Fórum de Reflexão Económica e Social

«Se não interviermos e desistirmos, falhamos»

quinta-feira, janeiro 08, 2015

A placebomania dos mitos e o preço do vinho (parte VI/X – Idade e carvalho)



Mito 5 – Os vinhos ambiciosos melhoram com a idade.

99. É vendida a ideia comum de que os grandes vinhos das clássicas regiões europeias, sobretudo os da prodigiosa Gália, distinguem-se dos demais porque crescem com a idade. Os factos comprovam que a falácia flui duma ação de propaganda pró-europeia – e em especial pró-francesa –, pois são numerosos os néctares possantes do Novo Mundo que mantêm intacta a sua personalidade acima duma década, sem perder qualquer resquício de classe e vigor. Um desses casos foi identificado no ponto 94, relativamente ao quarto mito («Os vinhos de alta qualidade têm marcantes características singulares»), a propósito da comparação entre dois Chadornnay, um borgonhês de dez anos e outro chileno somente de quatro anos. Os brancos do Chile, por exemplo, não amadurecem menos do que os da Borgonha.

100. Muitos enólogos do Velho Mundo – liderados pelos apoiantes da França, como não podia deixar de ser –, por crerem que normalmente os vinhos captam mais os aromas e os paladares do terroir do que das castas, consideram que os bons néctares precisam de tempo para mostrar o seu esplendor. Raramente põem no pedestal os vinhos oriundos das regiões e dos países com climas assaz confiáveis e estáveis, mas sim, como de costume, os que têm maior cachet social. Eis porque há ninhos de almas que continuam a jurar honrarias aos produtores franceses, bradando que estes geram vinhos maravilhosos, mais complexos e enigmáticos.

101. Frequentemente sob a capa do mito em questão os logros são totais, assemelhando-se aos crimes de falsificação de documentos. Aposta-se que vinhos toldados de fama vão evoluir com os anos, pelo que o seu preço é inflacionado logo à nascença. Tais néctares vangloriam-se, passeando de leilão em leilão, para no fim os compradores beberem deceção, engano e pesadelo. No epitáfio das bebidas fica registado não mais do que o preço impeditivo e afrontoso. E nada tem a ver com a subjetividade do consumidor, nem com o momento ou o ambiente da degustação.

102. As mesmas pessoas que embandeiram em arco em relação a certos néctares têm colecionado uma miríade de episódios defraudantes de vinhos caros que são objetivamente piores do que vinhos mais baratos. Prova-se um vinho conceituado, pensando e apostando cegamente que ele oferecerá prazer, e dado o primeiro golo, à guisa de canibalismo sexual, as narinas e a garganta do provador são ferozmente atacadas. Ocasiões em que a abstinência pura prevalece sobre o prazer negro.

103. Após sacrificada meditação, mas sem abjurar as suas crenças doutrinárias, alguns fazedores de opiniões têm o fleumático descaramento de sugerir que por vezes as apostas goradas foram fruto do azar, como que se se tratasse duma aposta de casino – tantas vezes é o caso. Como tal, aconselham os consumidores a insistir até encontrarem o vinho que corresponda às expetativas criadas. Hilariante explicação, no mínimo. Posições desse género revelam pouca isenção – ou então acentuado alheamento.

104. Melhor escrevendo: revelam o domínio exagerado do peso que desempenham o rótulo e a rolha abrasonados. Como em princípio os especialistas de provas não são abastados – ou não eram antes de iniciarem a atividade –, é normal que se inebriem com retratos fictícios e escrevam mandamentos vitivinícolas perspicazmente parciais. Homens pobres não governam opiniões; bandeiam-se para as opiniões das marcas do mando. É assim no vinho e no resto: quanto maiores os erros, mais organizadas são as corporações de foreiros que os tentam isentar.

105. Os críticos opiniáticos têm na ponta da língua a resposta eloquente e poética: os vinhos são como as pessoas; têm altos e baixos. Se errar é humano, ao vinho também se admitem erros. Comparação alucinogénia, como que justifique as situações horripilantes de gato por lebre que se apanham, de bebidas dispendiosas mas descaracterizadas ou mesmo decrépitas. Não há livro de reclamações, até porque reclamar faz sentido e é eficaz apenas em mercados que funcionem normalmente.

106. Eu responderia através duma palavra, aquela que é o evangelho seguido pelos fazedores de opiniões: prazer. Se o vinho é o veículo e o meio de transporte para o prazer, para um percurso calmo e reconfortante à geografia das videiras, à história da vinificação e à antropologia dos vinicultores, então constitui profundo masoquismo retardar a viagem pois o amanhã é incerto e não será na outra hipotética vida que a viagem será realizada e o prazer recuperado. «Não guardes para amanhã o que podes fazer hoje», relembra e alerta sabiamente o povo.

107. O tema da idade é mais um dos que resvalam para o debate inconclusivo entre a escola tradicional (do Velho Mundo), agora e finalmente não tão sobranceira, e a escola técnica (do Novo Mundo), cujo cavalo de batalha já não é combater o exuberante perfume frutado. Os protetores da primeira têm crido que só os melhores vinhos clássicos europeus – ou porventura franceses – progridem com a idade, mas esquecem-se de referir que o envelhecimento é em parte devido a aditivos durante a fermentação ou mesmo antes de esta começar, bem como a métodos de vinificação ou a processos de engarrafamento que permitem artificialmente aumentar a natureza dos néctares e maximizar o seu período de estabilidade.

108. A escola técnica entende que pode assegurar o mesmo resultado (do envelhecimento) mas com menor intensidade dos aditivos, métodos e processos atrás indicados. Privilegia a atuação para a otimização dos conhecimentos propiciados pela ciência, inclusive respeitantes ao aproveitamento das condições edafológicas e climatéricas das regiões. A diferença de filosofia, entre repetição e investigação, entre consistência e experiência, no fundo entre o costume da escola tradicional e a inovação da escola técnica, reflete-se sobremaneira não na qualidade mas no preço.

109. O mito em apreço orbita bastante à volta do engarrafamento. Por isso o envelhecimento podia ser autonomizado, como oportunamente foi abordado: o mito de que o carvalho confere bouquet ao vinho. Mais uma área onde reinam os preconceitos. Por exemplo, a estratégia dos barris de carvalho para transmitir ao vinho olores abaunilhados e aumentar o seu período de vida é deveras valorizado pelos produtores europeus, o que torna as bebidas necessariamente caras. A utilização de aço inoxidável é incomparavelmente mais barata e permite que os vinhos mantenham a sua pureza, pois preserva a fragrância e o sabor naturais das uvas.

110. A maquilhagem não é gratuita, e muito menos as campanhas publicitárias – não raras vezes patéticas – para tentar convencer que o seu uso é benéfico. Marketing formatado e deformado. Não se espera que mesmo uma mulher bela frequente um restaurante de luxo trivialmente trajada; passava quase despercebida ante a vulgaridade aperaltada lá existente. O mesmo acontece com os vinhos maquilhados, conquanto de menor qualidade – qualidade natural, entenda-se – face a vinhos bons que são puro sumo da uva, puros sem artimanhas ou estratégias vínicas ou comerciais.

111. Retome-se o recorrente emprego do carvalho. Os consumidores são impingidos com a ideia de que quanto mais fenóis tiver o vinho, melhor. Os taninos – compostos químicos naturais provenientes das uvas (não da polpa mas sim das cascas, das sementes e dos engaços) – têm-se mostrado insuficientes para os caprichos de grande parte dos críticos opiniáticos. Assim, estes evangelizam os consumidores sobre a importância de outros fenóis, referindo-se especialmente à vanilina – fenol constante do carvalho, que concede um cheiro e um paladar parecidos com os da baunilha.

112. Porém, o procedimento de amadurecer o vinho em barricas novas de carvalho e envelhecê-lo posteriormente em garrafa tem sido inúmeras vezes usado, sem ponderação ou critério, como sinónimo de superior categoria. Na prática o que sucessivamente se faz é, através do controlo das doses aromáticas do carvalho, transformar bebidas comuns em néctares empoladamente complexos. Forma alternativa de marketing, tão eficaz como a declaração de terroir ou o financiamento dos críticos especialistas. Juntando a trindade – carvalho, terroir e críticos –, é desnecessário mencionar o fim alcançado.

113. Virá o dia em que o carvalho será substituído pela pureza de odores e sabores. Não é tanto o uso dos tonéis de madeira – seja de carvalho, castanho ou abeto – para a fermentação do vinho que está em jogo, mas antes a febre do uso de pipos novos de carvalho francês. Quem atribui legitimidade à semelhança entre o vinho e o homem reproduzirá a parte final do ponto 2, de que «pode envelhecer-se sem a ajuda do carvalho; mas este, se for novo, valoriza a idade, como a maioria concordará.»

114. O carvalho não é um elemento natural e como tal é facilmente secundarizado. Pode-se perfeitamente retirá-lo do emblema da qualidade. Basta que a maioria dos produtores não franceses sinta orgulho em fabricar vinho que fermente em recipientes que garantam a neutralidade de fragrâncias e paladares das uvas, e que paralelamente invista em críticos opiniáticos que corroborem a vontade e a coragem desses produtores. Como em quase tudo, é uma questão de preço. Para telintar os gostos afeitos aos mitos, até nem será cara a campanha de informação.

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