Fórum de Reflexão Económica e Social

«Se não interviermos e desistirmos, falhamos»

sexta-feira, abril 24, 2015

Viagem da Liverdade a Portugal


O FRES Democracia – em rigor foram alguns membros fresianos, não vá alguém do grupo ficar melindrado com a generalização – convidou a Senhora Liverdade a visitar o nosso País, nesta altura em que se comemora o 41.º aniversário do 25 de Abril. No fim, houve uma agradável e enriquecedora conversa de algumas horas, na qual ela teceu rasgados elogios ao povo, ao clima, à gastronomia, à História, à Natureza, elogios acompanhados por uma série de imagens que lisonjeiam sobremaneira a Nação.

Apaixonado pela forma peculiar e aquilina de a Liverdade analisar e descrever o que observa, e pelo tom doce e reconfortante com que fala, o FRES pediu-lhe que, ao estilo das respostas sucintas mas abrangentes que dá, com as palavras na ponta do pensamento, caracterizasse 41 temas com base no que registou da viagem. A abordagem que essa Mulher tem do Mundo e a atenção que deposita no nosso País confirmam que ela deveria fazer-nos visitas regulares e duradouras. Apesar de estrangeira, expressa-se e reflete em português tão bem como nós próprios, confundindo-se com uma cidadã nacional de pleno direito.

Tivesse a democracia mais idade, mais assuntos lhe seriam solicitados para comentar. Aconselha-se a que os decisores do rumo lusitano leiam cuidadosamente as ideias da Senhora Liverdade, fautora dessa mesma liverdade, exemplo para quaisquer democracias, das mais incipientes às mais consolidadas. Na próxima visita à nossa terra, que uma figura do Estado se encarregue de dar-lhe as boas-vindas e que, antes do seu regresso, o Presidente da República a agracie pelo carinho concedido ao povo português.

1. Revolução dos Cravos

Com a decisão sensata de os militares desviarem a rota dum navio que há muito andava à sua sorte e que estava prestes a embater contra escuros e tenebrosos rochedos, deu-se a Revolução dos Cravos. Com a rota desviada, definiu-se um esboço do novo trajeto, esboço que até agora parece não sair do papel. Passou-se do perigo do rombo para o do encalhe, pelo que outra revolução urge decidir e projetar. Igualmente pacífica mas terá de ser muito mais forte, desta vez nascida sobretudo dos civis.

2. Igualdade de oportunidades

A igualdade de oportunidades é o placebo das desigualdades entre os cidadãos. Haverá genuína igualdade de oportunidades numa sociedade quando as pessoas aceitarem a troca de papéis: apear-se quem anda montado, e montar-se quem anda a pé. Assim todos passariam a ser polivalentes e dotados dum maior leque de competências para encarar os desafios: saberiam montar e andar a pé.

3. Sociedades cínicas

Em sociedades cínicas, sob o pretexto do convívio salutar entre a promoção da igualdade de oportunidades e o combate à exclusão social, o povo tolera quem, ao mesmo tempo, alimenta à tripa forra o ego da opulência, da abundância e de demais vícios da alma, e em contraste penitencia-se procurando alimentar com míseras migalhas o corpo dos desvalidos.

4. Desigualdades sociais

Enquanto houver cidadãos honrados que caem na pobreza e outros ricos que desconhecem a honra, está sob fogo a falácia de que a igualdade de oportunidades resolve as desigualdades sociais.

5. Crueldade social

Um país democrático com uma parte das suas crianças – pelo menos 20% – abaixo do limiar da pobreza não é pobre; é cruel. Além de fratricídio social, a crueldade revela que a maioria dos seus cidadãos tem mente galinácea porque, apesar de sentir que o futuro e a sobrevivência estão em perigo, insiste em dar cabeçadas na parede de vidro só pela incapacidade de se desviar do obstáculo. Quem relativiza a realidade comparando-a com situações piores noutros países, encontra-se seguramente numa capoeira bem acima daquele limiar.

6. Pobreza extrema

Os mais ricos são quem mais vivem em pobreza extrema porque costumam ignorar as injustiças. Cabe aos eleitores decidirem qual o nível de pobreza tolerada.

7. Foz da solidão

A solidão é um dos sentimentos mais niveladores e menos equitativos. É bastante nivelador porque ataca pessoas de todos os estratos, ricos e pobres, e coloca-as em níveis semelhantes. É pouco equitativo porque até à foz o caminho é diferenciado: quando ataca os mais ricos, estes ficam piores, por passarem a pobres; mas quando ataca os mais pobres, estes ficam sensivelmente na mesma, por não passarem de pobres.

8. Fim da fome

Frequentemente a fome alia-se à Natureza para fazer ver ao Homem quão erradas têm sido muitas das suas decisões, como é o caso de transformar sem hesitação ou critério a fertilidade das terras em áreas de cimento e asfalto. Portanto, matar a fome é tão improvável como acabar com a guerra, ou como garantir que o Homem respeita a Natureza.

9. Países e Estados

A maioria dum país deve ser proporcional à minoria do Estado. O grau de sustentabilidade duma nação é tanto maior quanto menor o hiato entre os rendimentos dos caciques do Estado e das corporações que dele dependem e os do povo, o fiel retrato de qualquer país.

10. Sociedades incoerentes

O poder está para o povo, assim como o Estado está para o país. Uma sociedade funciona coerentemente se os recursos nacionais forem distribuídos em função dos pesos minoritário do poder e maioritário do povo. As situações utópicas de países ricos com Estados pobres, bem como os casos frequentes de países pobres com Estados ricos, são exemplos de sociedades incoerentes.

11. Desregulação social

Originalmente a desregulação social resulta da extensão da incoerência funcional entre os conjuntos do poder (minoritário) e do povo (maioritário) à incoerência pessoal entre os elementos de cada um desses conjuntos.

12. Estado de cidadania

Um Estado de cidadania caracteriza-se pelo aprumo democrático, invulgaridade onde os valores democráticos estão acima dos agentes democráticos, ou melhor, onde o respeito são pela dignidade dos cidadãos está acima dos (se bem que legítimos) interesses políticos, corporativos e individuais.

13. Universalidade do dinheiro

O dinheiro é o solvente mais universal. Nele tudo se dissolve: desde os vícios que levam ao declínio tanto de ricos como de pobres até às tentativas de eliminar os mesmos vícios.

14. Estados de almas

A alma dos comandantes do espírito é infinita, enquanto a dos soldados do dinheiro vive aflita. A alma dos comandantes do dinheiro é pequena, enquanto a dos soldados do espírito vive serena.

15. Força da humildade

A força que decide não é a física mas a espiritual. A necessidade alimenta e engorda a força física; a humildade constrói e engrandece a força espiritual.

16. Fraqueza hierarquizada

Pior do que a fraqueza ingénua, a que abunda nos resignados que desistem de lutar, é a fraqueza trémula, a que prolifera nos viciados que insistem em não mudar. Aceitar a primeira é abdicar da cidadania; aceitar a segunda é descrer da democracia.

17. Exemplo de resignação

Os pescadores portugueses têm uma resignação tão enorme que não cabe no mar e uma esperança tão diminuta que não enche uma mão.

18. Nevoeiro da esperança

A esperança virá no nevoeiro, sobrevoará as árvores, colherá alguns dos seus frutos e, deliciada e aconchegada, aterrará no barco dos pescadores que se entretêm a consumir o tempo e a energia no rio para apanhar alguns peixes para o seu sustento.

19. Futuro da Lusatlântida

O futuro alargamento da Zona Económica Exclusiva marcará o nascimento duma nova nação potencialmente próspera: a Lusatlântida. Não surpreenderá contudo que se alargará também o período de defeso de pão à mesa dos pescadores.

20. Caráter do povo

Elegem-se pedras de granito sobre o chão do passado, que consolidam a força dum povo que sofre mas chora só para si.

21. Estado social

O Estado social é o pardal da política. «Todos os pássaros comem milho mas a culpa é sempre do pardal.» Não obstante todos, em maior ou menor grau, beneficiarem do Estado, com destaque para os negócios avultados celebrados com o setor público invariavelmente prejudiciais para este, o Estado social é um alvo de críticas constantes: ou por ser grande, ou por ser pequeno, ou por não ser nem grande nem pequeno.

22. Mecanização e solidariedade

Quanto maior a mecanização, maior o volume de produção alcançado e menor a força de trabalho necessária. Adicionais lucros e acrescidos desempregados. Portanto, a mecanização constitui um processo automático para aumentar a solidariedade institucional e o Estado social, ou alternativamente para densificar a caridade e a miséria.

23. Sociedades humanistas

Em sociedades humanistas, a misericórdia e a proteção da dignidade não são uma opção deixada à mercê dos cidadãos conscientes mas sim uma imposição do Estado ciente das suas funções. As naturais desigualdades na repartição do rendimento esbatem-se pela tributação dos mais fortes e pela solidariedade, e não pela comiseração dos mais fracos e pela caridade.

24. Suma solidariedade

No breu da solidão uma velhota de unhas escuras vence o tempo repartindo o seu magro pão com o incessante apetite de dezenas de pombos. A única testemunha é uma cruz de pedra que, em silêncio atento, aplaude o gesto da suma solidariedade.

25. Seriedade certificada

Os negócios são justos quando são benéficos para ambas as partes – é frase feita. Para aferir e reconhecer a utilidade dos mesmos, é imprescindível que as partes disponham de semelhante nível de informação, e que a perceção da utilidade não se confina ao momento do ato negocial. O patamar máximo da rara sinceridade certificada é alcançado por quem tem a hombridade de avisar o contratante que, ao contrário do que este entende, o negócio não é justo para si, por não se verificar algum dos dois requisitos.

26. Erros e remorsos

O erro está para o pecado, assim como o remorso está para o arrependimento. Adicionalmente, tal como a remição dos pecadores alivia as almas, o erro é fonte de aprendizagem e até de eventual alegria futura. Tal como o julgamento dos arrependidos aflige as almas, o remorso é fonte de tristeza e muitas vezes de agonia constante. Cada pessoa tem a sua escala de erros e de remorsos. Felizes dos que erram mas vivem sem remorsos.

27. Dor e rancor

A dor duma pessoa conduz ao ensinamento e à paz interior, enquanto o rancor conduz ao ressentimento e à guerra exterior.

28. Horizonte da sabedoria

Uma pessoa atinge a suprema sabedoria à medida que vai alargando o horizonte das suas efetivas capacidades. Essa sabedoria começa por conhecer a fronteira entre o desconhecimento curável e a ignorância crónica.

29. Teimosia e opinião

Costumam misturar-se teimosia assertiva com opinião convicta, quando traduzem manifestações deveras diferentes. A primeira é unilateral e emocional, enquanto a segunda é bilateral e racional. A teimosia é o resultado do instinto e a expressão de que uma ideia com sólido suporte subjetivo constitui um dogma. Ao invés, a opinião é o resultado do trabalho da prévia análise objetiva, mesmo que insuficientemente realizada, daí que seja bastante mais frequente corrigir ou inverter opiniões convictas do que teimosias assertivas.

30. Comunismo e capitalismo

O comunismo e o capitalismo são doutrinas para-religiosas. Os para-religiosos do comunismo são utópicos; os do capitalismo são oportunistas.

31. Bipolarização partidária

A bipolarização partidária é como pintar um mundo bicolor, que não é necessariamente pior do que viver em mundos multicolores; depende dos intervenientes. Às vezes a anarquia de cores leva a questionar se é preferível um mundo multicolor que conduza à prisão da cegueira ou um mundo trevoso que force a liberdade do pensamento. Portanto, mais do que o número de cores, importa o tipo de cores que os partidos utilizam.

32. Processo emigratório

A emigração é um processo de transformação da saudade do regaço. Na primeira fase, a saudade transportada aquando da tristeza da partida transforma-se em coragem crescente para criar valor. O processo termina no momento da alegria do regresso com novas ideias na mala de viagem, com as quais o futuro prospera.

33. Cluster da emigração

Mal do país que não conhece a emigração: ou vive na loucura utópica de ter todo o povo conformado, ou no castigo ditatorial de ter todo o povo castrado. Logo, coloca-se o desafio de transformar uma inevitabilidade intemporal num cluster de futuro. Cabe a cada país decidir com que tipo de emigração se quer identificar: se com a emigração à base do valor e da cabeça; se com a emigração à base da força e do coração.

34. Atribuição de prémios

Fica feliz quem aceita um prémio atribuído por comprovado mérito. Fica triplamente feliz quem rejeita um prémio desses: pelo reconhecimento do mérito e, para além disso, pelo prazer de aproveitar o momento da rejeição para ser a voz dos discretos ou abafados talentos não bafejados pelo reconhecimento, e pela denúncia silenciosa dirigida aos vaidosos premiados que não têm a humildade de devolver os galardões desdourados quando depois comprovadamente imerecidos.

35. Empreendedorismo social

Se muito do empreendedorismo individual publicamente divulgado é pouco mais duradouro do que as festas com fogo-de-artifício, o tão badalado empreendedorismo social é um episódio de pólvora seca não escassas vezes banalizado e vandalizado. Quem é altruísta e tem um sentido humanista que o impele a pensar para além da primeira pessoa não necessita de se associar ao empreendedorismo social; pensa e age em nome da utilidade coletiva, sem perder tempo com a vinda de louros que rapidamente secam e perdem as propriedades naturais.

36. Tipos de felicidade

A felicidade pode ser suprema, terrena ou obscena. Alcança a suprema quem luta pelo bem coletivo, independentemente do efeito provocado no próprio interesse individual, por vezes abnegado. Consegue a terrena quem tem a consciência de evitar que a defesa do bem individual acarrete prejuízo para o coletivo. Atinge a obscena quem pretende o melhor para si, sem se importar com o que acontece ao coletivo. A primeira é rara e a segunda deveria ser a normal; mas a terceira é porventura a mais frequente.

37. Prémio Nobel da inovação

O primeiro prémio Nobel da inovação deveria ser atribuído a quem tivesse a capacidade de articular a política com a honestidade, podando os vícios do poder e enxertando neste último valores e ideias nobres em prol dos superiores interesses do bem comum e do futuro coletivo.

38. Loucura e engano

Há duas formas de as pessoas voarem sem a ajuda de máquinas: confiando cegamente ou nas suas próprias ilusões ou nas mentiras dos outros. Ambas as formas não são eficientes: a primeira, por falta de aderência à realidade; a segunda, por falta de aderência à verdade. Contudo a primeira é muito menos poluente; antes a loucura pessoal de quem, por vontade própria, não conduz o seu destino, do que o engano coletivo que, por manipulação, deforma o destino dos cândidos.

39. Verdade e independência

Os povos são independentes se pensarem por sua iniciativa e os seus representantes políticos seguirem a verdade. As duas condições apenas acontecem quando os cidadãos tiverem a invulgar humildade de exigirem essa verdade e reconhecerem que só assim se atinge a justiça. Quem crê que é difícil alcançar a verdade está assaz equivocado. Alcança-se com dois ingredientes simples mas valiosos: pão e educação.

40. Pontes seguras

As pontes mais seguras são as que ligam margens de pensamentos muito diferentes. O grau de desenvolvimento duma sociedade é proporcional às suas pontes de pensamento. As ideias de divisão erguidas como sinal de poder refugiam-se em bunkers de pensamento que acabarão destruídos e passarão por debaixo das pontes.

41. Liberdade incondicional

A liberdade incondicional é uma ilusão pois exige que o pensamento dos cidadãos seja incondicional, livre de qualquer mando. Existem pensamentos sobre verdades cristalinas e universais que dependem de autorização para desencalhar e zarpar. Eis a revolução em liberdade ainda por fazer; desta vez só os civis podem consumá-la.

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