Fórum de Reflexão Económica e Social

«Se não interviermos e desistirmos, falhamos»

quinta-feira, agosto 13, 2015

Eu acima dos meus - Especialização do egoísmo



Em 2005, a mítica banda UHF, tão resistente quanto combatente, lançou o CD «Há Rock no Cais», no qual foi incluído o tema «Estou-me nas tintas (Primeiro os meus)». Uma das quadras da sátira, e que constitui o refrão da canção, tem o seguinte texto: «Estou-me nas tintas / Primeiro os meus / Agarro a vida / Que Deus me deu».

Tal quadra reflete a doutrina da proteção do clã, à guisa da tentativa de perpetuidade do egoísmo genético. Enfim, a doutrina de os progenitores terem a preocupação ignóbil de empanturrar até ao nariz, aos ouvidos e aos olhos a prole que, cheia de aspirações ocas e de bens materiais, fica com o cérebro irremediavelmente danificado pelos vapores da destilação do pensamento tóxico.

Não obstante a situação atrás descrita ser por si só deveras grave e preocupante para o futuro de qualquer sociedade, constata-se que, volvida uma simples década, a tendência conseguiu piorar. Degenerou para a mais pura especialização do egoísmo: «Eu acima dos meus». Se o citado tema musical fosse agora reeditado, o refrão poderia refinar-se: «Estou-me nas tintas / Primeiro eu / Agarro as fintas / Que Deus me deu».

Infelizmente não se trata dum exagero da descrição social. Cada vez são mais as almas empoleiradas no seu ego - dos petizes aos mais usados -, crendo que o mais relevante é a lógica do «eu», em detrimento dos «meus». Se o conceito «meus» já de si encerra os problemas que a razão e a moral combatem - por desconhecerem o peso universal da palavra «nossos» -, somente pode concluir-se que a evolução traz mau agouro para o País. Há quem apode tais almas de decididas, dinâmicas ou energéticas. Grave descrição. Dispõem de tanta autoconfiança que ficam despidas de vergonha, perante si e os outros.

A maleita do «eu» - porque a dos «meus» ainda assim consegue ser ligeiramente menos grave - apenas se consegue resolver quando não houver tréguas para as pessoas egoístas, mesmo que estas sejam os nossos parceiros de cama ou mesa, os nossos irmãos ou primos, os nossos sobrinhos ou tios, os nossos filhos ou pais, os nossos netos ou avós, os nossos afilhados ou padrinhos, ou quaisquer outros entes próximos de nós. Tem de existir uma excomunhão, inclusivamente familiar, dos que estão afeitos ao seu umbigo desde que o cordão umbilical se deixou detetar pela egografia, o exame que estuda o egoísmo dimanado do ato da conceção.

Se um indivíduo, quando manifestar nítidos e reiterados sinais egoístas, for excomungado em termos do convívio humano e das relações pessoais, i.e., se o ser que se julga o centro do universo ficar a falar para si próprio, então provavelmente ele terá de se avir com a sua consciência, esperando que esta o conduza a descer depressa ao reino da razão e da moral. Se a descida não for realizada, que seja catapultado, em trajeto aleatório, para o vazio. Neste caso, em nome do bem de todos, é desejável que faça um trajeto unicamente de ida. Boa viagem e sem saudades.

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