No vil carril da morte tudo acaba
Meninas de olhos nus amordaçados
Recordam o futuro que desaba
O fumo sobe e grita aos céus calados
Regressarás mais forte.
O mote instantâneo, nascido em 12 de setembro, foi glosado em 21 de janeiro do ano seguinte:
Naquele carril da morte tudo acaba
Meninas de olhos nus amordaçados
Lembrando o futuro que desaba
O fumo sobe e grita aos céus calados
O Almo assiste a tanta injustiça
Mas pensa que é forte; até se gaba
Que tudo ele levanta; só enguiça!
Naquele carril da morte tudo acaba
Cordão umbilical da amizade
Desfez-se com a luz de sóis fechados
O escuro é afinal a voz que invade
Meninas de olhos nus amordaçados
Viagem duradoura para cumprir
Destino feito apuro que aldraba
Ausência que desdoura o devir
Lembrando o futuro que desaba
Revolta é o que resta - a alma sente
Pergunta à desdita: que pecados?!
O ar já pouco presta, está doente
O fumo sobe e grita aos céus calados
Fórum de Reflexão Económica e Social
«Se não interviermos e desistirmos, falhamos»
terça-feira, setembro 12, 2017
sexta-feira, maio 19, 2017
Esquerda e Direita no Século XXI - To be or not to be - Reflexões (VI) (parte III/III)
PARTE III: A ESQUERDA E A DIREITA NO SÉCULO XXI
O que se pode entender por Esquerda e Direita nos nossos
dias? A resposta é importante para se justificar ou refutar mais concretamente
a persistência dessa polarização.
É, pois, necessária uma redefinição atualizada de esquerda e
de direita, como tendências de pensamento, posturas face à realidade. Parece-me
que um elemento básico reside – ainda e sempre – na aceitação, justificação e
defesa (pela direita) dos privilégios associados a estatutos sociais e económicos,
assim como na relevância dos respetivos símbolos;
ou não (pela esquerda).
A chamada “direita liberal” recupera o princípio máximo da
liberdade individual como motor criativo da sociedade, com particular
incidência na área dos negócios. É uma evolução intelectual do conceito de self made man, de contornos eminentemente monetários e económicos – estimulando a
ascensão social pelo empreendedorismo e pelo retorno financeiro que este traz,
quando (supostamente) bem conduzido. Mas a realidade e a literatura estão
cheias de “desvios” que tal perspetiva da vida pode trazer: “Chegarei lá, no matter what!”, assegura-se o self made man. Ora... “no matter what” traz frequentemente,
como outro lado da moeda liberal, grandes problemas, para o próprio e, às
vezes, para a família e para outros, “esmagados” pelos passos de gigante do
empreendedor.
Nesta perspetiva, o Estado
é quase sempre visto como um empecilho, algo que deve ter uma dimensão e uma
capacidade de intervenção diminutas, que não atrapalhem, que não criem
obstáculos à dinâmica empreendedora dos que “querem fazer”. Acontece que, hoje,
os que “querem fazer” são também os inventores e usuários das farsas produtivas
denominadas “produtos financeiros”. Ora, não terá sido a especulação nestas abstrações
aberrantes que, de braço dado com a corrupção, levou à ruina, ou quase, boa
parte da população mundial? Deverão os reais e falsos “empreendedores” ter
rédea solta? Deverá o Estado dar-lhes a bênção, “no matter what”, porque lhes atribui a criação de riqueza? Será natural e, portanto, aceitável a
progressiva concentração de riqueza no Mundo? Deverá ficar impune a exploração
infame dos “outros”, sem sequer uma restrição de idade?
Falei atrás em evolução
intelectual porque, muitas e muitas vezes, o self made man era homem de baixa formação cultural e intelectual,
que tendia a desprezar o que não fosse o “negócio”. Não deve ser à toa que no
Brasil, em tempos terra de eleição para estas pessoas, o significado de
“negócio” aí se tenha generalizado com o significado de “coisa”.
Claro que a liberdade criativa, vital agente de
transformação, a sua potencialidade e força geradora de novas realidades, são
fundamentais para os indivíduos e as sociedades humanas. Não podem, de modo
algum, ser subestimadas. Esse foi, creio, um dos grandes problemas da doutrina
comunista, em que até a liberdade criativa dos artistas acabou por ser
submetida ao pseudosserviço da revolução e do proletariado, culminando no
denominado “realismo socialista” – termos que, se bem observados, resumem o
espartilho a que os artistas se deveriam submeter – e nos atraentes grafismos
dos cartazes de propaganda representando um sorridente Líder e um radioso Mundo
Melhor. Que ilusão e manipulação!
A liberdade criativa é fundamental em todos os aspetos da
ação humana e, só por isso, faz explodir as amarras do materialismo. A
“liberdade” necessita de condições materiais, naturalmente, mas não se
restringe a elas. A liberdade artística, por exemplo, extravasa largamente o realismo, só pode subsistir e criar
asas através do chamado (e tantas vezes desprezado) idealismo. O valor – se tal existe – de um obra artística não se
pode medir realisticamente, materialmente. Não se trata, pois, de um bem
estritamente material, nem na sua criação nem na sua “apropriação” pela
comunidade. O mesmo pode ser dito das obras científicas.
Ou seja: a esquerda, no século XXI, precisa de ser menos
“materialista” e mais “idealista”. O idealismo foi lançado às urtigas do
descrédito pelo materialismo dominante, à esquerda, desde Marx ou mesmo antes. A
grande preocupação, o grande objetivo revolucionário da filosofia de então era
contribuir para mudar o Mundo e não apenas para o interpretar; preocupação
bastante compreensível e louvável, face às condições miseráveis, muitas vezes
sub-humanas, em que vivia e trabalhava a maioria da população, particularmente
o proletariado.
Contudo, século e meio passado sobre essa época, que gerou
ideologias comunistas e anarquistas, tal império filosófico de feição
positivista – fundamentado quase estritamente nas “condições materiais” da existência
e na rejeição do “idealismo alienante” propalado pelos exploradores – deve
perder autoridade. Deve fazê-lo, como linha inspiradora da esquerda, porque foi
a semente do autoritarismo que impôs “cientificamente” a direção a seguir. Não
tenho grande dúvida de que foi aquela imposta linha restritiva – e repressora –
que levou à proclamada “degenerescência” do comunismo (inevitavelmente, diria
Bakunine!) e finalmente ao seu colapso; isto aplica-se também à linha “mista”
que hoje se encontra na China, forçada a admitir uma “abertura espiritual” e a
usar palácios imperiais e mosteiros budistas como riqueza turística, já que,
neste aspeto, nada criou e muito destruiu. Entretanto, na Coreia do Norte, pseudo-república socialista sob o signo
da ideologia juche, o poder
autocrático usa e deturpa o “idealismo” na manipulação dos factos e na
construção de uma nova forma de culto da personalidade: uma mitologia destinada
a perpetuar o regime criado por Kim Il-Sung!
Quanto aos Sindicatos e Partidos do mundo capitalista, a orientação
de esquerda sempre se centrou nas “lutas dos trabalhadores” por melhores
condições de vida, níveis salariais, horários de trabalho, etc. Ora, por
importante que isso tenha sido – e continue a ser – o pensamento e a ação da
esquerda não deve restringir-se a tais limites.
É que o capitalismo, em certa época aparentemente condenado
à decadência e morte, está, pelo contrário, mais vivo e imperante do que nunca (sobretudo,
ao que parece, de um ponto de vista financeiro). E isso não se deve apenas à
“queda do comunismo” na URSS e países satélites. Este, aliás, caiu de podre (e,
afinal, não o capitalismo!); e ainda bem, porque se tornou rapidamente um tipo
de sistema iníquo e hipócrita, em que novas classes dominantes se geraram e
passaram a defender os seus interesses e privilégios (na prática, a esquerda
volveu-se em direita reacionária). O capitalismo, por outro lado, tem tido
tanto êxito, transformando-se, ajustando-se e reafirmando-se, porque
corresponde à natureza humana, a um certo poder de sedução aliado à evolução
técnico-científica, talvez melhor do que os sistemas anteriores,
estratificados, e do que os sistemas comunistas, artificiais e impostos.
Desde sempre, a direita de modo algum se deixou acantonar em
qualquer tipo de materialismo. Este encontra-se certamente, no pensamento
pragmático de direita, tantas vezes egoísta, na mentalidade restrita de um mau gestor, na voragem do lucro e do cash-flow, na justificação de que “as
coisas são como são” ou de que “o mundo é assim”. Mas a direita e o chamado
centro-direita abarcam também uma ampla espiritualidade, que não se reduz,
longe disso, a verniz e falsas devoções; incluem uma boa parte do “mundo
cristão”; acolhem, porque sim ou porque aprenderam a fazê-lo, diversas crenças
religiosas e filosofias, como a budista (outrora sujeita a feroz repressão
pelas autoridades comunistas, sobretudo na China).
No século XX, infelizmente, a esquerda tornou-se refém de
conceções autoritariamente materialistas que, na sua vertente comunista, levaram
invariavelmente a ditaduras. Por essa razão, os ideais libertários do
pós-guerra desenvolveram-se a Ocidente e, sobretudo a partir dos anos 50, nos
EUA, a par de relevantes criações/tendências artísticas, incluindo novos
géneros musicais, transmutados de raízes populares. Foi aí que, contra todas as
resistências conservadoras, surgiram importantes lutas pela igualdade racial ou
de género (com Martin Luther King, por exemplo), pela emancipação feminina e
não só. Pelo mundo fora, apesar de tais lutas e movimentos terem claras
conotações de esquerda e a ela se deverem, não à direita, foi em sistemas
capitalistas – e não comunistas – que se despoletaram e, de algum modo,
venceram.
São semelhantes ideais libertários que devem ser, cada vez
mais, assumidos pela esquerda – mas não como algo “lateral”. É verdade que a
atuação do BE ou do Livre já passam por aí; o que incomoda
a direita, que os apelida de partidos de extrema-esquerda. A esquerda, como
pensamento organizado, deve deixar de “temer” o genuíno idealismo porque este é
fundamental para o ser humano; deve valorizá-lo – não vê-lo invariavelmente como
muleta ou placebo – e colocar o materialismo no seu devido lugar: como uma das
componentes da vida e da História, nada mais.
O século XX mostrou, a começar pela Física Atómica, que a
“certeza científica” (base do pensamento marxista e, por conseguinte, da
esquerda mais autossuficiente) é muito mais ilusória do que se pensava à época
de Marx. Não é à toa que o budismo, com a sua insistência no aspeto ilusório do
nosso conhecimento, se tem disseminado pelo Ocidente. A teoria do Caos veio
também demonstrar que a previsibilidade dos eventos é tanto mais falível quanto
maior a complexidade destes e o prazo a que se aplica. Isto significa que o
determinismo marxista é, hoje, totalmente inadmissível.
Respeito enormemente a Ciência, mas não convém espartilhá-la
às nossas limitações. Na minha compreensão do mundo intuo uma realidade
múltipla, vejo-o composto de diversos “planos”, interdependentes de modo mais
ou menos subtil, mais ou menos evidente. A Matemática, que me maravilha, é uma
dessas realidades, com manifestas correlações com o mundo material; não é uma
invenção humana (exceto no que toca à sua codificação) porque é demasiado perfeita
para isso, jamais nela se encontrou uma contradição, e não há, a meu ver, outro
modo de compreender a famosa constatação pitagórica de Galileu: “A Natureza
está escrita em caracteres matemáticos”. Que cálculos matemáticos, baseados nas abstratas leis de Newton, levem
a colocar satélites em órbita, homens na lua e sondas a circular
controladamente pelo espaço – realizações bastante físicas, como também, infelizmente, o é a trajetória de um míssil –
constituem exemplos da misteriosa ligação entre “ideal” e “real”. E quanto à
famosa relação causa-efeito? “É indiscutível!” – apregoa-se, com a autoridade
do bom senso. Porém, segundo determinadas equações relativistas, há dois fluxos temporais no universo, as interações
de causa e efeito formam uma teia muito mais vasta e complexa do que poderíamos
imaginar (o que, a propósito, pode ajudar a compreender estranhos fenómenos
psíquicos, como as premonições ou, ao invés, aquela sensação conhecida como “déjà vu”, que tantos de nós já
experimentámos inequivocamente).
Resumindo: de um ponto de vista teórico, torna-se
fundamental um ou mais pensadores de esquerda, da envergadura de Marx e Engels,
que consigam formular novas bases para a “ação da esquerda” e os ideais que a
inspiram. A esquerda precisa, urgentemente, de novos ideais, menos restritivos e mais humanos, que lhe permitam
enfrentar a direita com propostas consequentes.
Na verdade, esta nova definição de “esquerda”, a sua procura,
já está em curso (por exemplo com o Syriza
na Grécia). Mas faz falta, parece-me, uma base teórica englobante, que renove a
esquerda e dê maior coerência à sua prática, sendo muito mais do que,
simplesmente, “do contra”. Em Portugal, mesmo o PCP, com o BE, tem dado
alguns passos no sentido de uma pequena modificação na sua “praxis”, ao aceitar
participar – com sucesso – numa ação governativa conduzida pelo PS, na implementação de uma alternativa
ao que a direita coligada do PSD/CDS garantia não ter alternativa: o fraturante
e depauperante programa levado a cabo por esses diletos “bons alunos” da escola
de mestre Schäuble, temperado de “tua
culpa” e de “janelas de oportunidade”.
Por fim, o papel do Estado
é (sempre foi) da maior importância em qualquer visão de esquerda do mundo,
exceto na dos anarquistas; o problema da esquerda é que, na sua concretização
em regimes comunistas, sempre redundou numa híper-estrutura fortemente
repressiva dos cidadãos que deveria representar e defender. Esse papel tem que
ser repensado. De um ponto de vista, dito mais “moderado” – o da doutrina
socialista (PS) –, um dos papéis
centrais do Estado é o controlo dos excessos a que o “liberalismo” pode levar;
a garantia dos direitos fundamentais do cidadão, independentemente da sua
condição social, raça, sexo ou religião; a gestão e o governo do “bem comum”. É
um ponto de partida.
A Polícia e o Exército são instrumentos de soberania
essenciais em qualquer Estado. Mas, à direita ou à esquerda, quando os governos
se tornam corruptos ou incompetentes, que direito têm de usar a polícia ou o exército
contra a população que se revolta, a favor da manutenção de um espúrio status quo? Já para não falar da
“polícia política”, uma aberração própria das ditaduras!... O Estado deve ser forte, na defesa das condições de vida,
da educação, da saúde, segurança social, etc. Mas não deve ser uma fortaleza; porque esta abriga e defende
sempre os que se apropriaram do Estado para o exercício da sua vontade:
oligarquias, governantes e “satélites” que em torno deles orbitam.
A “filosofia política” não se pode isolar da Filosofia em
geral, no que concerne à busca do sentido da vida. Não se trata de encontrar e
fornecer uma resposta para todos os seres humanos porquanto, além do que a
todos se aplica, o sentido tem de ser procurado por cada um em particular, para
a sua própria vida. Trata-se de compreender, antes de mais, que regimes
autoritários não se preocupam minimamente com o sentido da vida, a não ser o da
sua própria existência e preservação. O êxito do capitalismo deve-se, em boa
medida, a propiciar certos sentidos
para a vida.
Nenhum sistema socioeconómico alguma vez trará a
possibilidade de respostas totais, evidentemente; isso corresponderia a uma
situação perfeita, coisa que não existe. Não existirá nunca um sistema perfeito
(até porque, nesse caso, seria imutável); mas qualquer sistema pode ser
aperfeiçoado, melhorado; e é aqui que uma “filosofia de esquerda”, globalmente
falando, se torna importante – ou melhor, imprescindível. Porque a diferença de
pontos de vista em relação ao que significa “melhorar” é precisamente o que
marca a distinção entre esquerda e direita.
Esquerda e Direita no Século XXI - To be or not to be - Reflexões (VI) (parte II/III)
PARTE II: CRÍTICA DA ESQUERDA E DA DIREITA
No seu colóquio, já referido, Rui Tavares acrescentou às coordenadas “esquerda” e “direita” duas
outras: “autoritarismo” e “libertarismo”. Segundo ele, tanto à esquerda como à
direita, verificou-se a divisão entre “libertários” e “autoritários”. Remeto o
leitor para a argumentação que apresenta no seu livro “Esquerda e direita: guia
histórico para o século XXI”, e reproduzo a representação esquemática que aí
faz, em quadrantes, ou seja, num quadrado.
Segundo Tavares, nos anos 40, durante a 2ª Guerra Mundial,
George Orwell, um homem de esquerda, disse que na época, mais importante do que
a divisão entre esquerda e direita, era a divisão entre Libertários e
Autoritários. Hoje, o quadrado transformou-se num cubo com a introdução das
variáveis opostas “Cosmopolitas” e “Isolacionistas”.
Convém, a propósito, compreender que esquerda e direita
autoritárias não são sinónimos de ditadura.
A ditadura é o extremo do autoritarismo, assim como a anarquia é o extremo do
libertarismo. Sem dúvida que a doutrina marxista é de estilo “autoritário”,
baseada no seu pretenso cientificismo, que classifica de “utópicas” todas as
doutrinas concorrentes; não necessariamente “ditatorial” apesar de propor a
“ditadura do proletariado” – e isso porque, algo ingenuamente, sustenta que
essa ditadura se dissolveria por si. A materialização do comunismo, contudo, na
sua forma marxista-leninista, estalinista, maoísta, etc., destruiu esse
lirismo, desembocando sempre, e desde cedo, em ditaduras que nunca desvaneceram.
Podemos ser levados a pensar que, nos regimes ditatoriais,
esquerda e direita carecem de sentido ou de existência. Mas a verdade é que, sob
ditadura, o facto de não haver partidos, exceto o que está no poder, não faz
desaparecer o sentimento de esquerda e direita, mas apenas a sua expressão
partidária. Faz, quanto muito, com que o sentimento se auto reprima, a ponto
de, eventualmente, se tornar irreconhecível. Mas não o faz desaparecer. E este
é o maior medo, a maior obsessão dos ditadores e dos seus acólitos. O mesmo Orwell
compreendeu-o muito bem, em “1984”.
Atribui-se frequentemente à direita a defesa da liberdade
individual; e à esquerda a defesa dos interesses e direitos das maiorias, ainda
que com desprezo pelo indivíduo. Embora esta apreciação seja muito redutora, a
trágica evolução da última ideia e a negação da primeira caracterizou o
nazismo, pela transição de um partido socialista, a favor dos trabalhadores,
num partido de extrema-direita obcecado pela grandeza da Alemanha, do povo
alemão, devidamente “depurado”, e da sua mitologia ancestral com diversas
conotações místicas.
Por outro lado, a caracterização da esquerda acima referida
não é estritamente válida no caso do pensamento anarquista, que, de um modo
radical, procura conciliar os interesses e as liberdades do indivíduo com os da
espécie humana, incluindo a sobrevivência. Contudo, o que mais marcou o
percurso da esquerda não foi o anarquismo, foi a sua institucionalização
comunista como “dono do Estado”. Ora, ainda hoje, o discurso do PCP passa frequentemente por insistir
que o problema não são “as pessoas” (que lideram) mas “as políticas” – como se
estas existissem sem aquelas, independentemente delas.
O grande equívoco – logro,
em boa medida – das supostas “ditaduras das massas” (comunistas, fascistas ou
nazis) é que muito rapidamente se transformam em ditaduras de um partido,
depois da cúpula do partido e finalmente de uma pessoa, que é progressivamente
endeusada. “Transformam-se”, digo eu; e não “degeneram”,
de uma raiz tida como pura; é justamente por isso que se trata de um logro.
“Os extremos tocam-se”, costuma dizer-se, por vezes com
alguma hipocrisia. Mas o facto é que nesse ponto, o das ditaduras, os
discursos, a retórica de esquerda ou direita são semelhantes: servem sobretudo para
“legitimar” o regime, a sua imposição e sobrevivência, a repressão das
liberdades em nome de um ideal maior. A dialética dualista afunila cada vez
mais e termina, sempre ou quase sempre, na “caça ao inimigo”, seja ele de
classe, de raça ou de religião, o que forçosamente se ajusta sem maior esforço ao
discurso de base. Não há, talvez, nada de mais repugnante que esta deriva mais
ou menos violenta para a concentração de poder, associada à identificação e
perseguição de determinados bodes expiatórios.
O que isto significa é que a distinção entre ditaduras de
direita ou de esquerda é não só irrelevante como, efetivamente, inexistente.
Fazer de conta que não, pode ser conveniente para quem o faz, mas nada de bom abona
a seu respeito.
Por outro lado, a violência dos regimes opressores e repressivos
bestifica e gera violência e ódio reprimidos na população. Por vezes, estes
sentimentos extravasam “em massa”, subitamente e de modo incontrolável, com a
correspondente natureza destrutiva. Por isso, as ditaduras – como a da Santa
Madre Igreja, em tempos – sempre trataram de preencher o imaginário dos
submetidos com cenas edulcorantes e a dura e estúpida realidade com cerimónias
e jogos brutais; lembremo-nos da reação de júbilo popular nos espetáculos que
constituíam o Circo Romano, na era imperial, os enforcamentos na Idade Média,
os fogos da Inquisição ou as decapitações pela guilhotina ordenadas pelos
jacobinos revolucionários. Ora, mesmo aí, em gentes embrutecidas, o campo das
reações é muito mais complexo do que pode parecer e a indiferenciação íntima
esquerda/direita está longe de ser verdadeira.
O cerne da democracia é que, numa sociedade “sã”, a esquerda
e a direita são tão necessárias uma como a outra: são como os pratos de uma
balança, sendo que os indivíduos de “centro” gostam de se ver como os atilados
e virtuosos fiéis da mesma.
Claro que os sentimentos de “esquerda” e “direita”, como
tantos outros, podem ser manipulados. A propaganda política atua nesse registo,
a começar pelos regimes totalitários surgidos no século XX. Mas cada ser
humano, com os seus medos e inseguranças, também o faz em relação a si próprio
(e a outros), erigindo barreiras, preconceitos e “certezas” que, muitas vezes,
nem uma vida inteira consegue abalar. Mas o que está no fundo lá continua.
Creio que parte da essencial auto inteligência de cada um de nós é chamar a
julgamento todos os meios e instrumentos de auto manipulação e procurar uma
maior harmonização com aquilo que, em cada um, é fundamental. E parece que,
neste capítulo, não andamos muito longe dos ensinamentos e das práticas
budistas.
Luís Dias Ferreira
Esquerda e Direita no Século XXI - To be or not to be - Reflexões (VI) (parte I/III)
PARTE I: A ETERNA DICOTOMIA ESQUERDA-DIREITA
Esquerda e Direita… faz sentido essa dicotomia no século
XXI?
Claro que faz todo o sentido! De um ponto de vista individual, “Esquerda” ou “Direita”
(cujo conceito e institucionalização nasceu em França pouco antes da Revolução de
1789) corresponde, antes de mais, a um sentimento que vem das entranhas, não
propriamente a uma opção - como acontece com tudo aquilo que é realmente fundamental
– mas a um “ser e estar” que tem tanto de racional como de emocional. O que eu quero
dizer é que o “sentimento” genuíno de se ser de esquerda ou de direita (com os
significados que normalmente se atribuem a estas classificações), a empatia com
a filosofia e o discurso de um ou de outro lado, é intemporal. Já existia antes
da sua institucionalização e continuará a existir, apesar das evoluções de uma
e de outra.
Em todo o caso, desde a sua origem institucional, que
inaugurou formalmente a vida partidária – conforme explicou Rui Tavares, um dos
fundadores do partido de esquerda LIVRE, no colóquio que deu origem a este
livro –, a distinção entre esquerda e direita ficou razoavelmente clara. Em
meados de agosto de 1789, após a abolição dos direitos e privilégios (feudais) de
classe, votou-se se o Rei deveria ter direito de veto ou não. Os votantes
agruparam-se em dois lados, face ao presidente da sessão, o que deu origem à
nomenclatura e à definição do cerne da oposição em causa:
- os que, à direita, defendem o direito a privilégios de classe ou de condição superior, herdados ou conquistados, aceites como um dado natural, seja ele ou não decorrente de disposição divina; e ainda o relacionado e inquestionável direito de propriedade (de terra, de coisas ou mesmo de gente); e os que, à esquerda, combatem estas ideias, que querem a mudança, que não aceitam semelhante estratificação e os privilégios dela derivados e veem antes o reverso da medalha – sobretudo por empatia com uma maior ou menor parte da população remetida para estatutos de miséria e exploração, situação esta que é, também ela, de facto ou potencialmente transmitida.
Poderia pensar-se, ingenuamente ou não, que o posicionamento dos indivíduos à direita
ou à esquerda decorre da sua posição na sociedade, da classe (“dominante” ou “dominada”)
em que se nasceu e/ou se insere. Nada mais falso. Há pessoas de todos os
quadrantes políticos em todas as classes: há aristocratas ou filhos de
milionários genuinamente de esquerda e operários, camponeses ou taxistas com
mentalidade de direita e mesmo de extrema-direita. Esta realidade, que a muitos
custa a perceber, mostra claramente que o dito posicionamento é algo de radicalmente interior, embora certamente temperado
pelas circunstâncias, eventos e azares que formam o chamado “contexto” que
ajuda a moldar o interior ao exterior.
No meu ponto de vista, ninguém escolhe ser de direita ou de
esquerda (ou do centro); ‘simplesmente’ é. E “ser”, aqui, é um processo, não
algo definido para todo o sempre, como a raça ou a cor dos olhos. Não se trata
aqui, evidentemente, de aplicar as Leis de Mendel. Penso que todos nós nascemos
– não sei porquê, pode ter a ver com coisas como a reencarnação ou o karma –, com determinadas disposições e
potencialidades que eventualmente tomam o aspeto de talentos. Ser, potencialmente, de direita ou de esquerda, é algo
desse tipo. Por outro lado, como em tudo o que pertence à esfera do humano (e
não só), ser de esquerda ou de direita não é estar numa gaveta, ter um
pensamento e anseios de características monolíticas. Isto pode ocorrer, mas, na
minha opinião, é sintoma de estupidez ou de hipocrisia. Trata-se de algo que é,
globalmente. Pode ter-se certas “ideias de direita”, sendo de esquerda,
e vice-versa. Isto relaciona-se também com o facto de os próprios conceitos (as
ideias-chave) que definem esquerda e direita não serem nem clara e
indiscutivelmente definidos nem imutáveis no tempo. Relaciona-se ainda com a
circunstância de que cada ser humano não é um monobloco.
O posicionamento individual é baseado em convicções (mais ou menos profundas,
mais ou menos fundamentadas, mais ou menos assumidas) porque não existe uma verdade “superior” que se imponha pelo
seu caráter absoluto. Todos nós, como seres humanos, precisamos dessas
convicções – em todos os domínios: social, científico, cultural, religioso –
porque, sem essa base, à falta de verdades absolutas, nada se pode sustentar.
Esse é o papel assumido, na Geometria Euclidiana, por postulados e axiomas. Foi
o objeto da busca de uma certeza por pensadores tão distintos como Descartes, que
finalmente a corporizou na sua famosa “evidência racional” cogito, ergo sum (penso, logo existo); ou como Kropotkine,
no estabelecimento de um código moral anarquista, essencialmente de uma origem natural da moralidade, do bem e do mal,
extirpada do que classificava como falsidades sobrenaturais e religiosas.
Porém, o grande perigo das convicções de base é
cristalizarem em verdades absolutas para o próprio, que evidentemente, por
serem absolutas, excluem o entendimento com as “verdades” dos outros. É porque
as “verdades” são, na essência, relativas que se justifica a existência de Esquerda
e Direita (e da sua dialética).
Voltamos, assim, à questão de saber se faz sentido a oposição
Esquerda versus Direita no século
XXI? Ainda existe, afinal, esta polarização algo maniqueísta?
Eu, sendo assumidamente de esquerda, acho que sim. Muita
gente – por ironia, tendencialmente de direita – acha que não. E apresenta uma
panóplia de argumentos para mostrar que tal divisão está historicamente
ultrapassada, demodée, out of fashion. Os argumentos têm, em
geral, base institucional. Fala-se de uma pulverização de partidos, de
“sensibilidades”, que já não se conforma com a polarização clássica. Não se
pode, dizem, pensar a política ou a sociedade em termos de “preto e branco”
porque existem inúmeras cambiantes, escalas de cinza. E isso é, evidentemente,
verdadeiro; nenhuma pessoa de bom senso sustentará o contrário.
Encontramo-nos face a algo semelhante à dicotomia
maniqueísta “Bem” e “Mal”. Existem Deus e o Diabo? Existe alguém totalmente bom
ou totalmente mau? Isto é, irredutivelmente bom ou mau? Aqueles que argumentam
contra o Herói virtuoso e sem mácula de histórias e lendas tidas por infantis,
dizem que essa figura é um absurdo, totalmente irrealista; como é um absurdo o
Vilão maléfico. E, contudo, são capazes de aceitar a ideia de Deus e o Diabo como
suprassumos do Bem e do Mal, eternos adversários nas esferas celestiais ou nos
abismos infernais. Houve uma época (recente) em que se procurou “normalizar” tais
figuras, buscando uma via edificante em que qualquer um pode, afinal, ser um
herói ou um vilão, dependendo das circunstâncias.
Ora, se não há dúvida de que circunstâncias extremas podem
trazer à tona facetas de cada ser humano que habitualmente permanecem
“adormecidas”, em camadas profundas do caráter,
não é por isso que este deixa de existir; na verdade, é o caráter que distingue
os seres humanos a nível mais ou menos profundo. Resumindo: todos teremos em
nós algo de bom e algo de mau, facetas essas que podem manifestar-se dependendo
das circunstâncias (a compaixão é uma dessas facetas). Talvez seja assim; mas
seremos, por isso, todos normalmente iguais? Não! É aqui que, por sua vez, a
dicotomia igualdade/diversidade revela a sua existência e, simultaneamente,
relevância.
Agora, se a ideia de “escala de cinza” parece razoável, a
verdade é que não faz grande sentido sem referência(s) de base. Uma escala de
cinza só pode existir em relação a algo,
como os extremos “preto e branco”; ou
certos marcos, como nas gamas
musicais; “escalas”, como “sobe” e “desce”, etc. Como disse atrás, penso que a
polarização “esquerda/direita”, tendo em vista o seu caráter de referencial, ainda existe, sempre
existiu e existirá; e isso porque corresponde a algo na natureza humana – seja a
nível individual ou de coletividade. Ora, o teor individual de “esquerda” e
“direita” é a base para tudo o resto: particularmente a sua institucionalização
parlamentar, com matriz partidária. De facto, as instituições apenas traduzem, como necessidade social de
organização, características da natureza humana.
Contudo, penso que, no essencial, a natureza humana, no
geral e no individual, não é escolha
dos humanos.
Curiosamente, um setor da esquerda (autoritária), que
combate as “injustiças sociais”, pelo direito a isto ou aquilo, tende a
desvalorizar o indivíduo, colocando o foco nas “massas”, nas políticas, nas
instituições – aparentemente como se fossem abstrações, com existência
autónoma. Discordo frontalmente desta visão que, no pior, leva a
desresponsabilizar cada um pelo “destino” que traça para si e que, pior, às
vezes inflige aos outros. Isto é, não podemos dissociar determinadas políticas
dos indivíduos que as implementam – o que é (ou deveria ser) bastante claro na
realidade das ditaduras. Comunismo na URSS sem Lenine ou Estaline? Na China,
sem Mao? Nazismo sem Hitler ou fascismo sem Mussolini, Salazar e outros Pinochets?
Poderemos relevar as patifarias do general Videla nos anos de terror vividos
pelos argentinos? Paralelamente, a ideia de que a “causa” é maior que os
indivíduos é tanto mais perigosa quanto, muitas vezes, hipócrita e interesseira.
A pergunta é equivalente a estas: não eram os Inquisidores pessoas reais? Ou,
no campo da Ciência, o que seria a Física sem Galileu, Newton, Einstein ou
tantos outros, que a construíram com perseverança e, frequentemente,
sacrifício? O que seria a Filosofia sem Platão, Aristóteles, Descartes, Kant ou
Hegel? A Matemática sem Euclides, Pitágoras, Arquimedes?
Que a fase de esquerda/direita como trincheiras tenha sido ultrapassada, espero que sim (embora tenha
dúvidas). Porque, entre outras coisas, aquela prática implica o dogmatismo
acrítico e a obediência cega a uma “nação”
ideológica.
Luís Dias Ferreira
terça-feira, abril 25, 2017
Canto, logo existo
Pois é, as aparências iludem.
Eu existo, mas não canto.
O canto que vos trago aqui não é canto de cantar, por
exemplo uma canção com letra e música, embora seja fan de música.
Quero falar-vos de outros cantos, os cantos geográficos.
Hoje o canto geográfico de que dou conta tem uma localização
neste canto maior, à beira mar plantado.
Passeando pelas ruas da baixa lisboeta com uma movimentação sempre
crescente de turistas estrangeiros, resolvi afastar-me da Praça da Figueira e
entrar no Martim Moniz.
Ia em direção a uma antiga tasca com a ideia de comer uma
sopa e uma bifana quando, ao passar junto à Igreja da Nossa Senhora da Saúde,
espreito para uma rua que já vi centenas de vezes, mas nunca me atrevi a lá
entrar, rua do Capelão.
Era uma da tarde e disse para mim mesmo, porque não entras
aqui nesta rua para ver este canto de lisboa, tão perto de ti e tão longe, por
nunca te dares a oportunidade de o conhecer.
Entrei então na rua e fiquei logo agradado por sentir
literalmente nas paredes dessa rua estreita, histórias de outros cantos, mais
concretamente de nomes de fadistas, que confesso a minha ignorância, nunca
ouvi.
Mas agradou-me, agradou-me ver nas paredes os nomes e rostos
de quem contribuiu com a sua voz, para o engrandecimento de um dos maiores
contributos de Portugal para a história cultural e musical, o Fado.
Como não era o fado que me movia mas a curiosidade de ver um
canto diferente da cidade, e também a necessidade de aconchegar o estômago,
avancei mais uns metros e vejo um restaurante com esplanada, com um grelhador cá
fora disse para mim mesmo, hummm…aqui há gato.
Quer dizer, não havia gato mas
havia peixe. Olhei para os pratos que estavam na mesa e vi em vários deles,
pescadinha de rabo na boca com arroz de tomate e decidi logo que era aí que
iria almoçar.
Para minha tristeza, já não havia esse prato, pelo que optei
por uma dourada escalada servida com batatas cozidas e uma salada, qual dos 3 componentes
com melhor aspeto.
E assim me vi de repente, num bairro típico de lisboa (Mouraria)
a almoçar numa mesa para 6 pessoas, uma das quais sem me conhecer de lado
nenhum, fez questão de me integrar de imediato nas conversas atuais e passadas
das suas vidas lisboetas.
Adorei o almoço, o convívio e ter estado naquele canto com
história e com histórias.
Lisboa transforma-se dia-a-dia. Sempre amei Lisboa, embora
reconheça que muitas lisboas que conheci, hoje já não existem. As cidades são
assim e as grandes cidades são assim, sempre a transformar-se, a modernizar-se,
a readaptar-se constantemente a um mundo envolvente, que também ele está em
constante mutação.
Gostei de conhecer este canto. Conheci um canto que eu não sabia
mas que existe.
Canto, logo existo.
sexta-feira, março 31, 2017
Esquerda e Direita no Século XXI – Reflexões (V) (parte III/III)
Esquerda e direita no
séc. XXI? – Pergunta pouco útil, ou talvez pior do que inútil
A equidade e a eficiência
Após as
tentativas – pelos vistos não cabalmente sucedidas – de
dividir a política em dois extremos, parece que, desde há décadas, aquilo que
nas sociedades democráticas mais robustas (ou eminentemente democráticas e
civilizacionais, como têm sido aqui designadas) poderá melhor destrinçar a
esquerda e a direita cinge‑se ao confronto profícuo entre a equidade e a
eficiência. Isto porque a equidade e a eficiência são acarinhadas, (consciente
ou) inconscientemente, pelos agentes políticos, por consistirem na menina dos
olhos da esquerda e da direita, seguindo essa ordem. Não será redutor se se
adiantar que a equidade da esquerda tem dado primazia à distribuição da riqueza
e dos rendimentos gerados, enquanto a eficiência da direita tem posto o enfoque
na produção da riqueza e na geração de rendimentos – geração esta
marcada com o intuito de maximização dos rendimentos dos detentores dos meios
de produção, e não tanto do benefício coletivo dos rendimentos gerados.
Esta associação
direta – para o campo da política – da esquerda à equidade,
por um lado, e da direita à eficiência, por outro, terá uma semelhança com o
que John Rawls efetuara, em «Uma Teoria da Justiça», para o domínio da
justiça, porquanto ele construiu uma abordagem segundo a qual a justiça ideal
assenta no respeito máximo e equilibrado dos princípios da equidade e da
eficiência. Assim sendo, a semelhança brota pois, inevitavelmente, da
utilização versátil dos critérios da equidade e da eficiência. Com efeito, para
este documento e em termos políticos, o que importa realçar resume‑se ao papel
exercido, pela equidade e pela eficiência, na concretização da verdade
democrática, o âmago do bem comum.
Ou seja, se a equidade e a
eficiência são dois vetores direcionais, como que se dois carris se tratasse,
contribuindo para que o comboio não descarrile e prossiga sem percalços o seu
percurso até à chegada programada do supremo bem comum, não há motivo racional
para que a política seja diferente da justiça (incluindo a de John Rawls). Nas
sociedades eminentemente democráticas e civilizacionais, a ponderação adequada
daqueles dois vetores deve ser enveredada para o maior número possível de áreas
para além da política: da justiça à concertação social, da segurança social ao
combate à pobreza, da saúde à educação, entre tantas outras áreas. Se o comboio
da justiça, da concertação social, da segurança social, do combate à pobreza,
da saúde e da educação atingem incontestavelmente melhor o bem comum quando
orientados pela equidade e pela eficiência, é inequívoco que o mesmo sucede com
a política, o epicentro da vida em comunidade.
A equidade e a eficiência são os
ingredientes naturais das democracias consolidadas, ou seja, das sociedades
eminentemente democráticas e civilizacionais. Leia‑se o seguinte excerto do
documento «Humildade para entender o futuro da democracia», de 23 de
dezembro de 2013, publicado em 28 de dezembro: «Fazendo uma viagem rápida à
história mundial, podemos concluir que, apesar de a crítica constituir uma das
características humanas a valorizar – porque vai evoluindo, tornando‑se
útil para a sociedade –, não releva devidamente para a qualidade
democrática. Somente com apreciações proporcionadas, apoiadas na equidade e na
eficiência, é possível alcançar tal qualidade.»
Como os dois parágrafos anteriores
objetivamente espelham, a importância da equidade e da eficiência não advém de
meros motivos teóricos. Equidade e eficiência são fundamentais porque
certamente incorporam o maior valor de pensamento acrescentado: o espírito
crítico. Uma sociedade é tanto mais rica quanto melhor souber substituir a
cáustica crítica vã pelo humilde espírito crítico. Quanto mais este for
interiorizado pelos eleitores, mais se esbatem as diferenças entre a esquerda e
a direita.
A esquerda é mais utópica. Tem
ótimas ideias para atingir o bem comum, ainda que normalmente sem rigor e
responsabilidade, dado descurar a análise técnica e financeira, e nem se importar
de não certificar‑se que as ideias são exequíveis e não acabam até por
prejudicar o benfazejo interesse comum. Pelo contrário, a direita é mais
oportunista. Adota ótimas estratégias para atingir o bem pessoal ou
corporativo, mas regularmente recorre à opacidade de argumentos e aos subsídios
que ironiza e critica, sem se incomodar que muito do empreendedorismo
falsamente transpirado está pejado de negócios de lesa‑pátria e negociatas de
lesa‑crime que ferem de morte o erário público e o gentio indefeso.
Nos Estados modernos, vulgo Estados
sociais suportados por economias mistas, não há lugar à esquerda e à direita
nos moldes enraizados e estigmatizados. Neles é imprescindível, cada vez mais,
espírito crítico para articular a realidade – crescentemente dinâmica
e complexa – com a verdade. A pronta colocação dos óculos da esquerda
ou da direita materializar‑se‑á na entrega do ouro ao
bandido – entenda‑se: bandido da direita ou da esquerda. Se ambos
podem estar certos, ou eventualmente errados, então algo de ilógico prevalece.
Daí que, ao fitar unicamente o seu
ângulo, e não atender à diversidade de ângulos alternativos, a defesa afincada
da esquerda ou da direita redunda na fragilidade da sua posição e no
fortalecimento da posição do adversário. Rectius,
ela – esquerda ou direita – expõe‑se, com entusiamo
exclusivo, à defesa dos seus argumentos ideológicos, descurando a proteção dos
mesmos ante as investidas dos oponentes que defendem acerrimamente argumentos
ideológicos contrários. Pessimamente vai a política quando - retome‑se
o penúltimo parágrafo – a falta de rigor e de responsabilidade é
extensível outrossim à direita, e os negócios e as negociatas assentes na má‑fé
contaminam também a esquerda.
Nas sociedades
democráticas – na efetiva aceção da expressão, onde a liberdade é um
substantivo ativo – do séc. XXI (e do séc. XX), quem se
reconhece de imediato como apologista da esquerda, porventura será por
defender, incondicionalmente, a diminuição das desigualdades e o aumento da
justiça social, e por conseguinte quase idolatra de forma inquestionável o
papel do Estado enquanto agente central de tudo e supremo de todos. Ao invés,
quem se identifica perentoriamente como filiado na direita, talvez seja por
confiar, sem hesitação, no primado da iniciativa privada e na utilidade da
otimização dos recursos, e portanto com enorme facilidade ultraja o Estado
quando este, ao interferir com a liberdade e o interesse individuais, interseta
o livre funcionamento dos mercados. É deste modo que tem geralmente funcionado a
perspetiva dicotómica no nível mais primário e tosco da política, ou melhor, da
politiquice.
Bem diferentes, a esquerda e a
direita resilientes e modernas – que, como se compreende, somente as
sociedades eminentemente democráticas e civilizacionais conhecem –, devem
não só sopesar os critérios acima referidos da
equidade – materializada na sustentabilidade do bem comum, no reforço
da responsabilidade social do Estado e na redução das desigualdades entre os
cidadãos – e da eficiência – consubstanciada no respeito
pelo bem individual, na promoção dos direitos e das liberdades dos cidadãos e
na defesa da iniciativa privada –, como também mensurá‑los adequadamente e
transmitir os custos e os benefícios (não apenas económicos) decorrentes das
suas opções. Isso corresponderia, de facto, a defender conscientemente
políticas de esquerda ou de direita.
A verdade democrática
A esquerda e a direita a que se tem
assistido (pelo menos em Portugal) são frequentemente demagógicas e
incoerentes; falta‑lhes verdade (democrática, e não dogmática). Por exemplo,
situando‑se o cavalo de batalha, sobretudo no reduto da esquerda, na redução
das desigualdades de rendimentos e no aumento das oportunidades, não se percebe
porque ela não reconhece a importância de taxar as heranças, tanto mais que as
desigualdades justificadas pelo esforço e pelo mérito individuais são muito
menos iníquas (desde logo fiscalmente) do que as desigualdades herdadas do berço e nascidas do mérito
alheio. A primeira forma de desigualdades de rendimentos é a Estrada da Beira,
enquanto a segunda é a beira da estrada. Parecem semelhantes, mas são
completamente diferentes, às vezes até em liberdade e honra.
Parece que a dita esquerda, que por
excelência encabeça as fileiras quando cisma que alguém irá desfraldar a bandeira
do humanismo (mas sustentado com equidade), é lamentavelmente pouco ativa e
bastante seletiva quando esse humanismo não se enleia no oportunismo
individual das massas. Esta última expressão parece contraditória, mas foi
intencionalmente empregue, para exprimir que para a esquerda há vários níveis
de humanismo. Neste aspeto particular faz lembrar a atuação recorrente de
vários sindicatos, que tratam com diferente desvelo os trabalhadores que lhes
estão afiliados.
Para além do mais, e sendo óbvio
que o peso excessivo (e insustentável) da dívida pública nacional sacrifica
acrescidamente os mais desfavorecidos e as pessoas das classes sociais mais
baixas (e, como os estudos demonstram, dos seus descendentes vindouros), não se compreende o porquê de essa dita esquerda – ou centro‑esquerda,
ou centro‑centro‑esquerda, ou centro‑esquerda‑esquerda – rejeitar
as medidas fraturantes que passam por tributar o património e a riqueza. Não se
vislumbra réstia de justificação lógica para que ela ainda não tenha
interiorizado que a tributação será excecional, levada a cabo unicamente para
atingir os dignos objetivos da diminuição drástica da aterradora dívida pública
e da correspondente urgente libertação de recursos, e assim possibilitar, sem
egoísmos nem egocentrismos, o fomento do crescimento e do emprego, o que
beneficia as gerações atuais e – não menos importante – futuras.
Logo, se existisse verdade
democrática e fosse óbvia a separação entre a esquerda e a direita, os partidos
políticos oponentes não convergiriam, mesmo que discreta e sub‑repticiamente,
no repúdio das duas medidas evocadas nos parágrafos precedentes – taxar
(regularmente) a transmissão de heranças e (excecionalmente) o património e a
riqueza acumuladas –, essenciais para a esperança e o amanhã nacionais.
Estas medidas estão melhor fundamentadas no documento «Zerar pararessuscitar e criar oportunidades sustentáveis», de 13 de dezembro de 2013,
publicado em 19 de janeiro do ano seguinte.
Ademais, no caso português, se
surgisse uma ínfima preocupação com a verdade democrática, então há muito que a
lei eleitoral teria sido alterada, de maneira a acomodar a multiplicidade de
pensamentos políticos. A maioria do eleitorado não se satisfaz por saber se
existe esquerda ou direita, e ainda menos pretende ficar refém de qualquer
partido que se julga dono de uma parte (ou da totalidade) da esquerda ou da
direita. Deseja tão‑só optar, e ver o resultado das suas opções, materializado
em número de deputados, preferencialmente fieis às promessas proferidas pelos
partidos nas campanhas eleitorais.
Em Portugal, os 230 deputados
eleitos para a Assembleia da República estão atualmente divididos em seis cores
partidárias – PSD, PS, BE, CDU, CDS e PAN –, façanha apenas
superada logo nas primeiras eleições legislativas do pós‑25 de Abril (contendo
na altura a Assembleia Constituinte sete forças políticas). Na Holanda, os 150
deputados da Câmara dos Representantes (elegível para formar Governo) refletem,
após as recentes eleições, 13 forças políticas – possível
porque, ao contrário do que sucede no território das quinas, nos Países Baixos
há somente um círculo eleitoral para efeitos do apuramento da representação
proporcional: o círculo nacional.
Como é demonstrado no texto «Abstenção
lusitana – Quo vadis?», publicado em 19 e 20 de outubro de 2015,
se em Portugal se transformasse a miríade de 22 círculos eleitorais num único,
passaria a haver 15 partidos com assento parlamentar, o que conferiria
vitalidade e dignidade a todas as vozes, independentemente do nome de batismo
que os seus dirigentes (im)pusessem, e das avaliações e formulações subjetivas
quanto ao índice democrático dessas vozes. Como nesse texto de outubro de 2015
se esclarece, não é preciso entrar e cair no sofisma da dicotomia entre
esquerda e direita para ser totalmente possível conjugar governabilidade com
diversidade política. É urgente, sim, sair de tamanho sofisma. Em democracia, a
sonolência prolongada do eleitorado (que, muitas vezes com maior legitimidade
sentimental ou emocional do que lógica ou racional, está preso, quer à esquerda
quer à direita) conduz, a prazo, tanto ao aumento da
abstenção – comprovado pelos dados –, como ao esvaziamento da
democracia – o que conduzirá por sua vez à sua consequente
infertilidade.
Realce‑se que a mera existência de
um pluralismo parlamentar – por oposição ao bipolarismo forçado – confere
profundidade democrática, mas não é condição suficiente para assegurar verdade
democrática – a qual resulta, como oportunamente explanado, da
combinação dos critérios da equidade e da eficiência. Importa até reconhecer
que, não tendo os partidos qualquer preocupação com uma verdade de jaez tão
honrado como a democrática, é inevitável que, com o aumento do número de
partidos com representação parlamentar, cresça a política‑espetáculo – i.e.,
a politiquice –, e não a política‑utilidade.
Assim, quando a política é honesta
e responsavelmente exercida, podem existir tantos «partidos da verdade» – referência
explícita ao antepenúltimo parágrafo da primeira secção – quantas as
forças políticas que se apresentem (ao eleitorado) em função das combinações
resultantes dos diferentes pesos atribuídos à equidade e à eficiência. Face ao
exposto, estando as propostas políticas solidamente baseadas na verdade
democrática, nenhum partido e nenhum eleitor é mais democrático do que outro - e mesmo não havendo verdade democrática.
Deveras mais útil do que defender a
esquerda ou a direita, será pugnar pela verdade, senão a ilustre verdade
democrática, ao menos – retome‑se a parte final do quinto parágrafo
anterior – a cívica verdade eleitoral, antecâmara da primeira. «Dos
políticos exigem‑se ações equilibradas, que sejam o mais possível tecnicamente
corretas e socialmente equitativas. O pior de tudo é, antes das eleições,
anunciar‑se um programa hipnotizante e bem embrulhado e, após o poder estar
conquistado, tomarem‑se decisões opostas às propagandeadas – indigna
conquista do poder.» – vide «Liverdade», post publicado em 3 de maio de 2014. Se ao menos os cidadãos exigissem a verdade eleitoral, há muito que a esquerda e a direita
poderiam ser minimamente verdadeiras (na perspetiva democrática).
Nas democracias do séc. XXI, a
pergunta lacónica «Esquerda e direita?» fará sentido – ou antes:
justificar‑se‑á – para quem (ainda) estiver aferrado às ideologias
dogmáticas e à vontade cega que elas carregam. Quando a tónica é posta, não nas
ideologias e nas demagogias, mas no pensamento e na verdade criadora que dele
decorre, desaparece a maior parte do sentido que a pergunta aparenta conter.
Quem pensar (na) verdade antes de tentar responder àquela pergunta, verificará
que, nas sociedades do séc. XXI, a esquerda e a direita são faces da mesma
moeda, una e indivisível, cujo valor será tanto maior quanto mais elas se conhecerem
e respeitarem, em prol da virtuosa nação e da sua nobre e pobre gente.
Esquerda e Direita no Século XXI – Reflexões (V) (parte II/III)
Conceitos ora rígidos, ora flexíveis
Apesar de a pergunta inscrita na
epígrafe do presente documento confinar‑se ao séc. XXI – «Esquerda
e direita no séc. XXI?» –, recue‑se cinco décadas, até 1967, à guisa
de introdução, e pouse‑se a análise em dois espaços: Portugal e União
Soviética. Para simplificar, foque‑se a atenção na liberdade de expressão, um
dos basilares direitos cívicos. Aos olhos de cada um dos regimes desses dois
Estados soberanos, como foi qualificado um cidadão que pugnou por tal
liberdade? E o que lhe aconteceu por pretender pensar livremente?
Tanto ao cidadão português como ao
soviético esteve reservada idêntica sorte: a prisão e, consoante a intensidade
do anseio de liberdade, a tortura e a morte. A única diferença residiu nos
rótulos colocados a esses dois fraternos utópicos da liberdade, apenas porque
os regimes em apreço situavam‑se em lados diametralmente
opostos – opostos em termos ideológicos, embora coincidentes quanto à
violação da liberdade de expressão (e demais géneros de liberdade). Para o
modelo político de Salazar, um indivíduo que sonhasse sequer com a liberdade
era intitulado de comunista, ao passo que, para o modelo de Brejnev, era
apodado de fascista.
Mantenha‑se o relógio parado em
1967. Para o regime de direita vigente na lusitana Metrópole, os combatentes
africanos que lutavam honradamente contra as tropas portuguesas na guerra
colonial e reivindicavam o (tardio) direito à autodeterminação eram
considerados como sendo a encarnação do Diabo, vestido de vermelho e adornado
com a foice e o martelo ao peito. Nem era necessário ser combatente e amigo do
seu destino. Os seres mais pacíficos, que ao mínimo sinal de ordem e respeito
imposto pelo regime salazarista ousassem pestanejar, eram diabolizados, por
muito distante que fosse o ponto do Ultramar onde se encontravam.
Passadas duas décadas, em 1987, já
com a independência das colónias assegurada, e estando ao rubro as guerras
civis angolana e moçambicana, o binómio esquerda‑direita nos dois países
lusófonos espelhava a oposição inflamada de ideias intrínsecas ao período da
Guerra Fria. As ideologias que se digladiavam nessas guerras civis variavam
consoante as forças beligerantes envolvidas fossem apoiadas por países do bloco
soviético ou do norte‑americano.
Avançando mais duas décadas, chega‑se
ao séc. XXI. Em Angola, provavelmente os mesmos «combatentes africanos que
lutavam honradamente contra as tropas portuguesas na guerra
colonial» – penúltimo parágrafo –, outrora acusados de serem de
esquerda (pelo então dominante modelo político de direita), incriminavam os
seus patrícios de serem de direita, pelo simples motivo de estes se terem atrevido
a exigir o elementar mas augusto direito de liberdade de expressão. Ou seja, os
conceitos de esquerda e de direita eram rígidos; e paradoxalmente relativos,
pois dependiam não dos valores e das ideias que cada conceito incorporava, mas
tão‑somente da relação de forças entre o poder instituído e as vozes
discordantes. Era assim em 2007, e assim continua a ser em 2017, em Angola e não só.
Portanto, parece que o significado
dos vocábulos «esquerda» e «direita» será – ainda que inútil e
deturpadamente – inequívoco em duas situações. São elas: ou em
regimes totalitários ou ditatoriais, de esquerda ou de direita; ou em regimes
híbridos que, sendo democráticos pelo facto de estarem legitimados pelo
plebiscito popular, tardam em conseguir compreender o significado da diferença
de opiniões e da liberdade de pensamento.
No séc. XXI e nas sociedades
eminentemente democráticas e civilizacionais, onde o pluralismo político não se
restringe ao populista "centrão" indefinido – por outras palavras: onde
não vinga o bipartidarismo exclusivo –, os conceitos de esquerda e de
direita são flexíveis, e por isso difíceis de identificar a olho nu, pelo que
revestem pouca (ou nenhuma) utilidade. O centro é o mesmo, pelo menos
semanticamente, que o centro‑esquerda e o centro‑direita, que por sua vez não
se distinguem nem do centro‑centro‑esquerda e do centro‑centro‑direita, e nem
do centro‑esquerda‑esquerda e do centro‑direita‑direita. Nas outras sociedades
(explicitadas no parágrafo anterior) – i.e., nas que não são
democráticas, ou que sobrevivem com a cegueira patológica de a sua democracia
não reconhecer o âmbito dos direitos humanos –, tais conceitos são rígidos
e totalmente erróneos, pelo que a questão «Esquerda e direita no
séc. XXI?» será pior do que inútil; será prejudicial, por dar azo à
confusão e à contrainformação.
O anacronismo dos conceitos
Se até tempos idos os termos
«esquerda» e «direita» poderiam ser claros – porque referiam‑se a
realidades concretas e delimitadas –, hoje são bastante dúbios, dada a
panóplia de ideias que cada um deles introduz, ao ponto de, na essência, haver
raríssimas pessoas que sejam genuinamente de esquerda ou de direita, à luz da
ditosa verdade democrática que hoje e no futuro aqueles termos devem carregar.
Soa a provocação esta afirmação. Todavia, provocatória é a associação que costuma fazer-se – em rigor a associação tem sido incomparavelmente mais
usada e abusada pela esquerda do que pela direita –, de dividir a multidão
de um território em dois grupos, o dos pobres (e remediados) e o dos ricos (e
privilegiados), e afetar o primeiro à esquerda e o segundo à direita.
Sempre houve quem forçasse o
raciocínio de ligar a horda aos partidos da esquerda, e o escol aos da direita.
Mas nunca foi assim que a esquerda e a direita funcionaram. Mais: há quase dois
séculos e meio, altura em que, à luz dos registos históricos, nasceram
oficialmente os antagónicos conceitos de esquerda e de
direita – aquando da Revolução Francesa –, a esquerda era a
fação dos republicanos, e a direita a dos monárquicos. Já não é assim.
Em seguida, a divisão passou pelo
posicionamento dos cidadãos quanto ao reconhecimento da religião e do papel de
Deus: os laicos eram os esquerdistas – para Karl Marx, a religião era
o ópio do povo –, e os religiosos (e aderentes ao catolicismo) eram os direitistas.
Já é quase nada assim. Mais tarde, a separação passou para as áreas das classes
sociais e das formas de propriedade dos meios de produção: os trabalhadores (ou
empregados), adeptos das nacionalizações das empresas e das coletivizações dos
meios de produção, eram colocados no lado da esquerda; e os patrões (ou
empregadores), partidários da iniciativa privada e da privatização dos meios de
produção, eram encaminhados para o lado da direita. Já é (muito) pouco assim.
Aliás, se continuasse assim, e atenta
a desproporção – inevitável, cumpre sublinhar – entre o
número de pobres e o de ricos, jamais a direita chegaria a ver a luz do dia. Se
continuasse assim, a esquerda há muito estaria sepultada em regimes
monárquicos. Se continuasse assim, em regimes (sejam republicanos ou
monárquicos) cuja prática católica não está disseminada pela maioria das
pessoas, as sementes da direita seriam irremediavelmente estéreis. Se
continuasse assim, inclusive em regimes monárquicos ou com forte implantação
católica, a esquerda dizimaria completamente a direita, atenta a dimensão
desproporcional entre os empregados e os empregadores. Ao invés, se a divisão
entre a esquerda e a direita fosse traçada sob o critério da intervenção direta
do Estado (enquanto agente produtivo), a esquerda teria de
renascer - dado o peso (quase) negligente do setor empresarial estatal, ante o do setor privado. Enfim: há que mudar de bitola, ou melhor, substituir os conceitos por
algo que incorpore lógica.
Dado que o espaço dos conceitos tem
vindo a ser profundamente modificado, torna‑se difícil defini‑los. Face ao que
a evolução da realidade tem oferecido, constata‑se que eles não passam
geralmente de placebos para ex(er)citar a alma dos eleitoreiros, por serem o
vapor que move a politiquice. Importa apurar o que, na essência, divide os
cidadãos no campo político, no pressuposto de que estes sabem conviver em
democracia – sublinhe‑se que é fulcral ter sempre presente a condição
de existência de regimes eminentemente democráticos e civilizacionais, o alfa e
o ómega para as abordagens reformuladas (de esquerda e de direita) revestirem
algum sentido, o sentido sustentável.
Quando o bálsamo da praxis
democrática se impõe, a esquerda e a direita entremeiam‑se e tornam‑se quase
impercetíveis – a segunda frase do último parágrafo da secção
anterior, que no fundo acaba por definir o "centrão", traduz um exemplo caricato do que pode ser a esquerda (ou a direita) num quadro de bipolarismo monopolista ou oligopolista.
Quando o bálsamo é natural – o da verdade democrática –, esquerda
e direita são os polos da mesma corrente energética. Elas reconhecem, mas não
assumem, que são o hardware e o software da harmonia democrática, sem a qual a máquina social entra
em disfunção. São como dois amantes inseparáveis, e de vida flexível,
que se encontram na calada da noite. A vida rígida, igualmente assente
em conceitos rígidos, é para diferentes tipos de sociedades – a anos‑luz
da verdade democrática –, em desuso ou em vias de extinção no
séc. XXI.
Esquerda e Direita no Século XXI – Reflexões (V) (parte I/III)
Esquerda e direita no
séc. XXI? – Pergunta pouco útil, ou talvez pior do que
inútil (#)
Conclusões e outras considerações
Inicie‑se o documento pelo
final – as conclusões (acrescidas de outras considerações) –,
com o intuito de tentar diminuir as reações negativas que o seu (sub)título
poderá causar. Esta secção, servida como acepipe mas preparada para acabar em
sobremesa, seria suficiente para abordar o assunto em presença, até porque
representa cerca de 1/4 do total do texto. Porém, há momentos em que, justificadamente
e em diversas circunstâncias, impõe‑se substrato adicional. A partir da segunda
secção – posts referentes
às partes II/III e III/III – entrar‑se‑á no núcleo do substrato.
Nos regimes totalitários ou
ditatoriais, bem como nos regimes híbridos, esquerda e direita são palavras
rígidas, atendendo a que o epicentro da política é o poder da autoridade e da
força. Ao invés, nos regimes eminentemente democráticos e civilizacionais,
esquerda e direita são palavras flexíveis, visto que o epicentro da política é
o poder da verdade e da razão. Encontrando‑se nos antípodas esses dois grupos
de regimes, é aceitável admitir que os dois tipos de poder que lhes subjazem
estejam igualmente afastados à mesma distância.
Nos regimes totalitários ou
ditatoriais, e nos regimes híbridos, o poder da autoridade e da força é
autoexplicativo. Isso não sucede com o poder da verdade e da razão, aplicável
aos regimes eminentemente democráticos e civilizacionais. De qualquer modo, a
última secção – «A verdade democrática» – aflorará esse
segundo tipo de poder. Ainda assim, e porque subsistirão dúvidas acerca do
alcance das expressões – na prática sinónimas – «poder da
verdade e da razão» e «verdade democrática», pode trazer‑se à colação o
documento septipartido «Da semente da verdade ao fruto da liverdade»,
publicado entre 25 de abril e 1 de maio de 2016. A política sem
verdade – repita‑se: verdade democrática (e não verdade dogmática) – cria
metástases, e transforma‑se gradualmente em politiquice.
Em democracia, o diálogo entre a
esquerda e a direita sempre se manteve – se com ou sem utilidade, não
importa por ora. E não é preciso dispor de poderes premonitórios para afirmar
que eternamente se manterá, no séc. XXI e em qualquer outro século. É
certo que a esquerda foi e será mais progressista, e a direita foi e será mais
conservadora, o que aliás reveste um grande contributo (de uma e de outra) para
o amadurecimento e o desenvolvimento das sociedades. Porém, impõe‑se a dúvida
sobre a função prática da esquerda e da direita nos dias de hoje. Os sonhos
coletivos são a especialidade da esquerda; os cifrões individuais são a
predileção da direita.
O problema é que assiste‑se regularmente
a um diálogo de surdos, porquanto estão presentes dois vícios: a esquerda
não quer ou não sabe fazer contas que mensurem corretamente o impacto
financeiro das suas ideias tendentes à promoção do bem coletivo; e a direita
não tem ideias para promover o bem coletivo, mas tem permanente vontade e
capacidade para acertar nas contas em seu proveito, e para ocultar que as
soluções por si preconizadas são bastante melhores para o indivíduo do que para
o coletivo. Tais vícios extravasam a atuação dos partidos políticos;
abrangem a hipocrisia crónica vincada em diversas associações sindicais e
patronais.
A esquerda tem feito gáudio em
autoclassificar‑se o baluarte dos pobres. Não constituirá exagero afirmar que,
ao início, a esquerda tinha um pé nos pobres e o outro nos republicanos. Depois
ficou com um pé nos republicanos e o outro nos agnósticos. Seguidamente manteve
um pé nos agnósticos e o outro nos trabalhadores. E por fim almejou fechar o
círculo, instalando um pé nos trabalhadores e o outro novamente nos pobres.
A anterior imagem da passagem de pé
em pé serve unicamente para ilustrar a evolução do conceito
«esquerda» – consoante as circunstâncias e os interesses em cada
momento –, e portanto não deve ser entendida como uma tentativa de criar
segmentos forçados e artificiais da realidade, como se os conjuntos dos pobres,
dos republicanos, dos agnósticos e dos trabalhadores fossem entre si disjuntos.
Análoga imagem pode ser esboçada para a evolução do conceito «direita»: terá
passado dos ricos para os monárquicos, dos monárquicos para os crentes, dos
crentes para os patrões, e dos patrões para os ricos.
A tradicional dicotomia esquerda‑direita
aplicar‑se‑á num mundo a duas dimensões e pintado exclusivamente com duas
cores, como tem sucedido em inúmeras ocasiões ao longo do tempo e em várias
geografias. Nesse mundo restrito, a esquerda e a direita alimentam‑se de
incoerência – incoerência de argumentos frequentemente falaciosos,
como os três parágrafos precedentes indiciam. No jogo político de diferenças de
pontos de vista, onde os cidadãos satisfazem‑se plenamente com a alternativa
dual – cingida ao claro e ao escuro, ou ao preto e ao
branco – que lhes é oferecida e permitida, o papel de árbitro é autoritariamente
assumido pela demagogia.
Assim, resta concluir que a
tradicional dicotomia esquerda‑direita perde o sentido num mundo
pluridimensional, como sucede em tantos países, onde os parlamentos nacionais
são representados por uma paleta de cores para muitos gostos, consoante as
opções manifestadas pelo eleitorado e respeitadas em conformidade pela lei
eleitoral. Nesses países, o jogo político de diferenças de pontos de vista é
regulado sobriamente não pela demagogia partidária, mas antes pela verdade
democrática.
Quando uma sociedade comunga
sãmente com a verdade democrática, a dita esquerda consegue ser coerente
consigo própria, e o mesmo sucede com a direita, pois a coerência é inerente à verdade democrática. Mais: as duas estão fadadas
uma para a outra, em prol do bem coletivo (ou comum) citado no quinto
parágrafo, pelo que a esquerda não pode advogar soluções baseadas na equidade
sem ter em conta o critério básico da eficiência, nem a direita pode defender
soluções orientadas pela eficiência sem acautelar o critério fundamental da
equidade. Trata‑se de um problema de otimização, em que a esquerda procura
maximizar a equidade, condicionada à restrição da eficiência, e a direita tenta
maximizar a eficiência, sujeita à restrição da equidade.
Finalizando: em sociedades
exigentes do séc. XXI – associadas a regimes eminentemente
democráticos e civilizacionais –, os partidos da esquerda (dando primazia
à equidade) ou da direita (concedendo prioridade à eficiência) que se prezem
têm impreterivelmente de transportar uma característica comum: serem, acima de
tudo, partidos da verdade. Os partidos que usam demagogicamente as meias
verdades ou as mentiras não exercem política, mas sim politiquice. E os
indivíduos seguidores desses partidos não são bem eleitores; são mais
eleitoreiros – o mencionado documento «Da semente da verdade ao
fruto da liverdade» explicita estas ideias incomuns.
Logo, parece que a insistência em
continuar a resumir o debate político ao confronto anacrónico (e por vezes
decadente) entre esquerda e direita – quando vazias de verdade – não
vai além do mero objetivo de servir de passatempo, para distração da população.
Objetivo fútil, dado que um número crescente de eleitores já tem suficiente
maturidade democrática para repudiar o entretenimento político previsível e
inútil, e para reclamar a salientada verdade democrática. Esclareça‑se esta
questão, para evitar equívocos interpretativos.
Na arena política – ou politiqueira, para ser mais
rigoroso – em que os cidadãos aceitam ou rejeitam as opções tomadas não
pela sua pertinência e viabilidade, mas tão‑só em função dos partidos que as
tomam, é normal que a verdade democrática viva órfã e não singre. Não é
invulgar que, no terreno dominado pelo bipartidarismo, uma determinada medida
seja ajuizada de positiva ou de negativa pelo mesmo partido consoante,
respetivamente, este esteja no poder ou na oposição. Daí a previsibilidade e a
inutilidade do bipartidarismo habitual (ou do "centrão" hegemónico), por oposição
à verdade democrática reclamada por um número crescente de
eleitores – portanto, não eleitoreiros.
(#) Cumpre agradecer o valioso contributo fornecido, sob a forma de espírito crítico, pela Helena Matilde Jacques Feliciano. O acolhimento das suas principais dúvidas e a resposta a algumas das suas objeções traduziram-se na melhoria do texto, tendo a redação final ficado – se bem que (44%) mais extensa – incomparavelmente bastante mais clara e fundamentada. No entanto, do acolhimento e da resposta atrás mencionados, não pode concluir-se que a Helena se identifique com o teor do documento.
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