Fórum de Reflexão Económica e Social

«Se não interviermos e desistirmos, falhamos»

quinta-feira, abril 28, 2016

Da semente da verdade ao fruto da liverdade (parte IV/VII)


D. Verdade versus mentira

D.1. A verdade é o seu autoalimento e a arma contra a mentira.

43. A verdade alimenta-se a ela própria porque – repita-se – é causa e efeito de si mesma. Se ela é utilizada para se fortalecer, inevitavelmente enfraquece a mentira. Mas o enfraquecimento também ocorre no seio da verdade. Na subsecção C.6 tocou-se ao leve o lado reverso da verdade flácida: a verdade imóvel cria ervas daninhas. Analogamente aos rapaces altaneiros, que planam de modo suave e discreto sem serem detetados pelas presas incautas, a mentira sobrevoa a sociedade e frequentemente não é sentida pelos radares da maioria dos cidadãos. A mentira destrói-se no instante em que os radares da verdade a identificam.

44. Impõe assim refletir sobre o que requer maior esforço: a mentira levantar voo e sobrevoar até reunir condições para atacar; ou a verdade estar munida de radares atualizados e antecipar-se às ameaças. Os radares da verdade exigem – explicar-se-á no parágrafo n.º 68 – bom senso, dedicação e inspiração.

45. O bom senso é inquantificável – não é diminuto nem excessivo –; é unicamente existencial – ou há ou não. Inversamente, a dedicação e a inspiração são mensuráveis. É inequívoco que a verdade custa alguma dedicação e uma ligeira inspiração; só que a mentira dá trabalho acrescido, quer em dedicação, quer em inspiração. Logo, o esforço para a construção da mentira é incomparavelmente maior do que o necessário para a edificação da verdade.

D.2. Na política não há meias verdades nem meias mentiras.

46. Para efeitos do bem comum, não se conhecem nem meias verdades nem meias mentiras. Somente ou verdades ou mentiras, nada mais. Uma tese que contenha por exemplo 70% de argumentos verdadeiros – ou 30% de argumentos falsos – é talvez apodada de verdadeira no campo da politiquice conjuntural, contudo é irremediavelmente qualificada de falsa no contexto da política séria (ou genuína, usando o adjetivo que vem sendo adotado). Terminar um argumento com uma verdade parcial corresponde a iniciar outro com uma mentira total.

47. Tal não significa que todas as meias verdades – ou as mentiras totais, se se quiser – sejam inúteis. Ainda que de segunda ordem, elas terão a utilidade de, se forem pré-verdades, servirem para construir verdades reforçadas, em resistência e fundamentação, portanto conscientemente aceites pela maioria dos cidadãos. Todavia, se por um lado importa reconhecer que certas meias verdades, ou determinadas mentiras, podem ser aproveitadas – à semelhança da existência de resíduos que são úteis, como se mencionará mais adiante –, por outro não deixa de ser um facto que a maior parte das meias verdades é vã e o maior número das mentiras é vil.

D.3. As meias verdades não se completam com outras meias verdades.

48. A anterior epígrafe parece contraditória com a de D.2, pois se se afirma que «não há meias verdades nem meias mentiras», então seria desprovido de lógica defender que «As meias verdades não se completam com outras meias verdades» já que em rigor não existem meias verdades. As duas ideias não são paradoxais porque referem-se a âmbitos diferentes: apenas a primeira cinge-se ao âmbito da política séria.

49. O mesmo argumento de meia verdade, à luz do que foi justificado no antepenúltimo ponto, pode indicar verdade total num contexto – no da politiquice – e mentira completa noutro – no da política. É o motivo por que uma meia verdade é perigosa e por norma deve ser banida – com a exceção entretanto salientada. As meias verdades não se combatem com outras meias verdades; podem ser enfrentadas exclusivamente com verdades totais. A verdade é a pacífica bateria antiaérea que destrói o míssil da hostil mentira.

D.4. A evolução da verdade depende do conhecimento da mentira.

50. A verdade traduz um conceito espacial e temporal que evolui e vai sendo desvendado por decorrência do conhecimento da mentira. Conhece-se a verdade total, a nacional ou a universal, se se cumprirem dois momentos. Primeiro, é preciso entrar cautelosamente tanto na verdade parcial como na mentira, seja esta total ou parcial, para conhecê-las. Depois, é essencial saber sair corajosamente delas.

51. São vulgares os círculos viciosos em que as verdades parciais antecedem as mentiras parciais, e vice-versa, pelo que só com a rutura destes círculos é possível conquistar a verdade total. Consumada uma osmose de prioridades entre eleitores e eleitos, a verdade política será mais facilmente obtida. Não se atinge o consenso ou o arquétipo da verdade – no campo da verdade não há consensos ou arquétipos –, mas reduzem-se drasticamente os dilemas quanto aos caminhos a trilhar.

52. A verdade é a concertação – conceito oportunamente explicitado – fabricada manualmente e por medida. Ao contrário do som uniforme de uma orquestra de música clássica, passível de ser laboratorialmente repetido até à exaustão – e daí a parecença com as experiências científicas –, a riqueza do jazz exige que este seja criado e vivido no momento e não aceita a reprodução de cópias. Os políticos que confundem música clássica com jazz, se bem que não sejam necessariamente astutos politiqueiros, estão longe de ser genuínos políticos.

D.5. A verdade constitui uma equação sem solução única.

53. A genuína política deriva de uma tarefa árdua de otimização, cujo desígnio é – refira-se novamente – aproximar ao máximo o desejável do realizável, encontrando-se este último condicionado a uma miríade de restrições de diversa natureza, consoante o horizonte traçado. A política é uma paraciência de onde emanam resultados adequados, e não uma ciência que produz teses algo lineares e tendencialmente intemporais.

54. Desconhece-se uma fórmula transversal ou uma solução única para descobrir a verdade, desde logo porque esta não é constante. Nem a verdade é constante nem a mentira. Face a tal inconstância, impõe avaliar-se a utilidade quer da verdade quer da mentira. A utilidade da verdade é autoexplicativa; a da mentira passa, como a seguir se apresenta, pela possibilidade de ser a energia criadora de outra verdade.

D.6. A verdade é a virtude da energia e a mentira o resíduo do consumo de energia.

55. A verdade somente é uma virtude enquanto a consistência não fraquejar – vide parágrafo n.º 41. Jamais viverá ao sabor de movimentos discretos; tem de ser continuamente exalada pelos cidadãos. Ela não é um mero fim em si mesmo. Deve ser a conduta de vida, o alicerce do quotidiano, a matriz de pensamento. É o alfa e o ómega da energia útil.

56. Em contrapartida, a mentira é o resíduo do consumo de energia. Conforme sucede com quaisquer resíduos, a maioria deles é inutilizada; mas existem resíduos que são aproveitados para produzir nova energia. Há mentiras que, após serem submetidas a um processo de reconstrução da verdade, metamorfoseiam-se em energia útil. Assim, a mentira pode ser o nascimento da verdade, ao passo que a verdade é sempre o falecimento da mentira.

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