Fórum de Reflexão Económica e Social

«Se não interviermos e desistirmos, falhamos»

terça-feira, abril 26, 2016

Da semente da verdade ao fruto da liverdade (parte II/VII)


B. Premissas e dimensões da verdade

B.1. A verdade exige concertação; não consenso.

15. A verdade política é uma condição indispensável – condição necessária e, se transversal à sociedade, outrossim suficiente – à consolidação das democracias. No campo da verdade não se espera um total consenso, mas sim uma exigente concertação. A concertação – muito mais do que a mera concertação social – é prática e simboliza a pura transpiração da razão, sorte bem diferente do consenso, que é teórico e representa a esforçada emoção do desejo.

16. Todavia, o facto de a verdade socorrer-se da razão e afastar o desejo não lhe confere uma índole científica. Como se explicitará na secção C, a verdade política é paracientífica. A ciência revela a perfeição inacabada, enquanto a paraciência, que se socorre da equidade e da proporcionalidade, contenta-se com a virtude imperfeita. A perfeição requer inequívoco consenso; a virtude fica-se pela ambiciosa concertação.

B.2. A verdade manifesta-se em várias escalas: privada, nacional e universal.

17. A primeira escala é egoísta, a segunda é consciente e a terceira é inteligente. O egoísmo capta o estado gasoso da verdade, a consciência o estado líquido e a inteligência o estado sólido. Os povos superiores são aqueles cuja verdade nacional está umbilicalmente ligada à universal; conciliam a consistência com a inteligência.

18. Há temas, em geral associados a questões de direitos do Homem ou com uma forte raiz cultural, em que as verdades nacional e universal não coincidem (apesar de tais questões terem merecido a aceitação da maioria popular através de democrático plebiscito). Os casos da aceitação, nalgumas sociedades, da pena de morte é um exemplo. Ainda, a circuncisão feminina e a poliginia são casos – contudo extremos em termos de afronta à dignidade humana – de afastamento ou conflito entre a verdade pró-cultural (ou nacional) e a verdade pró-humanista (ou universal).

19. Assim, a bem-aventurada política tem uma dupla função, qual delas a mais significativa. Faz prevalecer os interesses da cousa – causa e coisa – pública, em detrimento dos interesses individuais ou corporativos, simplesmente privados; e tenta promover a articulação entre os interesses nacionais e os interesses universais. Só na politiquice surge oportunidade para a entrada firme de benefícios individuais ou corporativos.

B.3. Há a verdade ideal, da privada à universal, e a verdade possível.

20. As verdades privadas – sejam individuais ou corporativas – não passam, em última instância, de sensações, opiniões ou convicções puramente pessoais. As verdades universais, conquanto de dimensão, dignidade e utilidade incomensuravelmente maiores do que as verdades privadas, são sobretudo conceptuais – porque seriam válidas apenas se desaparecessem os objetivos conflituantes ou as demais restrições. Ante a impossibilidade da verdade ideal, resta o ideal da verdade possível, que excede qualquer dimensão das sensações, dignidade das opiniões ou utilidade das convicções.

21. Não por ser perfeita mas por ser prática, os cidadãos devem fielmente dirigir a mira para a verdade possível. A verdade possível – repita-se: prática – é a que reúne o melhor existente no território nacional e a que respeita a dignidade da minoria mais vulnerável nele residente, ainda que o melhor possa de certo modo prejudicar o interesse da maioria (na qual forçosamente se inclui a classe média).

B.4. A verdade não tem lado esquerdo nem lado direito.

22. A verdade, sinónima de benefício coletivo (ou antes: benefício não privado), não é canhota nem destra. A sua estrada tem dois sentidos: do lado ativo para o lado passivo, e do lado passivo para o lado ativo. Os obreiros da verdade são os eleitores e os políticos. É difícil saber quem se deve situar do lado ativo e do lado passivo – lados que correspondem, como consta no parágrafo n.º 25, ao pensamento responsável e à aceitação esclarecida, respetivamente.

23. Face ao já referido, depreende-se que à partida os eleitores estariam no polo ativo da verdade, por deterem o supremo poder de eleger, em consciência face aos efeitos, o grupo que vislumbra o bom rumo dos países, o de guiá-los em direção à regeneração da vontade em verdade. Nesse cenário hipotético, aos políticos competiria o residual papel de conduzir as lúcidas intenções para o destino pretendido e assumido pelos cidadãos. Na realidade porém, por frequentemente a maioria do eleitorado não estar munida de capacidade para aferir tamanho rumo, reserva-se aos políticos o polo ativo.

24. A pior situação – e que infelizmente tem sucedido em bastantes sociedades democráticas – é quando (i) o lado ativo está vazio e (ii) o lado passivo encontra-se muito preenchido ou até sobrelotado. Aí, (i) nem os eleitores nem os políticos se conseguem impor; e (ii) são os eleitoreiros e os politiqueiros – eleitores e políticos que não se interessam pela verdade – a imporem-se. Nessa (pior) situação, os eleitores e os políticos são dominados pela resignação; os eleitoreiros e os politiqueiros dominam a levitação.

B.5. Aos lados da verdade estão associadas as fases da verdade.

25. Ao lado ativo equivale a fase inicial: o pensamento. Ao lado passivo equivale a fase final: a aceitação. O êxito das duas fases depende inevitavelmente do lado neutro: composto pelos níveis de informação e de energia, ingredientes imprescindíveis para identificar a verdade coletiva.

26. A combinação eficiente dessa dupla de ingredientes constitui por conseguinte a unidade central de processamento da verdade, que liga as mencionadas fases inicial e final. Depreende-se que a fase intermédia, e deveras crucial, consista no prévio exame das consequências da verdade. Sem um antecipado exame dos prós e dos contras das consequências é impossível pensar e discernir verdade, quanto mais aceitá-la e reclamá-la.

B.6. A análise da verdade requer organização mas não menos intuição.

27. Conforme atrás abordado, o pensamento representa a fase inicial da verdade paracientífica e a aceitação a fase final. As duas dependem da fase intermédia, reservada à análise, que por sua vez comporta as etapas da pesquisa e da decisão. Portanto, pensamento, pesquisa, decisão e aceitação integram, por esta sequência, o processo da verdade.


28. Para que a fase intermédia, a da análise, surta êxito na descoberta da verdade, são necessárias, por parte dos políticos, doses semelhantes de: organização, para destrinçar o desejável do realizável – subsecção B.3 –; e intuição, para desvendar a simplicidade do horizonte – subsecção C.3. A organização entra na primeira etapa da análise da verdade – etapa da pesquisa –; e a intuição intervém na segunda etapa – etapa da decisão. Conclui-se portanto que a fase intermédia da verdade é essencialmente de transpiração, ao passo que as fases inicial e final – do pensamento e da aceitação – são, seguindo a mesma ordem, marcadamente de meditação e de consagração.

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