Fórum de Reflexão Económica e Social

«Se não interviermos e desistirmos, falhamos»

domingo, maio 20, 2018

«MF» e «mf» – A grandeza de Manuela de Freitas e o silêncio do Museu do Fado




(Imagem obtida através de uma fotografia
tirada em 19/04/2018, extraída da página
de Facebook do Museu do Fado.)



I. «Conversas» no Museu do Fado
Admito que em diversos pontos do Mundo haja museus que instituem, consoante a língua de cada país, as suas «Conversas». Já alguns anos que, pelo menos na língua de Camões, existem museus que têm fomentado Conversas de Museu ou Conversas no Museu, como por exemplo em Portugal e no Brasil. Desta feita foi o nosso Museu do Fado que se associou ao slogan, e decidiu instituir um ciclo de Conversas de Museu.
Semanal e ininterruptamente, de 8 de março a 17 de maio (de 2018), o auditório do Museu teve a honra de receber onze personalidades ligadas ao universo do fado. A iniciativa abarcou diferentes áreas: oito fadistas de renome – Aldina Duarte, Camané, Carlos do Carmo, Marco Rodrigues, Maria Ana Bobone, Paulo Bragança, Paulo de Carvalho e Ricardo Ribeiro –, um insigne guitarrista – José Manuel Neto –, um virtuoso guitarreiro – Óscar Cardoso – e uma maravilhosa letrista – Manuela de Freitas.
Enalteço deveras a iniciativa, porém entendo que poderia ter havido mais espaço para os outros grupos que não o da voz. Reconheço que, em onze «Conversas», dedicar duas aos guitarreiros seria exagerado. Mas creio que foi escasso reservar somente uma sessão aos músicos, e também apenas uma aos poetas ou letristas. Parece‑me que limitar a cinco ou seis o número de encontros com fadistas seria ótimo. Saliente‑se que a observação que acabo de tecer reveste uma natureza exclusivamente construtiva. Em nada pretende beliscar o Museu nem os fadistas convidados, até porque a atividade das Conversas de Museu teve o mérito de permitir que os leigos como eu pudessem ter uma nesga de acesso aos meandros da riqueza cultural que o fado concede a quem o ouve e sente.
Da meia dúzia de sessões a que tive oportunidade de assistir – gostei de todas, realce‑se –, cumpre reconhecer que apreciei sobremaneira as (três) aparentemente menos convencionais, as que extravasam os cânones. Refiro‑me concretamente aos encontros alusivos ao talento da arte da guitarra portuguesa – da construção do instrumento à sua execução musical – e à arte do talento da elaboração de letras de fado. Fiquei abismado com a «Conversa» de 19 de abril p.p., como que a letrista Manuela de Freitas – letrista, e não poetisa, como a própria quis vincadamente sublinhar – fosse uma cabeça‑de‑cartaz do espetáculo que esteve em cena nos fins de tarde das quintas‑feiras. Sem desprimor para as demais distintas figuras do fado, repita-se. Todas as sessões ficarão eternamente gravadas no meu coração.
II. A aula de Manuela de Freitas
II.1. A aula dentro dos Ofícios Inquietos
Logo ao início, a Senhora Diretora do Museu lançou o mote, lendo um excerto de Ofícios Inquietos, texto de Manuela de Freitas reproduzido nas páginas 133 e seguintes do livro (que resultou da coprodução entre o Museu do Fado e o Museu Nacional de Teatro) O Fado e o Teatro, editado em 2013. Ao certo, não me recordo do excerto selecionado. Apenas recordo que incluiu uma referência comparativa entre os fadistas e os atores. Creio que uma das frases lidas foi a seguinte:
          Como o actor se torna autor do texto que representa, o fadista torna‑se autor
          do fado que canta. Não é por acaso que se diz: “aquele fado do Carlos do
          Carmo” não sendo dele nem a letra nem a música.
Se o excerto enfatizou outra parte, será irrelevante, pois o texto original, apesar de não ser muito extenso, é um autêntico resumo, alargado e condensado, de um grande compêndio sobre dois mundos bastante semelhantes: o fado e o teatro. Qualquer parágrafo, qualquer frase ou qualquer oração do texto seriam suficientes para desenvolver uma sessão apaixonante. Como é óbvio, seria suficiente porque o discurso da Senhora Manuela de Freitas foi enfático e transparente; caso contrário, teria sido uma conversa de plástico, como sucede em barda com tantos comunicadores.
Para Manuela de Freitas, a letra do fado está para o texto do teatro, assim como a música cantada pelo fadista está para a encenação representada pelo ator. Para que haja bom fado e bom teatro, todo o conjunto «[...] tem de estar em harmonia e fazer sentido, um sentido maior do que o intérprete e maior do que o público.» Um equilíbrio único. Tanto o fadista como o ator «[...] fazem do corpo o emissário da alma [...]». «Não imitam nada nem ninguém, são aqueles e não outros [...]». «Quando não é assim, só há mau teatro e mau fado. E, sobretudo agora que o fado está mais prestigiado, "anda o fado noutras bocas que não são bocas pró fado". É que, como o teatro, o fado parece fácil. E é‑o – quando é mau. E quando é mau é insuportável. Não é coisa nenhuma. Porque nem um nem outro suportam a vulgaridade [...]». «Nem suportam o despojamento com que por vezes a falta de talento mascara o vazio [...]». Impossível eu estar mais de acordo.
Um espelho sobre este ser ou não ser (do bom ou mau fadista ou ator) foi colocado pela própria Manuela de Freitas no último parágrafo do texto em apreço, pelo que vale a pena transcrevê‑lo:
          Sabendo que há uma oposição insanável entre exprimir‑se e exibir‑se, o
          fadista, como o actor, tem de escolher: ou ser mais um malabarista habilidoso
          para entretenimento e negócio rentável da pequena vida das pequenas gentes;
          ou (tantas vezes inútil, frustrante, incompreensível e incompreendida-
          mente) condenar‑se à paixão, ao desassossego e à insatisfação desse outro
          negócio – o da alma – que, diz‑nos Miguel Rovisco, «embora leve à
          falência, é negócio para sempre». [Esta última citação de oito palavras
          constitui uma excelente forma de acender a memória do talento prodigioso
          e da energia genial de Miguel Rovisco (1959‑1987).]
Para Manuela de Freitas, o fado e o teatro são manifestações sentimentais nascidas para serem representadas na presença direta das pessoas. Existe uma comunhão, i.e., uma osmose de sentimentos entre o fadista e os seus ouvintes, num caso, e entre o ator e os seus espectadores, no outro. Porém, há uma grande diferença entre quem canta e quem teatraliza. No fado consegue‑se, tanto quanto possível, que fique registado fonograficamente o estado de alma do fadista – registo que é «[...] uma espécie de “memória do momento ao vivo” que nos emociona [...]» –, dado que «[...] a musicalidade é condição indispensável do seu talento expressivo [...]». A música «[...] acaba por conseguir recriar uma “encenação diferida” que no teatro é impossível.» Como se esperava, esta foi uma das ênfases da sessão. Mas houve várias inesperadas curiosidades importantes.
II.2. A aula a partir dos Ofícios Inquietos
O encontro com a letrista foi extremamente gratificante. Tratou‑se de uma aula prática dada no seu habitat natural – o palco – aquilo que ela transmitiu. A Senhora, que honesta e humildemente reconheceu ser incapaz de descrever o que é o fado, possibilitou aos presentes confirmarem que tal incapacidade era genuinamente verdadeira.
Percebeu‑se perfeitamente que ela não sabe o que é o fado porque ela (também) é fado, e como é discreta não consegue descrever tamanha característica pessoal. Todavia, desvendou o mistério, confessando que tem dentro de si instalado um aparelho (mas desconhece de onde veio), um arrepímetro, que se acende e avisa‑a quando o fado acontece. Mas não todo o fado, como a própria reconheceu – ainda que compreensivelmente não tenha pretendido entrar em tão polémico tema e que continua a ser uma espécie de tabu. A luz do aparelho dá‑lhe sinal quando ela sente que o fadista canta como se fosse o elemento de transmissão de uma mensagem divina, ou como se o fadista fosse a voz do próprio Deus.
A propósito da referência «anda o fado noutras bocas que não são bocas pró fado» – vide §3 de II.1 –, retome‑se a última frase do primeiro parágrafo de II.1 – «Não é por acaso que se diz: “aquele fado do Carlos do Carmo” não sendo dele nem a letra nem a música.» Convém acrescentar àquele (outro) fado de Carlos Ramos – Anda o Fado Noutras Bocas, que não por acaso tem letra e música de Artur Ribeiro – alguns versos que não fazem parte do refrão: «Eu ouço por todo o lado / Noutras bocas outro fado / Que de fado não tem nada»; ou, a propósito de determinados fadistas, «Ouvindo alguns que nasceram / Para tudo menor para o fado».
Durante cerca de uma hora e meia esteve em cena – não em exibição, pois esta palavra poderia levar a um grande equívoco, que Manuela de Freitas permanentemente evita, o de distinguir (usando as ideias plasmadas no citado derradeiro parágrafo do texto da sua autoria) quem dá tudo de si para «exprimir‑se», de quem pouco mais se interessa do que «exibir‑se» – uma lição durante a qual procurou explicar tanto o que é o fado do bom teatro como o teatro do mau fado. A Senhora foi – foi e é – assertiva mas reservada, frontal mas educada, forte mas complacente, sabendo elevar os dois estados de arte sentimental sublimes, o fado e o teatro. E percebeu‑se facilmente porque ourejou o teatro e prateou o fado. Sendo coerente consigo, ela não podia pensar doutra forma. Quem tivesse retido o mencionado texto Ofícios Inquietos, saberia de antemão o porquê da hierarquização entre o fado e o teatro, dois primos direitos que são filhos de estados de alma irmãos.
O estilo e a forma de comunicação patenteados permitiram concluir que quando um ator dá abnegadamente a sua alma àquilo que realiza, é indiferente falar sentado para uma pequena sala com dezenas de pessoas, ou representar de pé para um grande auditório com milhares de pessoas, fazendo com que os espectadores fiquem tatuados na memória com o momento único de entrega. Aliás, acerca das condições de comodidade por parte daqueles que recebem esta entrega, Manuela de Freitas partilhou com os presentes a explicação para que haja atores a preconizar que o público não deve assistir muito comodamente aos espetáculos, pois o facto de estar bem instalado pode impedir a maximização da sua capacidade de receção e retenção da mensagem. Creio que ela transmitiu haver mesmo quem avance que o público deve ficar sentado no chão. Se eu estivesse sentado no chão a ouvi‑la, ainda mais teria o prazer de levitar.
Só quem assistiu à representação daquele fim de tarde consegue entender na plenitude a definição de fado. Mesmo que houvesse uma gravação do encontro que registasse os cinco sentidos de cada pessoa presente no auditório, esse registo jamais conseguiria reproduzir o momento. Não captaria o estado anímico da entrega, despida de qualquer vaidade. A foto colocada no início deste post procura transmitir a sombra ínfima mas fiel do ambiente que os presentes puderam usufruir.
III. A comunicação com o Museu do Fado
No dia seguinte ao da sessão, após o jantar, relembrei‑me da palestra com que Manuela de Freitas, de maneira intimista e muito profissional, revolucionou os sentidos transcendentais a quem a (ou)viu com atenção. A vontade impeliu‑me então a descrever sucintamente como, na minha perspetiva, ela sente o fado, viveu o teatro – que abandonou há alguns anos, por não se identificar com determinadas idiossincrasias – e será fiel aos dois amores. Saíram naturalmente (de maneira tão natural como a sua mensagem) umas palavras, cujo conjunto intitulei Instinto e arrepio. O seu instinto inato para o teatro, e o seu arrepímetro único para o fado. Mas ela é incomparavelmente superior acima de tais palavras; inferior foi a minha capacidade para chegar à descrição ideal e suprema.
Após cerca de duas semanas de estágio, lembrei‑me de reler o que escrevera, e procedi a ligeiros ajustes. Um dia depois, em 4 de maio, decidi enviar um e‑mail ao Museu do Fado. Para além das palavras de Instinto e arrepio, o e‑mail continha o necessário enquadramento do mesmo. Comecei por felicitar o Museu, pela «excelente iniciativa promovida» por si – ou seja, as Conversas de Fado –, qualificando de «soberba» a «aula oferecida pela Senhora Manuela de Freitas», e salientando que «Fiquei embevecido com as suas palavras.»
Ademais, adicionei ao e‑mail alguns apontamentos já acima expostos: que foi no dia seguinte ao da sessão que brotou a minha decisão, atendendo a que «não me saía da ideia o que ouvira na véspera»; e que o resultado dessa decisão esteve a estagiar. Prossegui, escrevendo «Como não tenho o contacto da Senhora Manuela de Freitas, pedia o grande favor de o Museu do Fado lhe reencaminhar este e‑mail», e acrescentando que se tratava de «Ideias simples que são uma pálida amostra do que eu senti, ou melhor, do que ela transmitiu ao auditório.»
Volvidos poucos dias, enviei um novo e‑mail ao Museu do Fado, cujo conteúdo passo a reproduzir. «Admitindo que o Museu do Fado ainda não teve oportunidade para reencaminhar o meu e‑mail da passada sexta-feira, 4 de maio, à Senhora Manuela de Freitas, aproveito a oportunidade para fazer uma ligeira correção. Assim sendo, muito agradeço que os versos do último e‑mail sejam substituídos pelos abaixo apresentados». [Substituí, num verso, uma palavra por duas.] «No caso de o Museu do Fado não conseguir entrar em contacto com a Senhora Manuela e desse modo efetuar o reenvio do e‑mail contendo os versos, muito agradeço que me informe. Mais uma vez, obrigado pela atenção dispensada.»
Seguidamente encontram‑se expostas as palavras, imperfeitas mas descomprometidas e desinteressadas, referentes a Instinto e arrepio.

Não sei quem é o fado que me aclama
Um palco de olhar vivo a vida é
Teatro nu, verdade que reclama
Eu fiz‑te um juramento: eterna fé
Não sei quem é o fado que me aclama
Sou corpo em movimento incessante
Instinto e arrepio que inflama
Presença sempre em cena, alma abundante
Um palco de olhar vivo a vida é
Sem cera ou caras ocas e fingidas
Combato, choro, sofro e amo em pé
Semeio alegrias, saro feridas
Teatro nu, verdade que reclama
Sou teu, no escuro sigo a tua pista
Ao fado que te canta eu dou chama
De Deus recebo a voz pura e fadista
Eu fiz‑te um juramento: eterna fé
Sou hoje e jamais penso no depois
O estrado é o meu fado e creio até
Que o fado é o amante de nós dois


IV. O plano C
Face ao exposto, do Museu esperar‑se‑ia tão‑somente uma singela atitude: ou informar‑me que fez o favor que educadamente lhe pedi, ou então transmitir‑me que não poderia ter atuado em conformidade com o meu pedido. Não pedi o contacto da Senhora, e nem que a Senhora me contactasse; apenas pedi que a Senhora tivesse acesso ao eco que a sua aula produziu num elemento do público. Tão simples e nada mais que isso.
Mas parece que aquilo que se revela bastante simples converte‑se em multiplicada complicação. Desde o dia 4 de maio até hoje aguardei paciente e ingenuamente que o Museu do Fado tivesse uns segundos do seu escasso tempo para me responder.
O Museu não está ao meu serviço, bem sei. Mas bem sei igualmente que não lhe pedi o Céu. Ao invés, parece que lhe terei oferecido um convite para o Inferno, porquanto o seu silêncio leva a pressupor que foram pecaminosos ou infames os meus dois e‑mails, especialmente o último. Assim seja o seu entendimento. Apresento desde já desculpa se o teor dos referidos e‑mails conduziu a ruídos de interpretação.
Tornado vão o plano A – envolvendo o Museu do Fado –, ainda estive tentado a esboçar um plano B. Mas como para este plano alternativo seria necessário efetuar mais um pedido (para o Céu – ou sequer um convite para o Inferno), fui lesto a desistir da ideia. Enveredei imediatamente pelo plano C, o presente, o que depende de ninguém, o imune a caprichos, simpatias, amizades ou favores, o da publicação (sem rascunhos) no sítio da Internet.
Resta concluir que Manuela de Freitas, «MF», apresentou‑se com uma voz contagiante, sem oscilações no corpo e na alma. Por seu turno, o Museu do Fado, «mf», começou forte no levantamento da iniciativa mas acabou por esmorecer diante do seu silêncio, certamente por invulgar descuido. Conversas de Museu ou Conversas em Silêncio no Museu? O silêncio não se exige sempre; exige‑se quando se vai cantar o fado.

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