Fórum de Reflexão Económica e Social

«Se não interviermos e desistirmos, falhamos»

sexta-feira, abril 29, 2016

Da semente da verdade ao fruto da liverdade (parte V/VII)


E. O papel do pensamento

E.1. O melhor serviço que os cidadãos podem prestar a um país é pensar verdade.

57. A consolidação da liverdade ultrapassa deveras a exigência da verdade. Para além desta exigência, a liverdade requer a afirmação do pensamento na verdade. Pensar (na) verdade equivale a aspirar o bem privado – individual ou corporativo –, desde que o ente coletivo possa igualmente usufruir desse bem. Enfim, a afirmação do pensamento impõe apenas que a maioria dos cidadãos preste o patriótico serviço humilde de dispor de capacidade para identificar que, em política, a soma das partes pode ficar muito atrás do todo potencial.

58. Não é pois surpresa que os indivíduos que pensam verdade sofrem mais da sua vitalidade do que beneficiam da amizade de outrem. A vitalidade brota da firme preocupação ou porventura do sólido amor depositados no bem nacional e no consequente combate a interesses contrários a esse bem nacional, o que não raras vezes causa dissabores e desarticulações sociais, laborais e familiares. O combate pode inclusive abranger a abnegação dos interesses particulares, epítome da liverdade.

59. Não há democracia consolidada sem liverdade sustentável; não há liverdade sustentável sem cidadania plena; e não há cidadania plena sem pensamento na verdade. Defender a democracia consolidada, ou a liverdade sustentável, ou a cidadania plena, ou o pensamento na verdade representa em primeira instância proteger a pátria acima do povo, porquanto, no atinente à verdade, não é normal os interesses da nação coincidirem ou sequer convergirem com os interesses da multidão. Há a esclarecer que isto sintoniza-se – embora não pareça – com o conteúdo do post «Muita Pátria e pouco Povo», de agosto de 2015. No início da sua última secção, «Epopeia do séc. XXI», realçou -se que «o excelso Povo tem sido sistematicamente generoso com a Pátria mas nem sempre consigo próprio. Para si próprio tem mostrado, com alguma frequência, ser individualista, dado que está por alcançar a obra de pensar como um todo indivisível.»

E.2. O pensamento é o sexto sentido.

60. Obter-se-á a política desejável se os eleitores focarem a sua atenção no coletivo, ao invés de o enfoque fluir para o indivíduo ou a corporação – admitindo a validade (que deve ser inviolável) do pressuposto que os políticos, os supremos defensores do coletivo, terão suficiente sagacidade para salvaguardar os legítimos e proporcionais interesses dos cidadãos em função da proteção que cada um destes interesses merece. Apesar de aquela política desejável poder ser considerada algo utópica, um estádio anterior é perfeitamente atingível: a política ao mesmo tempo honesta entre as pessoas e equilibrada entre cada pessoa e o coletivo. Se os políticos atuarem convenientemente, pensando de forma idêntica à dos eleitores, a verdade é ainda mais consistente ou até inteligente – parágrafo n.º 17.

61. Quando os indivíduos, incluindo os eleitores e os políticos, pensam com equidade e humildade, automaticamente irrompe um sexto sentido. Daí a importância da equidade e da humildade, o pão e o conduto da liverdade, através dos quais surge um processo metamórfico subtil: a energia e o espírito robustos nascem com a vontade, crescem com a análise e morrem com a verdade. Não existe verdade sem pensamento. Há quem não o possua – lamentavelmente sucede com os demais sentidos. Por conseguinte, pensar na verdade constitui o devir da energia e do espírito. Energia positiva e espírito crítico.

62. O conhecimento é o ensino teórico e a justiça a aprendizagem prática. Um e outra exigem o exercício de pensar e transmitir verdade. Ao emitirem se opiniões, também se pode pensar, procurando transmitir verdade – transmissão que vulgarmente não ocorre, por carência de utilidade. (Conforme se referirá, para aqui só interessam as opiniões desinteresseiras, isentas de má-fé.) A missão da política consiste em distinguir os pensamentos convergentes com a verdade dos pensamentos divergentes da verdade.

E.3. O pensamento funda-se simultaneamente num direito e numa obrigação.

63. A verdade, que em geral é intrínseca ao nascimento dos seres humanos – porque se revela em vontades expurgadas de segundas intenções –, mingua com a idade e tenta impor-se quando a consciência prevalece. Neste processo cíclico da verdade, o fundamental não é pensar na muche – até porque o alvo, por progredir no espaço e no tempo, revela-se mutável –, mas antes ter a noção onde se situa o alvo e dispor da garantia que a carreira de tiro encontra-se livre. Na fase minguante não é a classe politiqueira que escolhe a cegueira da mentira; é a cidadania eleitoreira que receia o pensamento na verdade.

64. O pensamento é um direito, enquanto liberdade, e também uma obrigação, enquanto responsabilidade. Numa sociedade coesa e organizada, sem embargo de o povo estar endividado, em dinheiro e em valores, não pode haver dívida perante o pensamento. O pensamento na verdade é o domínio da função liverdade. O contradomínio da função é a razão e a justiça.

E.4. A retoma da verdade culmina sob o norte da energia de pensamento.

65. Como decorre do penúltimo ponto, na idade da inocência a verdade abunda e, com o crescimento do indivíduo, vai-se misturando com (ou modificando em) a mentira. É portanto essencial que impere a consciência para pôr a verdade na ordem do dia, processo que gera a retoma da verdade. Para o novo ciclo de apego à verdade, é imprescindível a intervenção de cidadãos e de políticos. Com efeito, somente mediante um acordo vincado entre eleitores e eleitos para defender e promover a verdade se granjeia a sua restauração ou reincarnação.

66. O triunfo final da verdade, símbolo do valor coletivo, alcança-se com cidadãos cuja matéria é formada, mais do que pelo vigor da vontade em alcançar a verdade, ou até pelo esforçado aprumo da sua conduta moral, pela energia de pensamento que permite romper com o statu quo. Em inúmeras pessoas a matéria e a energia são imiscíveis, como se a matéria fosse incorpórea e a energia corpórea. Apenas os cidadãos dotados de um renovado espírito crítico dispõem da inovadora energia de pensamento.

E.5. A vontade do povo é o input das relações humanas e o pensamento deve ser o output.

67. O input da vontade é sensivelmente idêntico de sociedade para sociedade. O output do pensamento é porém bastante distinto, consoante o tipo de sociedade. A política será apanágio das sociedades maciças e, por ela ser uma prática paracientífica, eleva a vontade à verdade – releia-se C.1. Contrariamente, a politiquice será típica de sociedades ocas e, por ser um exercício de demagogia, reduz a vontade à mentira. Os povos que querem descobrir a verdade pensam e elegem políticos; os que querem iludir- se com a mentira resignam-se e elegem politiqueiros.

68. Não se pede que a maioria do eleitorado tenha presente as correlações da verdade e da mentira evocadas no parágrafo n.º 32 – tarefa que cabe aos agentes políticos. Basta bom senso para saber conviver com a verdade e comunicar com a mentira. Bom senso, adicionado de modesta dedicação e de parca inspiração, cumpre reconhecer. É mais simples do que parece, pois quem dispõe do sentimento universal de justiça tem em si o bom senso, e existindo bom senso não falta a dedicação necessária ao pensamento. Por seu turno, havendo alguma dedicação ao pensamento, logo acorda a inspiração natural, que conduz inevitavelmente ao nascimento da inspiração construída.

E.6. O pensamento é um íman que atrai a verdade e repele a mentira.

69. O pensamento suscita a alteração de uma vontade numa verdade. Com recurso à inteligência – muito mais do que a associada ao conhecimento – e à sensatez, as ideias ou opiniões iniciais transformam-se em produtos finais úteis para a sociedade. O pensamento consegue enriquecer fúteis interesses individuais ou corporativos em verdades agraciadas pelo interesse coletivo.

70. Pelo que tem sido explicado, o pensamento tem um papel de charneira na política: constitui o elemento indutor do processo de formação da verdade paracientífica. O pensamento tem de ser vigilante porque importa atender quer à verdade, para a atrair, quer à mentira, para a repelir. Contudo, tal como um íman está sujeito a desmagnetizar-se, o pensamento perderá qualidades se não for atualizado e adaptado à evolução da realidade.

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