Fórum de Reflexão Económica e Social

«Se não interviermos e desistirmos, falhamos»

segunda-feira, janeiro 05, 2015

Évora, 21 de janeiro de 2015 – Excursão da interioridade ou da inferioridade?



Ontem, 4 de janeiro, ouvi de relance no rádio uma notícia que me embebeceu por completo o espírito. Um grupo de admiradores do anterior primeiro-ministro está a organizar, para o próximo dia 21 deste mês, uma excursão a Évora, que partirá da Covilhã. Precisamente dois meses após a noite fatídica – fatídica para a classe política – em que esse ex-dirigente governamental foi detido no aeroporto de Lisboa. Todos serão bem-vindos a participar. Como um dos organizadores realçou, se puderem ir milhares de pessoas, não irão centenas.

A excursão de apoio é, de acordo com a organização, um ato que visa mostrar ao País o profundo reconhecimento que as gentes do interior sentem pelo trabalho desenvolvido pelo ex-chefe do Governo. Cumpre reconhecer que a iniciativa não foi mal formulada. A reboque do assunto por vezes crispante entre o litoral e o interior, tenta carrear-se para o processo judicial em curso a ideia de que o acusado (pelos crimes de branqueamento de capitais, fraude fiscal e corrupção) foi – e é – o sumo representante da interioridade lusitana.

Assim – há que reconhecer – procurou matar-se dois coelhos com uma só cajadada: defender a personalidade em causa, desde logo junto da opinião pública; e granjear incentivos para as hostes do partido a que ele está ligado. Nada a opor à jogada, perfeitamente possível à luz das regras da política democrática. Todavia uma dúvida insofismável assola qualquer indivíduo cujo prazo de validade da sua memória não seja inferior a um mês e meio.

Com efeito, desde os primeiros instantes após a detenção do sujeito em questão foi construída uma “narrativa” que deixou os ouvidos dos cidadãos anónimos feridos em carne viva, tal a frequência com que ela foi continuamente repetida. Transmitiu-se e defendeu-se até ao tutano que o processo é de natureza jurídica, e por isso deve ser avaliado tão-somente em sede judicial. «A César o que é de César, e a Deus o que é de Deus», ou seja, à justiça o que é da justiça, e à política o que é da política, era o alfa e o ómega da cada intervenção com que os portugueses foram incessantemente massacrados.

Constata-se agora que afinal houve uma mudança radical da “narrativa”, por desventura para pior, ou antes, para um patamar inferior (apenas comparável a uma endémica realidade, ignóbil e imperdoável, com que as instâncias nacionais têm tratado de olhos vendados: a violação do segredo de justiça, sinal evidente de que o aparelho judicial e a comunicação social teimam em andar de candeias às avessas). Afinal o argumento – esse sim, de nível superior – de que as instituições deveriam funcionar normalmente e sem pressões teve lamentavelmente uma vida efémera.


Somente os mais incautos alinham no cariz altruístico da excursão. Direta ou indiretamente esta terá como objetivo condicionar a “narrativa” nem sempre conveniente da separação de poderes entre justiça e política. Desejo que os romeiros dos novos tribunais façam ótima viagem. Mas não se demorem muito, sob pena de perderem a memória do caminho para o regresso. Excursão da interioridade geográfica ou excursão da inferioridade memorial?


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