Fórum de Reflexão Económica e Social

«Se não interviermos e desistirmos, falhamos»
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sexta-feira, fevereiro 17, 2017

Será admissível pensar que não temos senão falhado ao longo de toda a história?



Na minha visão não! Atrevo-me a recordar alguns dos exemplos (que são factos) que comprovam (se não mesmo refutam) tal visão negativista da história e do país

É um facto que Portugal mantém praticamente as mesmas fronteiras desde a sua fundação (facto quase único na história da humanidade se considerarmos a sua longevidade enquanto país soberano). Tal como em todos os países do mundo desenvolvido, o progresso, a maturidade política, o “bom gosto”, a sensibilidade com a estética ou o interesse pela cultura, são aspetos da vida humana criados e desenvolvidas dentro das elites. Foi assim em França, na Itália, na Grécia ou na Inglaterra para citar poucos exemplos, nunca se pondo em causa que a arte, a ciência, a filosofia, a literatura ou a música são os ingredientes para fazer avançar as civilizações. Por isso não nos podemos castigar pensando que Portugal, do pouco que conseguiu, às elites o deveu. Talvez hoje seja o contrário porque a sociedade civil em muitos casos pouco ou nada se identifica com as elites, ou pelo menos algumas dessas elites! Mas notemos: integro nessas elites uma grande parte da sociedade civil, que tem de exigir sempre mais e melhor da sociedade e dos seus líderes. A França, a Inglaterra ou até a Espanha, são hoje prova disso. Aqui sim, neste campo Portugal falhou.

Este é um país que fundou uma das primeiras universidades do mundo e que exemplificou, pela prática, os princípios de um pensamento ecologista no reinado de D. Dinis. Não falarei da expansão e conquista marítimas, isso daria para um outro livro, mas não há estudo histórico, livro de história universal ou programa de história, seja de que nacionalidade for, que não coloque Portugal e os portugueses na primeira linha de importância e que não destaque o seu papel para o desenho quer geográfico, quer histórico ou cultural da civilização humana.

No campo das figuras históricas podemos voltar à Idade Média e relembrar Pedro Hispano, médico e teólogo português, que foi o Papa português João XXI.

Figura Eminentíssima, foi fundamentalmente importante no campo das Letras e da Teologia na Idade Média, tendo projetado a cultura portuguesa para um lugar de topo na Europa de então.

Os autores Martin Page, em “A Primeira Aldeia Global”, e Barry Hatton, em “Os Portugueses”, consideram Portugal como o primeiro país global e como o pioneiro da globalização. A abolição da pena de morte há 150 anos e a luta das mulheres, no início do século XX, para a igualdade do género, colocam este pequeno retângulo, à beira mar plantado, como um dos primeiros países que mais depressa percebeu os valores da igualdade, da solidariedade e da humanidade, em suma, os valores civilizacionais. Comprovam-no o nosso posicionamento na 1ª linha da disponibilidade para ajudar a enfrentar a crise dos refugiados.


Para os mais críticos europeístas e das políticas de financiamento europeu, não vejo Portugal de “mão estendida” a Bruxelas de forma diferente dos outros países membros. Também a Espanha, França ou Itália, para citar apenas poucos casos, reestruturaram as suas economias, modernizaram o país e fizeram expandir o bem-estar social, através de enormes quantias de dinheiro vindas da Europa. Posto isto, nada fizemos diferente dos restantes. Se houve desperdícios? Claro que os houve? Quem os não teve? Mas os nossos, a nós portugueses, se devem as culpas.

Discordo da ideia de que nos últimos 300 anos Portugal apenas tenha tido uma participação esporádica e pouco relevante na redação da história europeia (ou do mundo). Podemos pois relembrar alguns (grandes) feitos que vão da política à cultura, do progresso social ao desporto.

Em 1 de janeiro Portugal torna-se o 11º país a aderir à CEE, no mesmo ano que a Espanha. A Europa de então (e ainda de hoje) continuava a ser o Continente onde todos os que lá não viviam ambicionavam viver. Existem no mundo 193 países; a Europa é composta por 49 países; na União Europeia estão hoje 28 desses países, existindo 5 que são atualmente candidatos à UE e 2 que são potenciais candidatos. Portugal está lá desde há 21 anos.

Tudo isto acontece praticamente 10 anos após a instauração de um regime democrático que liberta o país de uma ditadura de quase 50 anos. É obra de grande registo civilizacional, em especial quando a instauração desse regime democrático é feita sem sangue, suor e lágrimas.

Em 1998 Portugal organiza a Exposição Mundial - Expo 98 - um dos maiores eventos culturais do mundo, através do qual o país se projeta para o futuro e se integra entre os países com uma visão integracionista dos povos e das culturas. Mais uma vez, o seu caráter agregador de povos, culturas e diferenças vem ao de cima. Nesta senda, é atribuído a José Saramago no ano seguinte o Prémio Nobel da Literatura. Já em 1949 Egas Moniz havia trazido para Portugal o Prémio Nobel da Medicina. Amália Rodrigues havia feito chegar a sua voz e o fado aos quatro cantos do Mundo. Siza Vieira e Eduardo Souto Moura foram os laureados em 1992 e 2011, respetivamente, com o Prémio Pritzker, o equivalente ao “Nobel da Arquitetura” - e ainda só estamos no campo da cultura.

O dia 1 de janeiro do ano de 2002 coloca o país dentro do grupo que passa a adotar o Euro como moeda, na sequência da assinatura do Tratado de Maastricht em 1992 que levou à criação da União Europeia e de uma moeda única (sei que é um ponto discutível, sensível ou de discórdia se, sim ou não, o deveríamos ter feito). Porém, temos a certeza que em 1992, atendendo aos conhecimentos da época, muito poucos o teriam posto em causa.

Em 2004 o país organizou o Europeu de Futebol, prova onde chegaria à final tornando-se vice-campeão europeu. Este feito é superado em 2016 com a vitória do campeonato europeu de futebol. Ainda no desporto, Eusébio foi o nome mais conhecido de Portugal (provavelmente juntamente com Amália) pelo mundo fora. Carlos Lopes o vencedor da Maratona dos Jogos Olímpicos em 1984. Rosa Mota foi campeã olímpica da Maratona em 1988, uma vez campeã do mundo e três vezes campeã europeia desta modalidade. Benfica e FC Porto foram duas vezes campeões europeus de futebol. Luís Figo foi o melhor jogador do mundo pela FIFA em 2001 e Cristiano Ronaldo já lá chegou por quatro vezes, segundo os atuais critérios da FIFA em 2008, 2013, 2014 e 2016.

Tem havido porém, entre nós, uma antiga e larga discussão em torno das elites. Alguns de nós chegaram mesmo a uma área de interceção quanto ao entendimento de que parte dos problemas de natureza política, social, cultural e económica do país residiam nas elites. Foi aliás ponto comum de entendimento que o fenómeno do Estado Novo terá sido a causa e ao mesmo tempo a consequência do modo de ser português e da natureza da nossa portugalidade. Sou dos que consideram que em parte isto é verdade.

Importa no entanto realçar que as elites, contrariamente ao que uma larga franja de portugueses tende a considerar, não são apenas os políticos, ou seja, as elites políticas. Ora este prisma de visão está incompleto ou é inadaptável à realidade do país e não caracteriza verdadeiramente as nossas elites. Na minha visão, elites não são apenas os políticos: são os escritores premiados, os desportistas destacados, os intelectuais reconhecidos, os jornalistas aclamados, os atores do cinema e do teatro português reconhecidos internacionalmente, os líderes empresariais de sucesso, os empreendedores inovadores, os líderes voluntariosos das ONG e dos movimentos organizados da sociedade civil, os melhores advogados, juízes e economistas que cá dentro e lá fora são referenciados. E estes são, como diz o nosso amigo Jorge Carriço, um subgrupo de todos nós, povo! Reconheço-me neles, devemos reconhecer-nos neles, pois são feitos do mesmo pó de que somos feitos. Para o bem e para o mal.

Independentemente da proximidade à personalidade ou à linha político-partidária que cada um representa ou ao reconhecimento das suas qualidades políticas (ou ausência delas), não é demais relembrar Durão Barroso e António Guterres. Ambos tiveram (e Guterres com grande destaque agora enquanto Secretário Geral da ONU) um papel e uma posição internacional de grande relevância que favoreceu o reconhecimento de Portugal na Europa e no Mundo. O primeiro como Presidente da Comissão Europeia, e o segundo como o mais alto representante da Organização das Nações Unidas, representam o que de melhor é ser português: um pequeno país, uma grande história e uma gente singular. Por isso está tudo dito sobre Egas Moniz, José Saramago, Amália, Eusébio, Siza Vieira ou Vieira da Silva, entre muitos outros.

Tantas personalidades, tantos homens e mulheres de destaque (numa lista que seria extensíssima) e tantos feitos, por gente de um país com apenas 800 Km de costa e 92.207 Km2 de superfície terrestre. Poucos, muito poucos, apenas 10 milhões, tantos quantos vivem em Londres e menos de quantos vivem em Paris.

Mário de Jesus


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quarta-feira, outubro 22, 2014

Portugal – O Turismo e a Economia do Mar


O que fazemos com tanto mar?


Somos um país que sempre teve na designada «economia do mar» um potencial para o crescimento económico e para a afirmação de Portugal no Mundo. Este potencial começa logo na localização geográfica privilegiada, neste fulcro posicional entre Continentes e nesta posição no centro do «triângulo mágico», América Latina, Europa e África. No entanto, após a adesão à CEE, na senda da disponibilização dos fundos comunitários aos novos entrantes e do cumprimento quer das quotas de pesca quer da dimensão da frota pesqueira, o país voltou as costas ao mar e a quase todas as atividades ligadas ao mesmo. Por outras palavras, foram exterminados muitos dos elementos que fariam da «economia do mar», um instrumento e uma aposta estratégica para o crescimento, desenvolvimento e progresso do país.

Para além da riqueza dos recursos da pesca, que resultariam das capacidades de uma forte frota pesqueira, num país em que a Zona Económica Exclusiva o transforma num dos maiores espaços soberanos europeus, das atividades marítimas recreativas, como os desportos náuticos diversos, motorizados ou não motorizados (veja-se o recente caso do surf na Nazaré ou nos Açores ou ainda a vela e o parapente), que podem captar muitos visitantes vindos de fora do país e criar internamente riqueza económica, há também a destacar as oportunidades de divulgação das belezas da costa em termos turísticos, o que levaria ao aproveitamento e melhoramento da orla costeira ao nível do lazer, da restauração e das praias. Para além destes, haverá ainda a salientar o potencial de outras atividades ligadas à indústria marítima como sejam a aquacultura e piscicultura, a gestão e oferta portuária até chegarmos à construção naval.

Destacando esta última e a importância que teve, e poderá ter no futuro, esta indústria, na qual Portugal sempre apresentou fortes pergaminhos e notoriedade em termos internacionais, estou em crer que o país não efetuou as apostas certas para manter o estatuto outrora conseguido e agora perdido. No passado, empresas como a Lisnave, Setenave ou os Estaleiros Navais de Viana do Castelo, catapultaram o país para o topo da indústria naval mundial. Estivemos sempre entre os melhores e os mais capazes. Hoje, esta indústria vive tempos conturbados e ameaça extinguir-se. Entre outras causas, está a ausência de políticas viradas para o reforço, inovação e eficiência destas atividades, um virar de costas, mais uma vez, à «economia do mar». Deixámos que outros tomassem a dianteira. Num momento em que tanto se discutiu a concessão cedida a privados dos ENVC, com a ameaça e risco do seu afogamento, outros países preparam-se para encarar de frente as oportunidades que aí vêm com as novas diretrizes internacionais que exigem que, navios de grande porte do transporte marítimo mundial, sejam revestidos de dois cascos o que dará muito trabalho a esta indústria uma vez que tal obrigará ao crescimento e intensificação das atividades de reparação naval. Alemanha e Holanda já estão na linha da frente. Onde é que Portugal se posiciona?

Já no caso dos portos, Portugal, que é beneficiado por uma qualquer dádiva divina, reúne características quase únicas não só em portos industriais como Sines, Lisboa e Leixões, mas também ao nível de portos recreativos ou turísticos, uma vez que as características dos rios Douro e Tejo permitem, de forma quase única, uma oferta de serviços distintiva e trazer até ao centro das duas maiores cidades portuguesas navios de recreio e de cruzeiro de grande calado, o que permite colocar Portugal, e em especial Lisboa e Porto, nos principais circuitos de cruzeiro mundiais.

Falemos um pouco do turismo do mar, referindo o exemplo dos Açores. Na ilha de São Miguel tem decorrido todos os anos no Verão uma prova do circuito mundial de surf, o «Azores Islands Pro» uma das etapas de qualificação do World Qualifying Series (WQS) que teve a sua primeira edição em 2009. Noticiava a revista Visão em setembro de 2010 que «Não há carros para alugar, os hotéis estão lotados e os restaurantes muito cheios». Na mesma notícia, e segundo as palavras do então Secretário Regional da Economia do arquipélago: «Queremos afirmar os Açores como um destino de turismo ativo. Temos 30 milhões de euros para investir em campanhas de promoção, durante os próximos dois a três anos». Eis aqui um exemplo em como uma atividade ligada ao mar tem potencial para dinamizar a vida de uma região e contribuir com receitas de relevo.

Mas Portugal não é apenas uma costa de mar para o surf. Recordando um estudo realizado pela revista Newsweek em agosto de 2010, Portugal figurava no 27.º lugar entre um conjunto vasto de países considerados como dos melhores do mundo para viver. Esta análise teve como critérios a qualidade da educação (onde nos posicionámos em 37.º lugar), a saúde (23º lugar), a qualidade de vida (27.º lugar), o dinamismo económico (42º lugar), e por fim o ambiente político (onde arrecadámos a 23.ª posição). A União Europeia colocava, em 2009, Portugal como a 10.ª economia em valor de produto turístico e a 6.ª onde o turismo tinha mais peso no PIB. Dados da AICEP de maio de 2011 com referência à Organização Mundial de Turismo (OMT) e a dados do Instituto Nacional de Estatística (INE) comprovam a importância do turismo como setor onde há espaço para criar emprego e maior competitividade. No ranking dos principais mercados recetores de turistas da OMT, Portugal encontra-se no grupo dos 10 maiores a nível europeu e dos 25 maiores a nível mundial e, apesar da concorrência externa, dados de 2012, obtidos através do boletim do E.S. Research de junho de 2013, comprovavam que o setor do turismo representava 5,2% do PIB.

O nosso país apresenta outras vantagens comparativas a vários níveis como sejam, o clima, a segurança, a proximidade à costa, a qualidade das praias, campos de golfe de reconhecida qualidade internacional, oferta diversificada (paisagem, casinos, marinas, história e cultura) ou ainda boas ligações aéreas, regulares, charter e low-cost internacionais, a várias capitais da Europa e do Mundo.

Do ponto de vista cultural são inúmeros os locais a visitar em Portugal, se atendermos que, na lista do Património Mundial da UNESCO, se encontram os centros históricos do Porto, Angra do Heroísmo, Guimarães, Évora e Sintra, bem como monumentos em Lisboa, Alcobaça, Batalha e Tomar, as gravuras paleolíticas de Foz Côa, a floresta laurissilva na Ilha da Madeira e as paisagens vitivinícolas do rio Douro e da ilha do Pico. Já quanto à paisagem e às características naturais e geográficas, depois do 2.º lugar obtido pelos Açores em 2011, numa seleção de 111 ilhas ou arquipélagos, numa iniciativa da National Geografic Traveler, que reuniu um painel de 522 peritos em turismo sustentável, e de a ilha do Pico ter sido classificada pela revista Islands como sendo a 4.ª melhor ilha do mundo para ter uma residência ou uma moradia turística, também nesse ano a Madeira foi eleita uma das 10 melhores ilhas europeias pelos leitores (que são mais de 3,5 milhões) da reputada revista Condé Nast Traveller, aparecendo num honroso 6.º lugar.

Ainda dentro dos critérios que pontuam e que constituem as vantagens competitivas do país na oferta turística, se quisermos fazer referência à qualidade das suas unidades hoteleiras, a Madeira marcava presença em 2011 no «25 Top Europe Resorts», conquistando o 21.º lugar com o Reid’s Palace. Em setembro de 2011 recebíamos a notícia de que o World Traveller Awards tinha atribuído a Portugal várias distinções entre as quais a distinção do melhor destino para a prática de golfe e o melhor destino de praia da Europa, não esquecendo as distinções que Lisboa tem obtido no circuito internacional como das melhores cidades para fazer férias e negócios.

Vivemos ainda tempos conturbados atravessando o país uma crise económica e social como há muitos anos não era sentida. Mas como alguém escreveu «O sol, o sal e o mar, trarão a Portugal no futuro, os recursos para a educação, para a saúde e para o progresso». Portugal joga o seu futuro em vários vetores, sendo sem dúvida o turismo um dos mais importantes para o progresso e crescimento económico, apesar de a concorrência externa ser cada vez mais forte, de, nos últimos anos, em especial a partir da crise iniciada em 2008, estarem encontrados novos destinos turísticos até aqui desconhecidos ou de se terem registado diferentes comportamentos, objetivos e expetativas na procura turística. Posto isto, muito trabalho está ainda por fazer tendo que ser adotados novos posicionamentos na oferta pois a procura turística tem vindo a exigir diferentes tipos de produto turístico, em especial ao nível do serviço, da flexibilidade e da conveniência, áreas que os agentes turísticos nacionais têm por vezes acompanhado mal.

Vemos hoje os sinais da crise os quais vieram alterar quer a procura quer a oferta turística entre os principais países concorrentes, ainda que tenhamos que olhar qualquer país do Mundo como um concorrente. Se atendermos por exemplo aos dados do INE de 2009, ano seguinte ao início da crise que trespassou a Europa, verificamos que a hotelaria registou 23,4 milhões de dormidas de turistas em Portugal, o que correspondeu a uma variação homóloga negativa de 10,7%. O grupo dos principais mercados emissores apresentou um desempenho maioritariamente negativo, liderado pelo Reino Unido (-21%). Neste ano, as receitas turísticas inverteram a tendência de crescimento do ano anterior, com uma quebra de 7,1%, acompanhando o comportamento das dormidas na hotelaria, sendo a maior parte dos turistas que visitam Portugal oriundos principalmente da União Europeia, com o Brasil e os EUA a constituírem as únicas exceções no conjunto dos 10 maiores mercados emissores de turistas para o nosso país.

Há no entanto que destacar as boas performances que o setor tem ultimamente registado em especial na qualidade da oferta de alguns agentes turísticos nacionais o que se prova através de resultados que evidenciam a relevância que o turismo representa para o crescimento económico e afirmação do país no exterior. Veja-se por exemplo o que resulta de um estudo realizado no verão de 2011 pelo Turismo de Portugal o qual concluíu que 85% dos turistas querem voltar de férias a Portugal e que 89% destes ficaram muito satisfeitos com as suas férias no país. Há,aliás, uma franja de 34% destes visitantes que afirma que ficaram acima das suas expetativas. Este estudo divulgou que o Algarve foi destino para 46% dos visitantes e a região de Lisboa para 42% daqueles. A cidade de Guimarães ficou com uma quota de 6% devido certamente ao facto de ter sido a Capital Europeia da Cultura.

Igualmente relevante foi constatar que 40% dos turístas escolheram o destino Portugal através da Internet, o que pode indiciar, por um lado, a falta de outras ações ou estratégias de comunicação alternativas mas por outro lado a importância deste meio de divulgação que dá a informação aos agentes turísticos ofertantes de que estes têm que se apetrechar com as novas ferramentas de comunicação e divulação da sua oferta, respondendo assim às exigências do mundo moderno.

Nota: Texto publicado na Revista Plano_#2,verão 2014, p.97-99.

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quinta-feira, março 20, 2014

Qual a qualidade da democracia?



A poucos dias de completar os seus 40 anos e atingir, por isso, a meia-idade, a nossa democracia atingiu já há muito, pelo menos no plano teórico, a idade adulta. Importa por isso que todos nós, cidadãos, neste tempo de luta política mas também de tormenta económica e de dificuldades sociais acrescidas, façamos uma reflexão séria mas descomprometida sobre a qualidade desta democracia.
Como grupo de debate, reflexão e opinião, o FRES revela neste campo responsabilidades igualmente acrescidas, pelo que este será um assunto que não passará, certamente, à margem das preocupações dos seus membros.
E sobre a qualidade da democracia muito haverá a dizer. Por exemplo, que a opinião dos portugueses sobre a mesma é pouco abonatória. Fazendo aqui referência a uma recente notícia da Fundação Francisco Manuel dos Santos, na qual esta retira de um estudo designado por Concepções e Avaliações da Democracia, lançado através do Portal do Cidadão e que será apresentado em breve pelo Instituto de Ciências Sociais, a conclusão de que a satisfação dos portugueses com a qualidade da nossa democracia é de apenas 1,8 numa escala de 1 a 4. Por exemplo na Alemanha esta opinião toca nos 2,8.
Aparentemente, conclui-se logo em primeira linha que os portugueses têm uma conceção de democracia que vai muito para além do direito ao voto e de eleições livres e justas. Quer isto dizer que os portugueses são exigentes com a sua democracia, ou pelo menos mais exigentes do que parecem, o que aliás têm vindo a demonstrar quer com os níveis de abstenção crescentes verificados nos últimos anos quer com a degradação da opinião que, na generalidade, os cidadãos têm vindo a demonstrar sobre os políticos que os governam.

Este divórcio com a classe política não será mais do que a prova da tal insatisfação que os portugueses revelam face à sua democracia. Hoje, o voto não anima quando o que resulta desse voto é um sentimento de que nada mudará e tudo continuará na mesma, i.e., a injustiça permanece, a justiça não atua a tempo e horas, a corrupção mantém-se a níveis inaceitáveis, continua a vingar o clientelismo, as desigualdades agravam-se, a qualidade de vida deteriora-se e o bem-estar perseguido continua a ser uma miragem.
Por outro lado já não há ideologia que inspire alguém quando se confundem todas as correntes ideológicas, estas intercetando-se nos pontos de interesse comum dos partidos, sejam elas correntes de esquerda ou de direita, pois já pouco se distingue quem é quem e os cidadãos não se conseguem identificar com os valores e princípios dessas mesmas correntes ideológicas.

Não deixa de ser verdade que existe hoje um desânimo em muitas hostes sobre as conquistas de Abril e da liberdade. Apesar de tudo o que se conquistou, em especial essa mesma liberdade que fez nascer a democracia, e apesar dos sucessos alcançados. Sem Abril não teríamos chegado aqui. Mas também ao chegarmos aqui elevámos as nossas expetativas e desejos, sonhos e ambições. E é sobre estes que hoje nasce o desânimo e é por estes que pouco se crê na democracia ou pelo menos nos seus aspetos mais relevantes. Já não nos basta a liberdade, exigimos a igualdade, já não nos basta a igualdade de oportunidades, exigimos a fraternidade, já não nos basta termo-nos libertado dos grilhões da ditadura, exigimos a justiça social, já não nos basta a mera escolha política, exigimos o cumprimento da verdade e o progresso que nos parece cada vez mais inalcançável.
E é esta reflexão política e filosófica que importa fazer sobre esta democracia. E não basta apenas comentar o que se ouve ou comentar as ideias dos outros. Torna-se necessário que, cada um de nós, assuma essa discussão e as suas próprias ideias e posições. Sem medo, sem dogmas, sem justificações: quem quer fazer arranja uma forma, quem não quer arranja uma desculpa.

Há hoje espaço para repensar toda a democracia. Desde a organização dos partidos, à forma em como estes interagem quer com a sociedade quer com os cidadãos, mas também com o meio económico, o que acontece por vezes de forma pouco transparente. Há espaço para repensar como fazer a renovação desses partidos, com que pessoas e quando. Há espaço para repensar todo o atual sistema eleitoral, a composição da Assembleia, o papel dos deputados como representantes do povo e da nação. Há espaço para repensar como podem os governantes utilizar os recursos financeiros da nação – impostos e outras receitas - (e por isso de todos os cidadãos) nos seus programas de investimento público de forma competente, eficiente e com resultados para o bem comum e não de forma arbitrária e pouco clara. Como há muito espaço para repensar como fazer a redistribuição dos proveitos e dos recursos por todos, procurando assim combater a desigualdade: de oportunidades, de acesso a bens e serviços, de rendimentos e social. São muitas desigualdades que ferem a qualidade desta democracia e que os cidadãos contestam.

São muitas reformas por fazer, em especial uma grande reforma: a das atitudes, em primeiro lugar dos políticos e governantes, para que percebam que têm que colocar os interesses da nação e dos cidadãos em primeiro lugar em vez dos seus, e de modo a sentirem que o seu papel não é mais do que o cumprimento de uma missão - servir. Mas também a reforma das atitudes dos cidadãos, para que sejam mais atentos, ativos, participativos, intervenientes. Para que não se demitam de todas as suas responsabilidades cívicas, para que fiscalizem e exijam dos políticos e governantes o que é de se lhes exigir. Só com essa corresponsabilização se alcançará uma democracia madura, séria e com um nível de qualidade que hoje deixa a desejar.

sexta-feira, fevereiro 14, 2014

Por uma verdadeira Reforma do Estado – Reflexões iniciais



Neste que é o ano de trabalho sobre o tema em epígrafe, dou aqui início a um conjunto de reflexões sobre a complexa e muito exigente tarefa de desenhar e implementar uma verdadeira reforma do Estado português, objetivo que é desejado, perseguido (terá sido?) e discutido há décadas no país sem nunca se ter chegado a qualquer meta nem se ter alcançado qualquer sucesso na sua prossecução.

Áreas de um Estado soberano

Sou defensor da ideia de um Estado regulador, mais do que ator, da sociedade e da economia, com funções de supervisão eficiente e eficaz de todos os sectores da vida que afetam e determinam a justiça, o bem-estar e a segurança dos cidadãos, agentes económicos e demais atores na vida nacional.

Porém, tal como outros analistas políticos, económicos e sociais, considero que há funções que não podem, nem devem, sair da esfera do Estado. Pela sua relevância, especificidade e impacte na vida de um país, em primeiro lugar e por imperativos de soberania em segundo lugar, há áreas sobre as quais o Estado não pode prescindir de se assumir como o principal responsável e timoneiro nas decisões a tomar e nas orientações a dar às instituições que tutela. Estão aqui as áreas da justiça (social e económica), da solidariedade e segurança social, da defesa nacional, da administração interna e da diplomacia político-económica – os designados negócios externos.

Estas são áreas que devem ser do domínio do Estado e sobre as quais nenhum agente económico ou instituição fora da esfera do Estado tem condições e competências para as definir, regular, assumir e coordenar.

Liberalizar sectores sobre regulação e supervisão Estatal

Depois daquelas, compete ao Estado ser o garante de um sistema de educação e de saúde, sólidos, justos, adequados às necessidades e exigências dos cidadãos, tendo em vista o bem-estar, a justiça e o progresso da sociedade. Estas, sendo áreas da sua responsabilidade direta, são já hoje áreas em que o Estado delegou, em parte, e bem, nos agentes económicos privados, a sua prestação e a sua gestão. Compete agora ao Estado regular e supervisionar toda a atividade destes sectores, regulamentando e definindo as regras básicas de funcionamento, zelando pela equidade e legalidade das suas práticas, e proporcionando aos atores respetivos a liberdade de atuação e decisão dentro das regras estabelecidas.

Sectores sensíveis do Estado

Para além dos sectores acima identificados, há outras áreas igualmente sensíveis e de significativa importância para o país pois interferem diretamente com aspetos da soberania nacional. São estas as telecomunicações (sector muito sensível para a intelligence portuguesa e para a vida dos agentes económicos), a energia e as águas. Sendo certo que os sectores das telecomunicações e energia estão hoje entregues à esfera privada, já o sector das águas merece uma reflexão muito especial pela delicadeza que assume e pela importância estratégica e significância que tem quer para o país quer para a vida das pessoas. É talvez o sector mais sensível dos aqui referenciados e não está concluída a reflexão sobre se deve (ou pode) passar para a esfera privada.

De qualquer forma, com exceção do sector das águas, tema não concluído e que merecerá outras reflexões, o Estado tem o papel e a responsabilidade de criar um quadro regulatório adequado e uma supervisão efetiva e rigorosa das áreas energética e de telecomunicações, hoje entregues aos agentes privados. Cumpre-lhe definir as regras, os procedimentos, as obrigações e os direitos a respeitar pelos diversos atores privados para depois exigir e garantir o seu cumprimento.

Como reformar?

Finalmente uma última reflexão, neste primeiro e breve ensaio, sobre o modelo de reforma do Estado. Qualquer que venha a ser a reforma a implementar no Estado, deve ser em primeiro lugar definido o que se entende por reformar o Estado. Por outras palavras, o que reformar, como reformar e quando reformar. Dito isto, facilmente se chega à conclusão de que qualquer reforma a implementar não poderá nunca estar dependente de qualquer ciclo político-partidário. Por mais simplista que seja essa versão de reforma, nunca se conseguirá concluir qualquer reforma numa legislatura de 4 anos e talvez tal não caiba numa segunda legislatura.

Assim sendo, e seguindo a lógica da gestão das organizações do mundo empresarial, essa reforma terá que ser efetuada em primeiro lugar por etapas ou fases, depois por instituições ou grupos de instituições e finalmente, dentro destas, pelas suas diversas componentes/unidades. Simplificando e concretizando, atendendo às urgências e prioridades do país, seria desejável que os mentores de uma verdadeira reforma do Estado começassem por repensar o sistema de segurança social, saúde e educação, por exemplo, atribuindo a esta fase um período de 4 anos para a concretização das necessárias reformas dos respetivos Ministérios (equivalente a uma legislatura). Numa segunda fase, poder-se-ia dar prioridade à reforma na justiça seguida do ordenamento do território, para finalizar com a reforma dos sectores da agricultura e do mar, dedicando-lhe de um novo período de 4 anos para a sua conclusão.

Não é possível reformar tudo e ao mesmo tempo. Estes processos têm custos elevados, exigem muitos recursos e consomem muito tempo. Ao mesmo tempo o país tem que produzir, criar riqueza e bem-estar, não se pode fechar sobre si próprio. É por isso ilusório pensar que esta obra é realizável numa legislatura e em simultâneo. Esperamos que o bom senso esteja presente entre os decisores políticos e responsáveis primeiros desta reforma.

sábado, dezembro 21, 2013

Que Economia do Mar?

1. Somos um país que sempre teve na designada economia do mar um relevante potencial de crescimento económico e afirmação de Portugal no Mundo. E este potencial começa logo na posição geográfica privilegiada, neste fulcro posicional entre Continentes e nesta posição no centro do triângulo mágico, América Latina, Europa e África.

2. Porém, após a adesão à CEE e na senda da disponibilização dos fundos comunitários aos novos entrantes e do cumprimento das quotas de pesca e da frota pesqueira, este país voltou as costas ao mar e a todas as atividades ligadas ao mesmo. Por outras palavras, foram exterminados todos os requisitos que fariam da economia do mar, um instrumento e uma aposta estratégica para o crescimento e desenvolvimento futuros do país. Lamentavelmente.

3. Para além das atividades e riquezas alimentares da pesca, da força da produção de uma forte frota pesqueira, das atividades marítimas recreativas, como os desportos náuticos diversos (veja-se o recente caso do surf na Nazaré) que podem captar gente vinda de fora, também a projeção das belezas da costa em termos turísticos, o aproveitamento e melhoramento da orla costeira ao nível do lazer, da restauração, das praias, são aspetos do potencial deste sector, havendo ainda a salientar o potencial de outras atividades ligadas à indústria marítima como sejam a aquacultura e piscicultura, a gestão e oferta portuária até chegarmos à construção naval. A quase tudo isto se virou costas.

4. E vem agora à boca de cena a questão da indústria da construção naval, sector onde Portugal sempre apresentou fortes pergaminhos e notoriedade em termos internacionais. Sou pouco versado em conhecimentos desta indústria, porém tendo acompanhado um pouco da ponta deste enorme véu, estou em crer que o país não efetuou as apostas certas para manter o estatuto outrora conseguido e agora perdido. Se no caso dos portos, Portugal, que é beneficiado por uma qualquer dádiva divina, reúne características quase únicas em portos industriais como Sines, Lisboa e Leixões, também ao nível de portos recreativos ou turísticos, as características dos rios Douro e Tejo permitem, de forma quase única, uma oferta de serviços distintiva e trazer até aos centros das duas maiores cidades portuguesas navios de recreio e de cruzeiro de grande calado.

5. Outrora, empresas como a Lisnave, Setenave ou os Estaleiros Navais de Viana do Castelo, catapultaram o país para o topo da indústria naval mundial. Estivemos sempre entre os melhores e os mais capazes. Hoje esta indústria vive tempos revoltosos e ameaça extinguir-se. Não conheço todas as razões mas apenas algumas. Entre estas, está uma ausência de políticas viradas para o reforço, inovação e eficiência nestas atividades, um virar de costas, mais uma vez, à economia do mar. Deixámos que outros se colocassem à frente. Num momento em que tanto se discute a concessão dada a privados dos ENVC, com a ameaça e risco do seu afogamento, outros se preparam para encarar de frente as oportunidades que aí vêm com as novas diretrizes internacionais que exigem que navios de grande porte do transporte marítimo mundial tenham necessariamente dois cascos. Tal obrigará ao crescimento e intensificação das atividades de reparação naval. Alemanha e Holanda já estão na linha da frente. E Portugal, onde está? O que fazemos com tanto mar?

sábado, abril 27, 2013

Reindustrializar ou Empreender?*



Corre a tese de que sem reindustrialização o país não recupera desta austeridade. Fazendo fé nas ideias que correm nos corredores da Europa e agora do Governo, a via para superar os problemas do país passa pelo reforço da economia pondo o país a produzir mais, a criar mais emprego e riqueza.

Não se duvida que a recuperação económica pelo crescimento é o ingrediente fundamental para tirar o país deste atoleiro em que se encontra. O crescimento económico induzido pelo reforço da produtividade das empresas, levando o país a produzir mais, a exportar mais, a criar mais emprego e riqueza, são os ingredientes indispensáveis a tal desiderato pois produzir mais significa também pagar mais impostos e logo mais receita para o Estado.

Ainda que estando em concordância com alguns aspetos desta tese, a mesma é falaciosa pois induz que, bastará enveredar pelo caminho da reindustrialização como medida para a recuperação económica do país, para que consigamos tornar Portugal mais competitivo e criador de riqueza, o que o levará a ultrapassar as atuais dificuldades.

E é falaciosa porque, para existir mais economia e mais industrialização, são necessários mais empresários, porém e infelizmente, o país não está dotado de um leque suficiente e necessário de empresários que possam por em prática, em poucos anos, tal objetivo de reindustrialização. Além disso, não é empresário quem quer ou deseja e não é possível tornar alguém empresário de um dia para o outro. Este é muitas vezes um processo lento e doloroso. Por outro lado, o país não tem já um vasto registo genealógico de famílias industriais como no passado. Não basta na maior parte das vezes ter boas ideias, é necessário ter capital ou acesso ao crédito e agir em pouco tempo, porque o tempo tem hoje um valor diferente do passado. Daí que o país seja escasso em homens cujas condições lhes permitam ser arrojados como no passado.

Quanto à criação de riqueza e de emprego, as limitações da reindustrialização moderna estão à vista. No passado, criavam-se empresas e construíam-se fábricas com 100 trabalhadores. Passados 5 anos estas tinham 10 mil assalariados. As fábricas empregavam dezenas de milhares de pessoas e construíam-se impérios industriais. Hoje, as empresas nas áreas inovadoras têm 5 colaboradores e a inauguração de uma nova empresa industrial com 15 postos de trabalho merece a inauguração de um Ministro. Isto já para não falarmos da falta de capital com que os empresários iniciam as suas atividades e o escasso acesso ao crédito por parte das micro e pequenas empresas.

Se somarmos a estas dificuldades a fuga de empresas multinacionais do país, deslocalizando-se para o oriente, ou encerrando atividades devido à crise, percebemos que os obstáculos a esta reindustrialização não acabam nos pressupostos anteriores.

Portugal nunca foi um país muito industrializado, não o é agora nem terá condições para o ser no futuro. Temos aliás dados que o provam. Na Alemanha e na Espanha, o peso da indústria no PIB é de 30%. Já na França, o seu peso no PIB é de 26,1% e na Holanda de 24,9%. A Itália e o Reino Unido são também países fortemente industrializados.

Em Portugal, tínhamos em 1998 um peso da indústria no PIB de 16%. Atualmente, este peso é de 14,1%, cerca de metade portanto dos países acima referidos. Por curiosidade, em 2008 tínhamos um peso do Sector Financeiro (não terciário mas apenas financeiro) de 14,3% do PIB, i.e. mais do que toda a indústria. Estamos portanto, e sempre estivemos, abaixo dos nossos parceiros no que toca à industrialização.

Mas Portugal tem outras competências que o podem apresentar como um país de serviços para a indústria. As suas boas infraestruturas de comunicação, o conhecimento, a formação e o ecletismo do seu povo, podem permitir ao país atrair indústrias que concentrem aqui conhecimento, tecnologia, e informação, os designados shared service centers. Desta forma, teremos aqui a instalação e a criação de empresas multinacionais, de emprego e de riqueza em território nacional e condições para competir com países como a Holanda ou Suíça.

Por tudo isto, a reindustrialização de que se fala tem que ser direcionada para este vetor e vir de fora, e o país, tem que ser capaz de captar o investimento através de um quadro fiscal favorável, pouco agressivo e especialmente estável, de uma justiça atuante e rápida e de um sistema administrativo e burocrático ultra-leve.

Em recente entrevista o comissário europeu da Industria e Empreendedorismo Antonio Tajani defendia que a forma de combater a crise será conseguida através da industrialização da Europa. No caso português, é sua opinião que o turismo é crucial para o país sair da crise pois é um sector fundamental uma vez que traz turistas de fora e, sendo um sector industrial, tal é muito importante para a economia portuguesa, dando o exemplo de que, uma cadeia de hotéis no estrangeiro, é um cartão-de-visita de Portugal no Mundo. Tajani defendeu ainda que esta industrialização deverá ser feita na Europa através de projetos de qualidade com uma aposta especial nas indústrias ambientais, na biotecnologia, nanotecnologia, engenharia aeroespacial e turismo.

Ora Portugal tem muitas competências nas indústrias criativas as quais representam apenas 3,1% da riqueza gerada e 2,7% do emprego nacional. Temos hoje um conjunto importante de empresas de base tecnológica e do sector das TIC com muita capacidade inovadora e criativa. Somos um país que gosta da tecnologia e do digital e damo-nos bem com a indústria do conhecimento pois estas exigem flexibilidade, baixo investimento em capital, capacidade de invenção e adaptação, conhecimento e ideias, redes de comunicação e um ecletismo presente nas novas gerações de empresários. Do calçado ao design, da arquitetura à moda, do artesanato aos espetáculos, dos festivais ao património cultural, Portugal tem competências únicas e condições para atrair novas pessoas vindas de fora contrariando assim o fluxo de saída de cérebros.

Em suma, o país tem capacidades para seguir o seu tipo de reindustrialização. Não a pesada e a dos pergaminhos do passado, mas sim a inovadora, baseada nas competências e no conhecimento, nas condições físicas, infraestruturais e culturais do país, nas suas gentes, no seu clima e na sua geografia. E o país é eclético, pois tanto poderá empreender na biotecnologia, na nanotecnologia, no calçado ou no têxtil como no mercado do turismo sénior, sector de aposta no futuro dadas as características e evolução demográficas do país e da Europa.

* Publicado no OJE, a 10 e 17 de abril de 2013, e no Vida Económica, a 19 de abril de 2013.

sábado, fevereiro 16, 2013

Portugal – O arranque que tarda em chegar

Portugal continua a apresentar um quadro económico difícil e de recessão acentuada. Quando a criação de riqueza na zona euro recuou no ano transato 0,6%, quando a Alemanha, a designada locomotiva europeia, regride 0,7% e a Espanha, França e Itália se mantêm no mesmo registo, facilmente nos apercebemos que as perspetivas para 2013 não se podem revelar positivas. Aliás, recordemos que as estimativas do governo português para o deficit orçamental para este ano foram calculadas com base num decréscimo do PIB de 1%, sabemos agora que este regrediu 3,2% no ano passado e 3,8% no último trimestre do ano que terminou.

Regista-se porém positivamente o comportamento que as exportações foram mantendo ao longo de todo o ano de 2012 tendo crescido 5,8% ainda que tendo vindo a perder o fôlego no último trimestre do ano. Sabemos que deste crescimento, os mercados intra-comunitários foram responsáveis por apenas 1% deste crescimento. Se recordarmos que Espanha já foi responsável pela absorção de cerca de 30% das exportações nacionais as quais se situam agora na casa dos 22%, temos aqui parte da explicação, digo parte, porque a Alemanha, França, Reino Unido e Itália também não têm ajudado. A recessão dos países da zona euro e a fortaleza do Euro não são fatores igualmente favoráveis. Estas estarão ao nível dos valores registados em 2009.

Já para fora da Europa as exportações cresceram 19,8% com o especial destaque de Angola cujos ganhos ultrapassaram as perdas para Espanha. Estados Unidos e China deram também uma ajuda essencial para o quadro de exportações nacionais, com destaque para os EUA que superaram já os valores de exportação para Itália. Os países da CPLP registaram também um crescimento de 23% como destino das exportações nacionais face ao ano de 2011, destacando-se aqui o Brasil e Moçambique. Apesar destes registos o Primeiro-Ministro veio já afirmar que, mesmo com a performance das exportações a este nível, claramente positivo mas insuficiente, o governo terá que rever as suas previsões de crescimento.

Contrariando o cenário positivo do comportamento das exportações surge o problema do desemprego, cuja taxa atingiu os 16,9%, um recorde para o país, representando quase 930 mil desempregados. Trata-se do maior problema social e consequentemente económico do país, para o qual nem as empresas nem as autoridades têm conseguido agir para o contrariar. É aliás opinião de uma larga franja de empresários que este desemprego irá sofrer ainda um agravamento ao longo de 2013. A recessão económica e o fraco crescimento económico ainda previsto para 2014 levam a concluir que a taxa de desemprego não verá uma inversão do seu curso entes de 2015.

Resta igualmente esperar pelo que vai resultar da ideia da criação de uma zona transatlântica de comércio livre como forma de impulsionar o comércio entre os dos maiores blocos económicos, representado por um mercado de 800 milhões de consumidores, tão entusiasticamente divulgado pelos líderes dos dois lados do atlântico. Segundo estimativas da UE, uma zona de comércio livre com esta amplitude aumentaria o Produto Interno Bruto europeu em 0,5%, ou 65,7 Mil Milhões de euros por ano com ganhos comparáveis para os norte-americanos. Além disso, uma unificação transatlântica desta natureza com o reflexo nos padrões industriais e nos procedimentos de licenciamento resultariam numa vantagem em especial para a indústria europeia. Resta saber o que pode Portugal vir a aproveitar com a realidade desta zona de comércio livre.

domingo, janeiro 20, 2013

Portugal ou Suíça?




Portugal é um país que pode reunir todas as condições para ser uma Suíça no sul da Europa. Geograficamente privilegiado, pode posicionar-se como uma porta para abastecer o mercado europeu em produtos e serviços de vanguarda e servir de plataforma de negócios, centro de serviços e logística, quer para a União Europeia quer para a Lusofonia (países da CPLP).

Portugal tem, por comparação com a Suíça, um melhor clima, uma mais longa e influente História para descobrir, uma gastronomia ímpar, uma hospitalidade e pacatez mais vincadas, igual segurança, grande beleza natural, excelente e diversificada oferta turística de serra e mar, um país de sol e praia que consegue fomentar os desportos marítimos e captar uma procura turística diversificada. Além disto apresenta uma rede de infraestruturas de qualidade. Portugal possui 8 aeroportos internacionais, 3 dos quais no Continente, 4 no arquipélago dos Açores e 1 na Madeira. De Lisboa e do Porto saem voos para as principais cidades europeias e para algumas das mais importantes do mundo. Dispõe de 9 portos de grande capacidade, tem 48 linhas férreas que cobrem o país, uma das quais considerada de alta velocidade. Tem ainda excelentes vias de comunicação rodoviárias e uma oferta significativa de excelentes e modernos parques de escritórios para empresas, com uma adequada logística de serviços e transportes. A rede de hotéis é das melhores da Europa onde se podem realizar as melhores e maiores conferências e encontros de negócios assegurando a mais elevada qualidade de serviços.

Existe em Portugal uma disponibilidade de capital humano, jovens e menos jovens licenciados, provenientes de boas universidades onde são ministrados bons cursos universitários, que permitem uma oferta de especialistas em engenharia informática, engenharia aeronáutica, em tecnologias de comunicação e informação, investigação e ciências bioquímicas, médicas e biomédicas ou em áreas económicas e empresariais.

No período compreendido entre 1991 e 2011 o país registou progressos assinaláveis ao nível da educação. Multiplicou por 1,5 o número de matriculados no ensino superior e por 4 o número de diplomados. O número de pessoas entre os 15 e os 64 anos com o ensino superior completo correspondia em 2011 a 25% da população activa. Em 2010 o país tinha lançado no mercado mais de 78 mil diplomados com um qualquer grau do ensino superior.

Em Portugal, os jovens licenciados, no quadro das grandes dificuldades macroeconómicas em que o país vive, têm energia e vontade para prosseguir uma carreira, realizarem-se profissionalmente e ter sucesso. Vestem a camisola a 100%, são eclétios, na sua maioria disponíveis para trabalhar em qualquer parte do mundo e com grande espírito competitivo. Trata-se de uma geração bem informada, alguns muito viajados, com pleno domínio das tecnologias e ferramentas de informação e comunicação, nas quais Portugal é um early adopter, e possuem grande apetência para falar línguas.

Notícias recentes atestam esta realidade: empresas alemãs recrutaram em Portugal mais de 100 engenheiros jovens e recém-licenciados, para trabalhar em empresas industriais no sector público e privado; Uma empresa de recrutamento francesa veio recrutar no país jovens médicos e enfermeiros para trabalhar quer no sector público quer privado.

Encontramos em Portugal um sistema de telecomunicações e informação dos mais desenvolvidos do mundo. O país está muito bem posicionado em termos europeus na oferta e cobertura de internet de alta velocidade, apresenta neste serviço uma boa cobertura nacional, acima dos 25%, oferece uma das mais modernas infra-estruturas de fibra óptica posicionando-se no TOP 20 dos países com maior uso desta tecnologia. Sem ser visto como um país símbolo da inovação, Portugal é efectivamente, à sua escala, um país inovador. Temos vários exemplos: o sistema pré-pago para telemóveis, que representou um caso de inovação mundial; o sistema de pagamento automático de portagens nas auto-estradas, através da chamada Via Verde; o actual sistema automático de cobrança em portagens; a liderança mundial na inovação na indústria de moldes para automóveis ou com aplicação na aeronáutica; a especialização no fabrico de componentes automóveis para algumas das principais marcas mundiais já para não falar da inovação e criação ao nível da indústria do calçado e do têxtil.

Portugal é por tudo isto um país fascinante. Tem conseguido tirar partido destas características mas está longe de optimizar os seus recursos e activos. Em virtude da crise económica e financeira que atravessa, o país necessita de captar investimento estrangeiro para fazer crescer a economia, criar riqueza e emprego. Mas está a competir com países europeus e asiáticos. Neste campo Portugal tem apresentado muitas fragilidades pois temos assistido não só a uma redução do investimento vindo de fora mas também a algum desinvestimento externo. Um dos pontos fracos deriva do sistema fiscal, complexo e desfavorável a quem quer investir, seja pelas elevadas taxas de IRC, licenças e outros custos administrativos mas sobretudo pela volatilidade das suas regras. A política fiscal é irregular e sofre mudanças contínuas em função dos Governos o que tem criado um quadro de grande incerteza e instabilidade, o que retrai os investidores. 

Neste quadro o país tem quase todas as condições para se afirmar como um destino estratégico para a localização de empresas multinacionais, designadamente ao nível dos seus serviços partilhados (shared services centres) o que lhes permitirá aproveitar todos os recursos já aqui enumerados. A prova disso é que temos já o testemunho de várias iniciativas de sucesso através dos exemplos de empresas como a Fujitsu, a Siemens, a Nokia Siemens, a Cisco Systems, o BNP Paribas, ou mesmo a Microsoft e a Solvay, que colocaram em Portugal os seus shared services centres. Aqui concentram e desenvolvem as suas atividades que vão desde os call centers à investigação, serviços centrais administrativos, informáticos ou financeiros.

Para a Lusofonia, o país pode concentrar uma plataforma de apoio logístico, legal, financeiro, administrativo, de tradução e de apoio diplomático e empresarial a todas as empresas e investidores que pretendam investir nestes países, dado que conhece como ninguém as suas características. Há ainda as oportunidades que resultam do facto de estes países necessitarem de professores e formadores, pelo que as alianças entre as Universidades e escolas seria um primeiro passo indispensável.

Portugal é um país amável, generoso, moderno e inventivo que permite às famílias dos que vêm trabalhar segurança e uma boa qualidade de vida. O país tem que melhorar os seus pontos fracos de modo a elevar a qualidade da sua oferta: um quadro fiscal estável e amigo do investidor, uma justiça célere e uma simplificação urgente da burocracia. Todos os restantes ingredientes estão cá.

Artigo publicado no semanário Vida Económica  (01-12-2012) e no diário OJE (12-12-2012)

quarta-feira, julho 13, 2011

A minha história!

Imaginemos que eu devo a um de vocês 160.000€.
Imaginemos que eu pedi emprestado a outros, e vocês sabem, um montante que ninguém sabe muito bem quanto é mas que se estima poderem ser mais 60.000€, cuja factura vai aparecendo todos os anos e que somam àqueles 160.000€;
Imaginemos que, por via disto, eu peço 80.000€, a receber em tranches até 2014.
Imaginemos que eu ando há 30 anos a gastar mais do que recebo e que só no ano passado gastei mais 10% do que recebi.
Imaginemos que instado a contrair a despesa e já depois de termos acordado no empréstimo de 80.000€ e eu ter-me comprometido, em 2011, em não gastar mais do que 6% do que recebo, acabei por gastar mais 2000€ nos primeiros três meses.
Imaginemos ainda que eu vou ter um corte de 1/2/3% nos meus rendimentos anuais.
Imaginemos ainda que quando se esgotarem os 80.000€, eu vou ter logo de pagar 15.000€.
Somem a tudo isto juros de 5/10/15 vezes superiores ao meu acréscimo de rendimentos.
Imaginemos ainda que as minhas dívidas foram criadas pela minha mulher gastadora e que me divorciei dela.
Imaginemos ainda que a minha nova mulher sabendo que gastei mais 2000€ nos três primeiros meses consegue arranjar 800€ para vos calar a boca, mas nada diz sobre os outros 1200€.
Imaginemos que tenho áreas onde tenho dívidas de 2.000€, 3.000€, 5.000€, mas a primeira preocupação da minha nova mulher que vai pôr a casa em ordem é cortar em despesas de 18€.
Vocês achavam que eu conseguiria pagar?