Fórum de Reflexão Económica e Social

«Se não interviermos e desistirmos, falhamos»

terça-feira, maio 15, 2018

Índice de Atração Turístico-Residencial



I. Introdução

O Índice de Atração Turístico‑Residencial (IATR) apresentado no presente post procura captar - e deste modo é um candidato a tornar-se noutro rascunho – as variáveis que condicionam quer os fluxos turísticos, quer a mudança de residência, mudança operada por parte sobretudo da população reformada oriunda de Estados ricos. Traga‑se à colação o texto de Paulo J.S. Barata publicado há cinco anos no ex‑jornal Oje – atual Jornal Económico –, na coluna Refletir, em 6 de março de 2013 – e republicado três dias depois no blogue do FRES - Fórum de Reflexão Económica e Social –, intitulado «Portugal e a atração sénior».

Logo no início desse texto encontra‑se uma lista de «fatores diferenciadores» eleitos pelos forâneos no momento de decidirem viajar para o nosso País. Ela é composta por «Posição geográfica, clima, história, património, diversidade paisagística, gastronomia, hospitalidade, segurança, infraestruturas de qualidade (aeroportos internacionais, vias de comunicação, redes de hotéis e restaurantes, redes de telecomunicações, hospitais públicos e privados) e mão de obra qualificada».

O sobredito texto acrescenta fatores à lista: força dos «preços competitivos», percentagem elevada de portugueses que falam ou compreendem a língua inglesa, e tempo de voo relativamente reduzido para as principais cidades europeias. De resto, o texto alerta que, para além dos fatores enunciados, não se pode descurar o regime fiscal.

Seria interessante transportar para um único indicador todos os itens que influenciam o turismo e a alteração de residência, de modo a facilitar as comparações entre países. Porém, da miríade de características inatas que Portugal possui, umas revelam‑se mais objetivas que outras. A «segurança», o «clima» e os «preços competitivos» são provavelmente das mais quantificáveis.

II. Variáveis do índice

II.1. Segurança

A segurança será porventura o fator que reúne maior ponderação tanto no âmbito turístico como no da fixação de residência. Para mensurá‑lo, recorreu‑se ao trabalho desenvolvido pelo Institute for Economics and Peace. Trata‑se de uma instituição que integra um painel de peritos internacionais, cujos pareceres em matéria de segurança são transformados num índice global de paz.


Este índice é elaborado com base em bastantes indicadores quantitativos e qualitativos – respetivamente 15 e oito, em 2017 –, que avaliam a conflitualidade interna e os diferendos externos. O subíndice de natureza interna tem uma ponderação ligeiramente superior (60%) face ao correspondente para a paz de índole externa. O gráfico 1 mostra a evolução do índice global.










No capítulo da segurança, Portugal tem estado mundialmente bem posicionado ao longo das recentes décadas. Ainda, constata‑se que vem melhorando nos últimos anos.


Em 2017, no seio dos 163 países com uma população acima de um milhão de pessoas e um território que ultrapassa 20 mil quilómetros quadrados, a nossa Nação ocupava a terceira melhor posição – 15ª melhor em 2009, entre 143 Estados –, apenas atrás da Islândia e da Nova Zelândia. Se bem que o gráfico permita confirmar que a Europa é um continente seguro, nota‑se que o nível de paz diminuiu a partir de 2015, contrastando com a evolução registada em Portugal.

II.2. Clima

Após a segurança, o clima será um elemento de diferenciação altamente relevante para efeitos turísticos e de mudança de residência. O quadro 1 relaciona os dois fatores. A segurança é refletida pelo índice global de paz (explicitado na subsecção precedente), e o clima é traduzido através da temperatura média anual (medida em graus Celsius). O quadro não inclui 163 países, em virtude de a série de dados relativa à temperatura não dispor de informação referente a quatro deles (a saber: Kosovo, Palestina, Sudão do Sul e Taiwan); e porque se admitiu que as conclusões seriam praticamente as mesmas (assumindo 163 ou 159 territórios nacionais), razão pela qual se entendeu que seria desnecessário preencher a série original com dados de outras fontes.




Da dúzia de Estados mais seguros em 2017 – ordenadamente: Islândia, Nova Zelândia, Portugal, Áustria, Dinamarca, República Checa, Eslovénia, Canadá, Suíça, Japão, Irlanda e Austrália –, somente dois são bafejados por um clima mais aprazível. Pertencem aos intervalos de temperatura média anual [12, 16) e [20, 24), e correspondem, por esta ordem, a Portugal e Austrália.

Podendo escolher, a maioria das pessoas evitaria viver em áreas com um clima demasiado quente ou deveras frio. Apesar de o ser humano adaptar‑se a qualquer temperatura, não há dúvida que os climas amenos são os preferidos pela generalidade dos indivíduos, pelo que é perfeitamente plausível estabelecer que a temperatura média ideal para o grosso das pessoas rondará os 18oC. Dos 159 países abrangidos, apenas 14 aproximam‑se dessa bitola. Porém, nenhum deles dispõe do grau máximo de segurança – nível «Muito elevado».

Em 2017, os Estados mais seguros integrantes do intervalo [16, 20) eram o Uruguai e a Namíbia, os quais ocupavam o segundo maior patamar – i.e., o grau «Elevado». Portanto, à escala mundial, e sob os prismas primaciais da segurança e do clima, Portugal é dos países mais competitivos. Todavia, em matéria de competitividade falta acrescentar uma componente fundamental: o nível de preços.

II.3. Nível de preços


Para a variável respeitante ao nível de preços foi tido em conta um conjunto de 121 territórios nacionais. No gráfico 2 apresenta‑se a distribuição da frequência dos escalões do índice de poder de compra reportados a 2017.





Visto que a série de dados tem como referência – base 100 – o poder de compra nova‑iorquino, é normal que a distribuição evidencie um enviesamento para a direita. Para o tal universo de 121 Estados, a mediana era de 53,6. O poder de compra português (62,7) estava alinhado com o da média dos países, que registava o valor de 62,3.

Apresentado o fator afeto ao poder de compra, importa relacioná‑lo com as variáveis já explicadas, ou seja, a segurança e o clima. Para tanto, houve necessidade de construir o citado (logo no primeiro parágrafo) IATR.

III. Construção do índice

O IATR consiste num índice compósito que abarca as três dimensões desenvolvidas no post em apreço: nível de paz, temperatura média e custo de vida. Conforme mencionado, estas dimensões são deveras relevantes para efeitos da deslocação de cidadãos entre nações, quer na óptica dos movimentos turísticos, quer na perspetiva da fixação de residência em território estrangeiro (excluindo a mudança de residência associada à emigração motivada pela procura de melhores condições de trabalho).

A variável atinente ao custo de vida, que assenta, como atrás sublinhado, no nível de preços praticado na cidade norte‑americana de Nova Iorque, incorpora as diversas componentes do custo de vida em cada país, nomeadamente a alimentação, a restauração, os transportes, a energia e o alojamento – as despesas com arrendamento e com empréstimos hipotecários para habitação –, medidos em paridade do poder de compra. Não obstante existirem dados sobre o índice global de paz e a temperatura média anual para 159 Estados, somente foram utilizados os elementos de 109 deles, por ser o número de nações para as quais há informação acerca dos preços.

Enquanto os valores relativos ao nível de paz e ao custo de vida que entram no IATR foram extraídos da fonte, para a temperatura média adotou‑se um procedimento diferente, descrito de seguida. Usou‑se a temperatura média anual disponível para aqueles 109 países, cuja amplitude varia entre 27,2 e -5,1 graus Celsius. Uma vez que – vide §3 de II.2 – 18oC é uma temperatura média que pode ser considerada ótima, para a transformação da série de origem construiu-se uma função por ramos simétrica em torno de 18.

Por dois motivos não é possível empregar os dados da temperatura média retirados diretamente da fonte. Por um lado, porque o quociente entre o valor máximo e o valor mínimo carece de sentido. A divisão entre um valor positivo e um negativo tem validade unicamente no campo teórico‑aritmético. Por outro – e mesmo que não houvesse temperaturas negativas –, pelo facto de o rácio entre uma temperatura média muito elevada e uma extremamente baixa resultar numa utilidade nula aquando da agregação da temperatura às outras duas para efeitos do cálculo do IATR.

Em relação a este último motivo (para a adoção de um procedimento tomado especificamente para o fator da temperatura, ao invés do uso direto da informação), note‑se que em 2017 o quociente entre os valores máximo e mínimo era de 3,43 para o nível de paz (2,8 em 2009), e de 6,45 para o custo de vida. Reforce‑se o motivo: dividindo uma temperatura próxima de 27oC com uma a rondar 0oC, resultaria num número exorbitante e sem nexo.

Os dois obstáculos anteriormente explicitados associados ao uso direto dos elementos da série original da temperatura média anual foram ultrapassados mediante a seguinte interpolação linear, encetada para obter o valor da nova variável respeitante à temperatura, «y»: ln 10.000 corresponde à amplitude máxima de 23,1 [=18-(-5,1)] – >9,2 (=27,2-18) –, ln 10 à amplitude mínima de 0 (=18-18), e ln y à amplitude de |18-x|, sendo «x» a temperatura da série de origem. Por conseguinte, para «x» acima de 18, ln y = A-B+C e, para «x» abaixo de 18, ln y = A+B-C, onde A = ln 10, B = 18.(ln 10.000-ln 10)/23,1 e C = x.(ln 10.000-ln 10)/23,1.

Escolheu-se ln 10.000 de modo a que o rácio entre o valor máximo e o valor mínimo da série transformada esteja situado entre os quocientes verificados nas duas demais séries de dados – que, como mencionado no penúltimo parágrafo, são de 3,43 e 6,45. Fixando ln 10.000 para a amplitude máxima, obtém‑se o rácio de 3,87; se se fixasse ln 1000 ou ln 100, os quocientes seriam de apenas 2,94 ou 1,98.

O coeficiente de correlação entre o nível de paz e a temperatura média é de ‑0,31, e de ‑0,49 entre o nível de paz e o custo de vida. Entre a temperatura média e o custo de vida, o correspondente coeficiente é de 0,28. Assim sendo, o IATR incorpora três perspetivas bastante distintas, estando dissipado o risco de se incluírem variáveis correlacionadas entre si, situação que poria irremediavelmente em causa a validade do índice compósito.

IV. Resultados do índice

O quadro 2 contém um conjunto alargado de informação. Para cada um dos três fatores individualmente considerados, i.e., o índice global de paz, a temperatura média anual e o custo de vida com alojamento, apresentam‑se os 15 Estados melhor posicionados, e outrossim a ordem que ocupam no ranking do respetivo fator – realce a negrito. Em 2017, no universo de 109 territórios nacionais, Portugal detinha a terceira – último parágrafo de II.1 – e a 15ª melhor posições em termos do índice de paz e da temperatura média, ocupando a 63ª posição no tocante ao custo de vida.









Construiu‑se o IATR assumindo como cenário‑base o produto dos valores das três variáveis em apreço. Nesse cenário, o nosso País ocupava o quarto melhor lugar à escala mundial – antepenúltima coluna do quadro. Porém, atendendo a que a amplitude das três variáveis é díspar – conforme salientado (e repetido), o rácio entre o máximo e o mínimo varia entre 3,43 e 6,45 –, efetuou‑se um recálculo das posições – últimas duas colunas –, procedimento levado a cabo através da média simples das posições dos fatores. Sob esta perspetiva, Portugal seria o segundo Estado mais atrativo.

No quadro 3 apresentam‑se os valores do IATR constantes do quadro 2, assim como os valores para três cenários alternativos, resultantes da maior ponderação atribuída a cada um dos três fatores em causa. De modo semelhante ao realizado para o cenário‑base do quadro 2, as últimas três colunas do quadro 3 correspondem à ordem das nações tendo em conta não os valores do índice mas sim a ordem da cada fator individual, consoante o peso que se lhes concede.








No cenário em que a maior ponderação é dada ao índice de paz, quiçá a variável que objetivamente tende a ser a mais reconhecida, Portugal era o arquétipo mundial. Destacava‑se por ser o Estado mais atrativo, seja em termos do valor do índice – A2.B.C –, seja no tocante às posições das três variáveis – (2.a+b+c)/4. Quando o peso maior é direcionado para a temperatura média, a Nação ocupava o sexto ou o segundo melhor lugares, consoante se refira ao valor do índice ou às posições das três variáveis. Finalmente, se se ponderar mais o custo de vida, os lugares baixavam para o 22.º ou o 14.º.



V. Reflexões finais

No domínio da atração turístico‑residencial, o País tem sido um habitual concorrente para os lugares do pódio mundial. Os resultados do IATR, índice compósito que agrega o nível de paz, a temperatura média e o custo de vida, explicam grandemente o êxito português em termos do afluxo turístico e da mudança de residência (maioritariamente enveredada por reformados estrangeiros possidentes, conquanto para tal mudança contribua consideravelmente o chamariz fiscal que o Estado tem bem montado).

Apesar da tentação de entrar no etnocentrismo, será irrefutável assumir que a nossa Nação dispõe, para além das características objetivas reunidas no índice, de aspetos de pendor subjetivo assaz distintivos, já oportunamente enunciados no texto «Portugal e a atração sénior», de Paulo J.S. Barata. Tranquilidade e bem‑estar são exigências inerentes às preferências do destino turístico e da alteração de residência.

Portugal é um país tranquilo e, sobretudo para quem vem de fora, detém um nível de bem‑estar elevado. A tranquilidade (em aceção lata) revela‑se a nível da segurança em si mesma, mas decorre igualmente do clima. O bem‑estar é enaltecido certamente por quem aprecia a vida, entremeando a segurança e o clima com as vertentes histórica, geográfica, gastronómica e cultural.

A Nação tem sabido, ao longo do tempo, partilhar fraternamente a sua identidade, como que as virtudes das vertentes identificadas na frase anterior também caracterizem os outros povos que connosco se cruzam. Mas nada vale empertigarmo‑nos com os êxitos alcançados se descurarmos a lição ancestral de que tudo pode ser modificado a qualquer instante, até porque a concorrência é imarcescível e o mercado não dorme.

O território nacional foi agraciado pela ventura da Natureza universal e pela vontade do Homem lusitano. Haja portanto vontade para respeitar a ventura, e não falte audácia nem humildade para reconhecer que do Capitólio à Tarpeia não dista mais que um pulo. Que abunde a serenidade para tratar bem da galinha dos ovos de ouro. 


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