Fórum de Reflexão Económica e Social

«Se não interviermos e desistirmos, falhamos»

quarta-feira, abril 27, 2016

Da semente da verdade ao fruto da liverdade (parte III/VII)



C. A formação da verdade paracientífica

C.1. A política transforma as múltiplas vontades numa una verdade.

29. Apesar de ser quase impossível encontrar a solução da verdade onde todos os cidadãos – sem exceção – saiam beneficiados, isso não atribui autoridade para defender a multiplicidade da verdade. A multiplicidade caracteriza as vontades. Ao invés, a unidade é intrínseca à verdade, como solução válida – a mais válida – para um conjunto de pontos no espaço e no tempo, um dos motivos pelos quais a política é paracientífica.

30. No entanto, para que a unidade da verdade se imponha, não basta a validade da solução encontrada acima citada. Importa acrescentar a interiorização – ou aceitação – por parte dos eleitores. A diversidade de vontades, ora convergentes ora divergentes entre si, dá lugar à unidade, não consensual mas concertada, da verdade – vide B.1 –, o que consiste no segundo motivo para a política ser paracientífica. Existe verdade una quando as medidas por que os políticos enveredam são aceites pela generalidade dos eleitores, aceitação tomada – sublinhe-se – em ascética consciência do futuro e não por cobarde conveniência do presente.

C.2. A verdade é una mas divisível, em que uma parte revela-se e a outra procura-se.

31. A unidade da verdade paracientífica compõe-se de duas partes: a visível e a invisível. A parte visível manifesta-se através dos interesses parcelares dos eleitores; a parte invisível decifra-se. Cabe aos políticos decifrá-la, procurando o caminho para o interesse nacional, mesmo que este último possa não assumir um caráter internacional ou universal. Os politiqueiros canalizam a parte invisível da verdade para a parte visível dos interesses privados (individuais ou corporativos).

32. Entre as componentes constituintes da verdade, surgem interações de forças positivas e negativas. A unidade da verdade vai muito para além ou fica muito aquém da soma das partes, consoante as correlações sejam, respetivamente, positivas ou negativas, i.e., convergentes ou divergentes. As correlações da verdade transformam a mentira caótica em verdade organizada, ao passo que as correlações da mentira transformam a verdade potencial em mentira efetiva.

C.3. Quanto mais distante o horizonte, maior a simplicidade.

33. A política, enquanto ramo paracientífico multidisciplinar, caracterizar-se-á de alfanumérica. Por analogia, se a política é alfanumérica, a politiquice é alfabética e a ciência numérica. Alfabética unicamente no desprestigiante sentido retórico – e não no atinente ao uso virtuoso do alfabeto para descrever e fundamentar argumentos válidos – e numérica apenas no contexto da infalibilidade. Note-se que, por as ciências – exatas ou sociais – buscarem incessantemente a validade perfeita da verdade, procuram ser infalíveis.

34. Ao contrário das ciências, em que o conhecimento obtido é tanto maior quanto mais altos forem os ombros dos gigantes onde os cientistas se apoiam – alusão à resposta humilde dada por Isaac Newton para justificar as façanhas por si atingidas –, nas paraciências tal não sucede. Nas paraciências, nomeadamente na política, a altura não é numérica mas alfanumérica, e mede-se de um modo assaz diferente: a distância do horizonte, vista preferencialmente na perspetiva vertical – daí a expressão «verticalidade do infinito horizonte», na parte inicial do ponto 6.

35. Não obstante as barreiras levantadas – recordem-se as duas últimas palavras do parágrafo n.º 5: «obstáculos erguidos» –, é do início do horizonte que se descobre a simplicidade. O pensamento – abordado na secção E – comporta porventura a maior simplicidade. A simplicidade é arrastada pelo pensamento preso à verdade; não pelo desleixo associado à mentira. O horizonte desvenda-se portanto com a reflexão democrática e não com o sectarismo rebuçoso. Na simplicidade da verdade não entram nem as seitas nem os milagres; exclusivamente têm lugar as ideias transparentes produzidas por cérebros independentes. A reflexão democrática liberta a verdade; o sectarismo rebuçoso aprisiona-a.

C.4. A verdade resulta da articulação entre conhecimento e justiça.

36. O limite da verdade política não se restringe ao sonho ou a quejandas utopias, inclusivamente porque a verdade em apreço é a possível e não a ideal. O limite é antes a realística e alcançável justiça, que transvasa o respeito pela lei e desagua no respeito pelo Homem e pela Natureza. Se a justiça é o limite da verdade, a base é o conhecimento.

37. O conhecimento apela à organização; a justiça necessita de intuição. A justiça é o espelho da terrena inteligência suprema; o conhecimento, proxy da razão, sintetiza em simultâneo a humildade e a multidisciplinaridade. O conhecimento é a dimensão da verdade que se ensina – transmite-se pela escrita e pela leitura. A justiça é a dimensão da verdade que se aprende – transmite-se pelo comportamento e pelo exemplo.

C.5. A verdade implica autorreflexão e, em seguida, introspeção social e nacional.

38. A quem procura a verdade exige-se que faça primeiro uma autorreflexão à sua conduta – «comportamento» e «exemplo» atrás frisados –, e depois uma dupla introspeção, sobre a articulação entre os cidadãos e a sociedade, e sobre o bem coletivo. Por fim, deve efetuar uma sólida investigação dos assuntos e um responsável exame das consequências das medidas a tomar. Eleitores e políticos devem inspirar conhecimento e expirar justiça.

39. Como se depreende, impõe-se que a justiça tenha uma dimensão multifacetada: desde a justiça entre as pessoas até à justiça entre elas e o Estado, passando pela justiça – abordada no antepenúltimo ponto e também em F.2 – entre elas e a Natureza. Formas de justiça no fundo interligadas, pois se, no âmbito da justiça entre as pessoas, deve haver respeito pela liberdade individual e assim é permitida a criação de riqueza fundada no mérito, paralelamente, no âmbito da justiça entre as pessoas e o Estado, os agentes públicos devem assegurar a dignidade individual e a proteção dos concidadãos mais pobres.

C.6. A melhor verdade reproduz-se.

40. Não existem verdades prejudiciais. Porém, umas são melhores do que as demais: as melhores são as que se propagam no espaço e no tempo. A verdade é uma virtude que se reproduz se for semeada corretamente e bem tratada. Se, mesmo que semeada corretamente, não for bem tratada, definhar-se-á e, enquanto morre, nascerá a debilitada mentira.

41. É neste movimento minguante da verdade que cresce a oportunidade para a brenha poluente de meias verdades, antecâmara das mentiras. A astuta politiquice está sempre à espreita do abrandamento da genuína política. A quietude da verdade é por si só um fator incentivador para o seu involuntário esmorecimento.

42. Embora não haja verdades más, ninguém pode defender com garantia a validade definitiva de qualquer verdade. Apenas os politiqueiros mitómanos ousam defender a garantia de verdades. As verdades acabadas, vendidas como garantidas, de tão fingidas que são, constituem um gérmen das mentiras. Somente na política ou noutras paraciências se procuram as verdades asséticas, limpas de gérmenes da mentira. Nem na ciência se conhecem verdades acabadas. Aliás, advogar verdades eternas ou inquestionáveis equivale a reconhecer a estagnação do conhecimento científico.

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