Fórum de Reflexão Económica e Social

«Se não interviermos e desistirmos, falhamos»

quinta-feira, fevereiro 05, 2015

A placebomania dos mitos e o preço do vinho (parte X/X – Afirmação de Portugal)


C. Afirmação de Portugal

159. Já fiz provas cegas de produtos alimentares, tendo quase sempre reconhecido o aroma e o sabor dos que são portugueses. No azeite conheci poucos falhanços e nos queijos nenhum. No vinho as únicas hesitações envolveram variedades de videiras plantadas em regiões fronteiriças, designadamente a Alvarinho e a Tinta Roriz. O elevado grau de confiança com que distingo os vinhos lusos nada tem a ver com o terroir dos solos. Estará provavelmente relacionado com a intervenção dos vinificadores ou dos enólogos; mas acima de tudo prende-se com as castas indígenas da nossa terra (que ainda não foram internacionalizadas massivamente).

160. No que acabo de escrever não mora qualquer sentimento pretensioso ou chauvinista. Chauvinismo é o que alguns grupos de pessoas – incluindo críticos opiniáticos – manifestam quando discriminam sistematicamente os produtos somente pelo facto de não serem nacionais. Jamais desqualifiquei os produtos estrangeiros. Apenas identifico de forma isenta – repito: em provas cegas puras – as características da maioria dos nossos produtos.

161. Em matéria de vinhos é mais fácil e menos arriscado alinhar com o olor e o palato da globalização (que a maioria assume, conscientemente ou não) do que apostar no estilo ou na marca Portugal (em que se exige maior esforço e acrescida perseverança). Há todavia a realçar que os consumidores mundiais agradecerão se fizermos esta aposta. Aposta não como forma de impor qualquer identidade mas antes como veículo de partilha de experiências e modo diferente de exercitar a combinação olfato-gustativa.

162. Portugal tem muito boas – ótimas será o adjetivo apropriado – condições para os vinhedos, começando pela sua localização geográfica. Tal sucede também com a Espanha, por exemplo. Ou seja, são zonas naturalmente apropriadas para a criação de néctares poderosos, sem serem necessárias doses adicionais de empenho. Ao invés, quanto mais se deslocar para o norte da Europa, maiores a incerteza do clima e a ocorrência de doenças das parreiras.

163. É por isso quase hilariante alcandorar-se os vinhos franceses e enaltecer os solos escamoteando a latitude, por exemplo. Em Portugal as cepas forâneas proporcionam resultados subtis, apreciáveis ou mesmo elegantes. Contudo falta-lhes o resto que as castas nacionais concedem: diferença, memória e genuinidade. A propósito dos bons resultados registados por aquelas cepas em solo lusitano, cumpre não esquecer que por vezes a mistura de uvas, mostos ou vinhos de diferentes variedades de videiras nem sempre surte bom efeito – recorde-se o ponto 128, em relação à Cabernet Sauvignon.

164. Sem querer entrar no diálogo de surdos entre viticultores do Velho e do Novo Mundos quanto aos solos apropriados para as parreiras, é unânime que os terrenos de Portugal e da Espanha foram agraciados pela mãe-Natureza, pois têm literalmente o melhor dos dois paraísos. No nosso País, o sul oferece a segurança climatérica típica do Novo Mundo e essencial para a floração das videiras e a maturação das uvas, ao passo que o norte dispõe dos rios serpenteados e das côtes abrigadas tão catapultados no Velho Mundo para a relação conciliadora – cada vez mais mística, para os crentes e os seus seguidores – da Natureza dos solos com o prazer que a beleza dos vinhos transporta. Enfim, há de tudo para todo o bom gosto, do clima real ao terroir imaginário.

165. Os abastados vitivinicultores franceses pagariam com ouro para terem uma pequena porção do clima quente de várias regiões ibéricas, que se dão ao luxo de vindimar antes de terminar a maturação das uvas, para que os bagos não tenham tanta concentração de açúcar. Com a maturação completa, é verdade que o alto teor alcoólico daí resultante daria néctares com baixa acidez – que pelos vistos não são apreciados pelos afrancesados e pelos franceses (porque as bebidas destes são tendencialmente ácidas). Contudo esses néctares teriam uma vantagem natural tentadora: resistiriam sobremaneira à oxidação e por isso seriam ideias para envelhecerem sem haver o risco da deceção mencionado no quinto mito.

166. Nos tintos, bastantes vinhos portugueses e espanhóis têm uma complexidade e um equilíbrio invejáveis, senão mesmo inigualáveis. Comparar os tintos das regiões do Douro ou da La Rioja aos tintos de Bordéus é um desprestígio para os ibéricos – desprestigiante relativamente à categoria; não ao preço. Totalmente acertado o provérbio «Mais vale cair em graça do que ser engraçado.» Talvez uma união ibérica conseguisse corrigir mais rapidamente a injustiça inerente ao provérbio. Com ou sem esta utópica união, os dois países impor-se-ão, o que só ocorrerá quando romperem com o modus vivendi que têm aceitado e que retarda as suas efetivas potencialidades.

167. Portugal, com quase três centenas de variedades de vitis vinifera, é porventura o país com maior diversidade de videiras nativas, adaptadas aos mais diversos tipos de solo e clima. Os vitivinicultores devem estar permanentemente cientes de tamanha e inestimável (mas ignota) riqueza, pois grande parte das castas vernáculas identificadas é adequada para produzir vinho de qualidade. A Grécia terá maior diversidade de cepas locais, porém segundo os especialistas não tão de reconhecida classe para a produção vinícola.

168. Apenas de há poucas décadas para cá, bem depois de consolidado o enterro do período de meio século da lusa república anterior, temos vindo a sair da letargia e a florir a mente, abrindo-a para o novo panorama e dispondo da capacidade para conhecer e valorizar o nosso património. Se durante vários séculos o povo foi habituado a mostrar-se acanhado e a beber vinho áspero e sulfuroso, ou seja, se os portugueses foram educados a produzir e a consumir o que não prestava, compreende-se que, pelo máximo que se esforçassem, estavam fadados para a exportação de má qualidade.

169. As castas eram (e continuam a ser) boas para a viticultura, no entanto imperava a má vinificação. Por ser uma questão cultural, foi uma safra quase homérica infletir radicalmente o estigma pacóvio do perfil de consumo e assumir o erro das metástases profundas. Atualmente o mercado nacional já bebe vinhos varietais de categoria, para não referir os sublimes néctares de lotes que estão à sua mercê. Em termos internos a odisseia parece estar assegurada. Falta a extensão para o exterior. Apesar das melhorias crescentemente significativas ano após ano, continuamos a ser algo tímidos, como que temêssemos a competição com as potências tradicionais e receássemos colocarmo-nos na dianteira do escol do mundo vinícola.

170. Em termos de determinação, os países do Novo Mundo devem ser um exemplo para nós. Tiveram a capacidade para transformar o sonho em realidade. Através do conhecimento científico, afrontaram os tabus ancestrais do Velho Mundo, mudaram as posições internacionais e provaram que o saber não fica aquém da convenção. Os vitivinicultores portugueses e as organizações que os representam têm-se esmerado na difusão dos seus produtos, o mesmo acontecendo com a associação pública ViniPortugal. É uma questão de prosseguir solidamente a intensificação do trabalho que tem sido encetado para a afirmação do vinho nacional.

171. Encontramo-nos no bom caminho, naquele que nos leva à gesta de atingir a fase final da crisálida e da libertação da verdade. Atrevo-me contudo a arriscar que tem faltado arrojo para desmistificar os dogmas há muito criados e que tornam imperfeito o comércio internacional do vinho. Essa falta talvez se justifique pelo facto de termos vindo de certo modo a usufruir dos dogmas, conforme a alusão no parágrafo 166 efetuada ao modus vivendi e a menção no parágrafo 34 orientada diretamente para as encostas da região do Douro. Para a tarefa da desmistificação estão convocados todos os interessados. Deve pensar-se como um todo e para o universo dos produtores, independentemente da dimensão e do prestígio que carregam.

172. Tendo a postura de mantermos a superior qualidade dos produtos oferecidos, urge afastar as visões inócuas e curtas. Importa subir ao alto das gáveas e avistar mais além, sendo inevitável manejar as mesmas armas dos nossos concorrentes, se possível com maior intensidade e acutilância. Refiro-me à agressividade do marketing, como se depreende. Gostaria de enaltecer dois casos. O primeiro refere-se ao enoturismo, que é encabeçado inevitavelmente pelo vale do Douro, cartão de visita nacional e símbolo do engenho lusitano para aproveitar e dignificar a Natureza.

173. Arrisco-me a apostar que o Douro é o lugar supremo e altaneiro do enoturismo internacional, onde a Natureza e o Homem deram as mãos e até hoje souberam respeitar-se mutuamente. Mas o enoturismo vai enormemente para além da região duriense. Combinando a tradição vinícola com a gastronomia, a Natureza com o clima e, como não podia deixar de ser, a honrosa História com o grado gentio, percebe-se que Portugal possui todos os ingredientes para que tal tipo de turismo seja uma aposta de futuro e uma referência central na excelência a nível mundial.

174. O segundo exemplo prende-se com o êxito comercial da exportação, para infinitos pontos do planeta: o rosé. Os mais puristas atenuam o resultado desse exemplo e preferiam que o sucesso da exportação massiva do vinho português se verificasse noutros vinhos. Uns casos não invalidam outros; se os agentes convergirem nos objetivos e trabalharem em conjunto, haverá espaço para todos. Basta acreditar nos bons projetos, sustentáveis e competitivos. Bem sei que na área da competitividade o input não será o mais favorável. Mas o que temos a menos nesta matéria é de longe ocupado pelo resto: a fragrância e o sabor de Portugal.

175. Ao contrário do que preferem muitos pregadores das castas e dos vinhos franceses, os outros países (que não a França) não devem desistir de trabalhar no reforço da qualidade – «excelência de qualidade», em bom rigor (vide parágrafos 63 e 96). Com prejuízo do disposto no parágrafo 162 (onde se preconiza que, ante a propiciação das zonas ibéricas para a viticultura, dispensam-se doses adicionais de empenho), a melhoria contínua na senda da perfeição deve ser um desiderato permanente, até porque as condições naturais de Portugal rescendem e excedem as existentes noutras plagas do Velho Mundo.

176. O resto advém do conhecimento e da intervenção humana, bem como da humildade e da sensatez de os intervenientes no negócio vitivinícola congraçarem os seus interesses com os dos demais. Afastemos a (rara) ostentação da vaidade e o (não raro) preconceito da inferioridade. Lavremos ao invés a virtude da diferença. O pragmatismo, o brio e a honestidade têm definitivamente de se impor, sem beliscar a identidade e sobretudo a classe nacionais. Será deveras mais simples do que parece.

177. Finda a publicação das quintas-feiras desta dezena de fascículos digitais alusivos à placebomania dos mitos e ao preço do vinho - causada pelo post «O preço do vinho e os mercados imperfeitos»-, renovo o desafio colocado na parte final do primeiro deles: ergo o braço para brindar à luta pacífica de ideias. Se alguma da informação controversa constante dos pouco mais de nove quarteirões de texto for objetivamente refutada no próximo encontro anual do FRES Vinhos do dia 7 de fevereiro, será um inequívoco sinal de que se vislumbra uma luz de futuro para esse núcleo fresiano dedicado a assuntos sobriamente báquicos. À saúde de todos, participantes e ausentes do evento.

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