sucede em qualquer regime, incluindo nas (menos sólidas) democracias. A fricção entre as mós – não interessa qual a superior e qual a inferior – é tanto mais nítida quanto mais exacerbadas forem as crenças. Quem refletir autonomamente e dissociarse dos combates entre os grupos gladiadores é intitulado de refratário. Com efeito, por o humanismo ser amplo e objetivo, os seus seguidores são vulgarmente catalogados ou de dissidentes doutrinários ou de guerrilheiros de ideias.

8. O humanismo é a promoção coerente dos valores da igualdade de oportunidades entre os cidadãos, do respeito pelo próximo e da liberdade responsável. O seu axioma central reside no adjetivo «coerente» atrás escrito. Equivocase profundamente quem julga que o humanismo se compadece com qualquer desvio – por momentâneo que seja – da contínua necessidade de assegurar crucial coerência.

9. Ele envolve convergência de energias e portanto exige ação, materializada na aplicação dos valores intrínsecos ao próprio. Talvez o melhor meio de definir o humanismo seja por exclusão, isto é, será preferível identificar práticas instituídas e decisões políticas que vão ao arrepio do humanismo do que encontrar uma definição. Enveredando por se encontrar uma definição, incorrerseia quase inevitavelmente no erro de redundar no círculo vicioso – e incoerente – da política, paradigma máximo da divisão entre as pessoas. Os três exemplos enunciados nos pontos 3 a 5 evidenciam que, sejam os da mó superior ou os da inferior, estão a anosluz do humanismo.

10. Uma forma de humanismo passa por reconhecer que o direito de uns serem ricos não é independente do direito de os demais não serem pobres. Não se está a falar dos escassos episódios em que a pobreza é uma assumida opção de vida mas sim das situações de pobreza obrigada, quantas vezes acabrunhada, quer de quem trabalha nobremente para afastarse dela, quer de quem está desempregado e luta para tentar não cair nela, e apesar de todo o esforço não consegue almejar uma luz perene de esperança. Estáse a referir aos portugueses que, pese embora a maré de adversidades permanentes, seguem os valores da convivência social e do respeito pelos haveres alheios – valores unanimemente enaltecidos, sobretudo pelos que julgam que o papel social do Estado é menos importante do que as funções de justiça, segurança pública e salvaguarda da propriedade privada.

O destino da pobreza


11. Cada pessoa tem um código genético específico, o qual atribui uma maior ou menor propensão para a ocorrência de determinadas doenças. O grave problema civilizacional é aceitar que a questão das probabilidades condicionadas – maiores do que as probabilidades simples (porque aquelas têm memória e estas são totalmente aleatórias) – entrem no campo financeiro e no domínio das relações sociais e, em especial, influenciem o resultado de saber qual a possibilidade de uma pessoa morrer pobre ou rica atendendo ao ADN dos seus progenitores ou dos clãs familiares a que pertence.

12. Para pôr cobro à prisão perpétua da pobreza é preciso existir humildade para admitir os erros – individuais e coletivos – e manifestar a intenção de corrigilos, bem como para valorizar as virtudes do semelhante e saber colocarse no lugar deste. Não se pode evocar o humanismo enquanto não se rejeitar definitivamente o postulado de a pobreza e a riqueza estarem predestinadas, como o dia a dia tem comprovado de modo consistente. A pobreza combatese com vontade e não com caridade, prendendose a vontade essencialmente à criação de oportunidades (em detrimento da solidariedade, que funciona como a caridade pública).

13. Cabe ao Estado a função suprema de partilhar com proporcionalidade tanto a sorte dos afortunados descendentes dos espermatozoides mais ousados, como o proveito dos cidadãos que possuem uma inata inteligência cognitiva ou uma adquirida inteligência emocional – por estranho que pareça, crescentemente apreciada, suplantando a outra –, pelos compatriotas detentores da desventura de, no ato da conceção e na fase do crescimento, não terem conhecido nem aquela sorte nem os citados tipos de inteligência. Será prescindível frisar que esta troça é redutora da realidade, porquanto a riqueza provém mais da audácia e da tenacidade – todavia nem sempre credíveis e translúcidas – do que dos convenientes ventos da sorte ou do puro dom da inteligência.

14. De qualquer forma, o que importa do ponto anterior é não perder o fito na política distributiva, entendida numa aceção mais abrangente do que a meramente social. Ao mesmo tempo que tal política não pode castrar o genuíno mérito de cada um relativamente à criação de oportunidades, deve promover a dignidade de todos os cidadãos. Humanistas são as sociedades e os homens que detêm talento e sensatez para apresentar uma perspetiva isenta, que permita encontrar a zona de equilíbrio entre o interesse pessoal e o bem comum.

15. As políticas humanistas favorecem as contas públicas, na medida em que aliviam a pressão do Estado social – parece paradoxal mas não é. No ponto 12 foi mencionado que a pobreza deve ser atacada mais com as oportunidades do que com a solidariedade. De facto, quanto maiores forem o desemprego e o risco de exclusão, maior será a necessidade de o Estado se munir de recursos financeiros que atenuem os efeitos dessas duas vicissitudes sociais. Daí que a criação de oportunidades sustentáveis e a redução das desigualdades entre os cidadãos conduza ao salutar emagrecimento das prestações sociais. Não obstante o volume global deste género de prestações ser menor, quem delas beneficiasse poderia ver aumentado o respetivo montante. O aumento, por ligeiro que fosse, corresponderia em inúmeros casos à fronteira entre a pobreza e a miséria.

Notas finais


16. O humanismo é uma virtude libertadora pluridimensional, alcançada somente em sociedades superiores, como facilmente se deduz do explicitado no ponto 7. Deve estar presente no quotidiano, cabendo primordialmente ao Estado a obrigação de fomentálo. Perante o exposto neste texto, compreendese a íntima relação entre o humanismo e as políticas fiscais referentes nomeadamente à liquidação da dívida pública, à distribuição dos rendimentos e às sucessões e doações.

17. Por se situar num patamar muito superior ao da política, o humanismo é o barómetro da qualidade das democracias. O nível de desenvolvimento democrático tão aguardado há quarenta anos será alcançado quando o humanismo estiver profuso, ou melhor, quando os indivíduos que honestamente o defendem não forem considerados de refratários. Para isso há que formular e concretizar um vasto plano nacional de plantação de novos eleitores – ou de enxertia dos existentes, desde que estes disponham duma consciência renovada e exijam o cumprimento escrupuloso da honra na palavra e da fé na verdade. Senão, manterseá a cruel constatação de que a pobreza é um subproduto da política.


segunda-feira, abril 07, 2014

Império dos enteados ou democracia empalada?


 

Enquadramento


Um sonho afiado em esmeril cortou a corda que amarrava a esperança. A libertação primaveril aclamou a celestina confiança e irrigou o chão que o sal das mágoas lacrimejadas secara. Contudo, finda a bela primavera, os descendentes do mesmo empenho beberam diferente engenho e, com a unidade engavetada, a alegria inicialmente sedutora transformouse numa vaga de tormento duradoura. Haja portanto arte para pôr em marcha a obra hercúlea da ressurreição do ânimo.

A população em geral persiste na convicção de a democracia ser controlada pelos republicanos azulados e pelos democratas filiados, a quem as pessoas atribuem, à boca cheia, o rastilho do nosso atraso. Com efeito, eles encontramse misturados no próprio povo, no qual largam, estratégica e cuidadosamente, os seus bemaventurados e prodigiosos ovos. O gentio não faz caso da desdita, ignorando que há uma transmissão – por vezes da desmoralização – dos velhos para os novos. Uns e outros estão ligados a igual teia – genética ou não –, sendo o código de acesso o milagroso condão de sucesso. O desconhecimento e a resignação são formas tácitas de aceitação do mal e do erro. Recorrendo a um anagrama modelar, podese dizer que vamos «livres» por um caminho «servil». Acrescentaria: vivemos num Estado «social», embora «servil», iludidos que somos «laicos», e mesmo «livres».

Império dos enteados


A república – da primeira à terceira – vingou sobremaneira: passouse da hegemonia dos morgados ao império dos enteados. Eufemismo de feudalismo à portuguesa, onde as guildas partidárias decretam a certeza legal e o evangelho dos senhores astutos logra as classes otárias com promessas de epifania. Os mesmos senhores – bemeducados, da razão profanadores e com a incompetência acesa – legislam que a noite vira dia, à guisa de quadrilheiros com nobreza. Viciam os vassalos, os senescais e os demais criados e, como se não bastasse, usam os bobos e os jograis para efémeros regalos, para investiduras sem pejo e para orações e ofícios tais. Pelos padrinhos são nomeados, e com beijo da paz e festejo honram os malfadados sitiados.

São mestres engenheiros da pobreza, de piquete incondicional, ao dispor quer do seu serviço, quer do dos fortes. Perfeitos ascéticos mercenários para a riqueza, que defendem a severidade, porém para si diferentes sortes. Vendem paraíso em terra – moderna maré de indulgências – e espalham vasta popularidade, fabricada com objetivos de opaca clareza, longe do conflito ou da guerra e com invisível subtileza, sem fazer ondas, para afastar do sobressalto a eclosão dos ovos.

Alheios ao facto de as ervas daninhas minarem as terras e os canteiros e sugarem as plantas vizinhas, os tribunais impõem irrecorríveis autos de absolvição, homologando o conjunto de espécies botânicas que frutuosamente destina o império que domina. Com arbitrária e autoritária decisão, os eminentes cangalheiros – ou antes: os ilustres canibais da lei – assumem o papel de carrascos pioneiros que mandam a justiça para a prisão. No fundo, são juízes conselheiros do dinheiro, que confirmam a utilidade das experiências inovadoras de resultado desconhecido. Não importa o resultado, desde que para cobaia se nomeie a grei.


Democracia empalada


O escol que na Nação manda divulga a pegajosa propaganda de que hoje vivemos numa democracia consolidada – suspeita opinião, ou muito dele não pertencesse às chocadeiras de referência. Uma democracia onde a força se funde em frouxidão; onde reinam mitos e fantasias, do arcanjo ao dragão; onde apenas há certezas, sem quaisquer dúvidas ou enganos; onde se empedram idolatrias; e onde a coragem é envenenada com o simples olhar dos basiliscos, não está consolidada mas sim empalada. Na lusa democracia minguada, bem parida e mal desmamada, até os ventos se enlutam com a norma da usurpação que certas almas disputam. Democracia da cristalização de dores, do bloqueio da evolução e da decadência alimentada com a inanição de valores e a consciência torturada.

Apesar do Estado fantasioso, os faunos, os grifos e as sereias, sejam bondosos ou medonhos, sentem o sangue gelado nas veias quando se levanta o tirano – o papão minaz, que raramente descansa, come os desejos e dinamita a verdade. Por onde ele passa, produz dano, ficando a lógica sem autoridade. Chegámos à estação do futuro extinto e esmagado e da era vil da especulação. O arrojo, agora desmembrado, converteuse em sensor do prazer. O pensamento de lentidão precisava de ser preso e julgado – mas não em tribunal, pelo que atrás foi indicado – pelos delitos comprovados de veleidade e de ausência de orientação. Entretanto, assistese à justiça órfã a crescer e à crucificação da moral tardiamente enxertada.

Ao lado, erguese um monstro indomável – de mil olhos – e que, à semelhança do ditador fisco – com frequentes crises de cegueira –, ataca as classes plácidas, nesta terra de interesses e cargos e neste local da corrupção banal, das ideias flácidas e da veneração das heranças e do capital. Pior do que tamanha veneração, é a decapitação da esperança, aplaudida pelo ordálio legalizado da sacramental aliança entre a hipocrisia e o sofrimento. O vigor evaporado é o pavio do arrebentamento e o garrote da liberdade.

Conclusão


Falta gente de firmeza para formar uma batida e anunciar a limpeza dos deístas dos interesses, dos partidos e das seitas. Já que de morte a alma está ferida, com cátaros da verdade curavamse inúmeras maleitas. Assim, há que dançar conforme a música. Resta desenterrar a pureza, alimentar a vontade e aguçar a destreza. No nosso território abundam os pausmandados – pecadores por omissão, facilmente trepanados e com espírito entorpecido. Paralelamente, rapaces de garra e visão caçam tanto os animais mansos como quem anda iludido. Os ataques só poupam os ovos da mesma espécie. Virá o dia em que os cordeiros – enfim indignados e dotados para encarar os predadores – imporão os seus lanços, mas somente depois do regresso duma excursão ao mundo novo da revolução. Todavia, ainda são poucos os aliados para direcionar ou ensinar a peculiar democracia. Escasseia a ousadia – definida de utopia por alguns seres.

Retomando a questão epigrafada sobre o sistema que melhor caracteriza a sociedade lusitana: império dos enteados ou democracia empalada? Não há resposta certa nem errada. Não se sabe o que dirão os especialistas políticos de renome, os comentadores reputados, os «ex» da ribalta ou outros ilustres da audiência televisiva em alta – e da memória em queda. A maioria das pessoas entenderá que são as faces desvalorizadas da mesma enganada moeda.