Fórum de Reflexão Económica e Social

«Se não interviermos e desistirmos, falhamos»

sábado, abril 30, 2016

Da semente da verdade ao fruto da liverdade (parte VI/VII)


F. Da politiquice à política

F.1. Na politiquice reinam as certezas, enquanto na política imperam as dúvidas.

71. A politiquice é o coração e a política a cabeça de corpos muito diferentes: corpo da presunção na politiquice, e corpo da modéstia na política. Respetivamente, arrogância em confiar na definhada sabedoria, e humildade em reconhecer a frutuosa ignorância; ou arrogância em responder, e humildade em perguntar. As dúvidas de uns são as certezas de outros.

72. As dúvidas da política consistem na certeza das perguntas, entre elas: «Como atingir o bem coletivo?», ou «Como assegurar o crescimento e o emprego?». Inversamente, as certezas da politiquice correspondem à dúvida das respostas, como sejam: «O bem coletivo atinge-se acabando com os mercados financeiros.», ou «O crescimento e o emprego ficam assegurados através do aumento da justiça social e da promoção da igualdade de oportunidades.» Perguntas convictamente certas e respostas assertivamente duvidosas.

73. Tais exemplos espelham duas realidades opostas. A política caracteriza-se pela reflexão e pelo debate de ideias, ou melhor, de autênticas dúvidas; envolve a análise e o diálogo. A politiquice cinge-se à demagogia e à persuasão de argumentos, ou antes, de falsas certezas; queda-se pela retórica e pelo monólogo.

F.2. Os politiqueiros focam-se na parte e os políticos no todo.

74. Os politiqueiros concentram-se na superfície dos assuntos; os políticos no âmago dos problemas. A classe politiqueira engana com sofismas os cidadãos e assim engana-se a si mesma; a classe política ensina-se a si própria e assim ensina com sinceridade os cidadãos. O que mais os distingue é a carga de verdade – ou de mentira – que as suas decisões (de governo da sociedade) transportam, i.e., a sensatez para dosear a tecnicidade impessoal e a solidariedade interpessoal.

75. Em rigor a solidariedade atrás mencionada não pode restringir-se ao campo interpessoal. Deve abranger – sobrecitado no parágrafo n.º 36 – a harmonia e o respeito entre o indivíduo e o meio que o rodeia, rectius, a relação entre o Homem e a Natureza. Sem a atenção permanente prestada à Natureza, elemento agregador, quiçá paradivino, do futuro, é descabido falar de política, uma vez que não há verdade sustentável se o ser humano não se articular com o ambiente natural e as gerações vindouras.

76. A politiquice conforma-se com a ilusão do empolamento das promessas, enquanto a política não dispensa a constatação da concretização das ações. Os politiqueiros preocupam-se com a aparência e a forma, ao passo que os políticos focam-se na consistência e na substância. Melhor expondo: os politiqueiros empenham-se na consistência da forma, bem como na aparência da substância, e os políticos enfatizam a consistência da substância e desprezam a aparência da forma.

F.3. A politiquice busca a complexidade e a política a simplicidade.

77. Conforme oportunamente deduzido, em política a simplicidade aumenta com a distância do horizonte. Com a politiquice ocorre a deturpada amplificação da simplicidade em complexidade; com a política consegue-se a ditosa redução da complexidade em simplicidade. Todavia, a simplicidade não é sinónima de facilidade; nem a complexidade significa dificuldade. A politiquice pretende não ultrapassar a fácil complexidade; a política pretende desvendar a difícil simplicidade.

78. Logo, para efetivar a robustez social de uma nação, é imprescindível que, quer o eleitorado, quer a classe política, disponham de ânimo (ou dedicação) e capacidade (ou inspiração) para fazer valer a simplicidade da verdade. Para tanto, na fase da análise – que, recorde-se, contempla as etapas da organização e da intuição – importa que o eleitorado nunca perca o espírito crítico para separar a verdade da mentira, e que a classe política tenha em conta os vários tipos de correlações existentes. A classe política deve ter presente que a matriz de correlações da verdade reduz a complexidade em simplicidade, e que o vetor – não uma matriz – de elementos independentes da mentira amplifica a simplicidade em complexidade.

79. Não obstante a abordagem combinatória dos átomos da realidade (sejam verdadeiros ou falsos) aparentar ser difícil, a realização de uma abordagem do género revela-se um exercício fácil. Fácil porque do exercício extrai-se uma solução possível – entre as inúmeras que os arranjos ou as combinações permitem –, pelo que não se justifica o gáudio feito à sua volta quando se apresenta essa solução.

F.4. Os politiqueiros partem do engano da verdade; os políticos da ausência da verdade.

80. Sendo a verdade o resultado molecular de um exame minucioso de inúmeros elementos objetivos, não é de estranhar que, para obter uma solução correta – portanto verdadeira –, haja necessidade de despender demasiada dor e enorme esforço. Mas cumpre realçar – em linha com o referido na parte final do parágrafo n.º 45 – que se a verdade é penosa, a mentira revela-se ainda mais.

81. Os genuínos políticos fecham-se em si para abrirem-se aos outros; os astutos politiqueiros, porque se abrem apenas a si, precisam de se fechar aos outros. Dado que a descoberta da verdade decorre de uma tarefa laboriosa, denota-se uma manifestação distinta de atitude entre eles. Perante a ausência da verdade, os genuínos políticos sentem angústia; perante o engano da verdade, os astutos politiqueiros sentem regozijo. No domínio da verdade, a angústia é relativa, pois a angústia inicial passará a regozijo final; no domínio da mentira, o regozijo é efémero, pois o regozijo inicial passará a angústia final.

82. Com efeito, por a fase da análise exigir assaz transpiração, tanto na etapa da organização como na da decisão – traga-se à colação B.6 –, então é normal que, até encontrarem um caminho válido para a verdade paracientífica, os seus descobridores ou investigadores sintam laivos de desânimo ou angústia por não alcançarem o bem coletivo. Não admira por conseguinte que, após árdua avaliação das vontades, em que se separa adequadamente a flor da verdade da escória da mentira, eles sejam apoderados de um amplo regozijo.

F.5. A opinião não pode representar a verdade porque conhece fases de avanços e recuos.

83. A verdade, por ser objetiva, evolui sempre, avança constantemente; a opinião, por ser subjetiva, tantas vezes ora avança ora recua. Uma verdade que, num momento específico, é considerada total, posteriormente pode passar a verdade parcial, dado que a realidade altera-se. Igualmente pelo motivo de alteração da realidade, verificam-se casos nos quais a verdade parcial transforma-se em verdade total.

84. Deste modo, embora a verdade e a opinião sejam transitórias – válidas unicamente para uma área geográfica e para um horizonte temporal algo restritos –, a verdade será constante e a opinião será volátil. A verdade é política porque requer o constante bom senso; a opinião é sobretudo politiqueira porque subsiste com volátil sensibilidade. Frise-se porém que certas opiniões são proveitosas: as que provêm do pensamento e se materializam em verdade – parágrafo n.º 62.

F.6. Muitas opiniões são politiqueiras; somente algumas são políticas.

85. À partida não haveria opiniões erradas, já que elas comportam, em maior ou menor grau, algum fundamento verdadeiro. Claro que se pressupõe a presença de um mínimo de boa-fé nas opiniões proferidas. Afere-se a boa ou a má-fé das opiniões não enquanto conhecimento provado mas enquanto jactância de validade (isto é, desde que despidas de altiva assunção de validade, uma opinião desprovida de sustentação lógica não carrega má-fé).

86. A política funciona de maneira semelhante à de uma câmara de compensação central, onde algumas opiniões, partículas da verdade atomizada – umas partículas são bastante visíveis e outras deveras impercetíveis –, são profundamente convertidas em verdades totais. Conclui-se que afinal, mesmo no alto da boa-fé, existem opiniões corretas mas muitas são erradas.

87. Repita-se: as opiniões erradas não o serão quanto à fé duvidosa ou malsã que incorporam. Sê-lo-ão sim pela utilidade que lhes é dada. No âmbito da política, as opiniões são válidas porque constituem matéria-prima do mecanismo de construção da verdade. Ao invés, no domínio da politiquice as opiniões são nocivas para o regime democrático e para a opinião pública, pois são entendidas e tratadas como produto final, passando por fora do mecanismo de construção da verdade.

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