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«Se não interviermos e desistirmos, falhamos»

quinta-feira, janeiro 22, 2015

A placebomania dos mitos e o preço do vinho (parte VIII/X – Cabernet Sauvignon)



Mito 7 – A Cabernet Sauvignon é de Bordéus e o resto não passa de imitação.

127. Mais controlável do que os resultados irrefutáveis das provas cegas, o tinto bordelês tem sido comercialmente considerado o rei dos tintos, o arquétipo irredutível para qualquer produtor. Proferir esta afirmação é o mesmo que apresentar a Cabernet Sauvignon, nada e criada para ser a casta-rainha das tintas; daí que seja a variedade da vitis vinifera mais mundialmente difundida. Queiram ou não, os consumidores têm de amargar com o amargo preço da fama fermentada.

128. Arrisco-me a avançar – opinião formulada sem qualquer rastilho de afronta – que uma boa parte dos tintos de corte produzidos com lotes de castas autóctones de superior qualidade tem sido conspurcada pela Cabernet Sauvignon. Frise-se que a conspurcação não decorre do aroma dessa casta em si mas antes do facto de a mistura esmorecer demasiado as fragrâncias das restantes castas. Entendo que há variedades (como sucede com a nossa Touriga Nacional) que saem ofuscadas e adulteradas nos lotes onde entra a Cabernet Sauvignon. Podem acusar-me pelos gostos filistinos. Acho que não é o caso; mas que assim seja.

129. A Cabernet Sauvignon é a cepa que rotula os vinhos de exportação de Bordéus – região responsável por cerca dum terço das exportações francesas de vinho –, e por isso (ou melhor, pelo preço de venda e pelos lucros granjeados) representa a bitola ideal, designadamente para os produtores mais ambiciosos do Velho Mundo. Ainda que seja relativamente frequente a fraca vinificação associada quer aos maus anos, quer à produção excessiva, o filão é intemporal: preços incólumes, como se dum padroado se tratasse. A fé da crítica regular e secular advoga que quando é anunciada a presença da Cabernet Sauvignon as outras devem, por deferência, infletir-se e ir ao beija-mão. Amém ao lisonjeio.

130. Na verdade não passa duma postura idólatra enraizada em inúmeros críticos vinícolas, pois há bastantes vinhos tintos que, embora transportem um equilíbrio normal – contrastando com o equilíbrio artificialmente conseguido – entre aroma e sabor e uma complexidade para envelhecer – um dos panfletos usados para transportar no andor a Cabernet Sauvignon de Bordéus –, são produzidos a partir doutras castas tintas. Para além disso, tenham-se presentes dois pontos que dizimam a escola de pensamento dos tintos de Bordéus, a seguir descritos.

131. Desde logo convém recordar que embora as castas sejam um dos elementos principais que caracterizam os vinhos, os demais são tão essenciais como esse, e portanto o resultado final depende da conjugação de todos os elementos presentes, como tem sido sobejamente abordado em posts anteriores. É infundada em termos científicos a relação entre terroir e qualidade – primeiro mito –, do mesmo modo que é escandalosamente redutor estabelecer uma relação biunívoca entre a qualidade do vinho e a natureza das videiras duma região – segundo mito. Por outro lado, há que não negligenciar a questão subjetiva das apreciações, conforme também já por de mais explicado em várias ocasiões.

132. Como curiosidade atenda-se a que, ao contrário do que vulgarmente se difunde, a Cabernet Sauvignon não é a variedade predominante em Bordéus, mas sim a Merlot. O equívoco decorre do facto de a Cabernet Sauvignon dominar os vinhedos das extensas propriedades de Médoc – outrora de charcos e lodo, como mencionado no parágrafo 33 aquando do primeiro mito –, sub-região donde nasce a maioria dos tintos bordeleses exportados. Ou seja, exporta-se Cabernet Sauvignon não das côtes mas das planícies – ou antes: “côtes planas” –, e apesar disso insiste-se em papaguear com o argumento que as experiências nos outros países, do Velho ou do Novo Mundos, não originam vinhos tão completos e equilibrados como os (das planícies de solos húmidos) de Bordéus.

133. Todavia parece que os santos fazedores de opiniões, como que ansiando provar terem espírito isento e sensato, abrem uma pequena exceção: o plágio da Nova Zelândia, autorizada pelos peritos para produzir vinhos completos e equilibrados semelhantes aos de Bordéus. Releia-se o post «A placebomania dos mitos e o preço do vinho (parte IV/X – Produção, qualidade e preço)», especialmente os pontos 68 a 70, e perceber-se-á a razão para a atribuição do prémio da exceção. Os mercados com funcionamento normal tornam as mentiras e as ineficiências evanescentes; quando o funcionamento é imperfeito, as mentiras e as ineficiências transformam-se em fertilizantes da moda.

134. De acordo com diversos críticos, a Cabernet Sauvignon está para Bordéus assim como a Pinot Noir está para a Borgonha. Para os acólitos, é nessas regiões que as respetivas cepas atingem o auge da sublimação das suas particularidades. Fora delas os vinhos podem ser de boa qualidade; mas não adquirem o grau de excelência, segundo eles. As avaliações que comparam os vinhos produzidos a partir das mesmas variedades de videiras, de que o Julgamento de Paris é um simples exemplo, demonstram o lobby que circunda o processo de formação de opiniões. Alcançados pouco mais de três quartos do post agregado (constituído por dez partes), foi a terceira e última vez que aludo ao Julgamento de Paris – as outras foram efetuadas nos pontos 46 e 120, respetivamente a propósito dos segundo e sexto mitos. Adiante-se porém que poderia ter havido mais referências a esse acontecimento histórico sistematicamente ocultado e enclausurado.

135. Tantos julgamentos estão por fazer, seja comparando vinhos das mesmas castas ou de castas diferentes. Até há quatro décadas julgava-se que as cepas mais velhas geravam uvas de qualidade superior e que os processos tradicionais maximizavam as suas características, tornando os vinhos distintos dos demais. Já se sabe que a poda em verde das parreiras novas permite a maior concentração dos compostos fenólicos, com resultados semelhantes aos obtidos com as videiras mais antigas e menos vigorosas. Não obstante, ainda há demasiados críticos opiniáticos que, para velar pelos caprichos viciosos e tentar afastar a concorrência, acreditam na crença dos vinhedos com mais idade, apesar de a ciência comprovar o contrário. Sublinhe-se que isto ocorre com a Cabernet Sauvignon mas não só.

136. Afastando a comparação de castas – mesmo que dispusesse de conhecimentos para tal, não o faria para não incorrer no erro de cair na perspetiva subjetiva –, há que trazer à colação o facto de, em provas cegas, a esquecida Touriga Nacional ombrear-se com a Cabernet Sauvignon com distinta nobreza e não menos superioridade. É um sinal de que o futuro se está a consolidar para as castas enteadas dos fazedores de opiniões. Crer que a Cabernet Sauvignon cultivada fora da região de Bordéus produz vinhos que são meras imitações dos elaborados, com a mesma cepa, nessa região é duma arrogância tão lancinante como intitular a Cabernet Sauvignon como a rainha das tintas.

137. Porventura é tão rainha como por exemplo a sobredita lusitana Touriga Nacional ou a espanhola Tempranillo (designada em Portugal por Aragonês, no Sul, ou Tinta Roriz, no Norte). Ao identificar esses três tipos de variedades estou obviamente a referir-me não aos vinhos monocasta mas sim aos vinhos de corte em que a Cabernet Sauvignon, a Touriga Nacional e a Tempranillo predominam. Aliás, retomando a parte final do segundo parágrafo do post em causa, o meu gosto entende que os vinhos à base da Touriga Nacional e da Tempranillo ficam desedificados com a presença da Cabernet Sauvignon.

138. Contudo há o outro lado, mais agreste e obscuro. Por muito que as castas locais façam brilhantes vinhos de classe mundial, reconhecidos sem mácula nas internacionais degustações à cega, não inquietam nem sequer beliscam a Cabernet Sauvignon, tais são as imperfeições do mercado. A procura existe; tantos consumidores clamam por oferta e estão dispostos a pagar o preço adequado pela excelência; mas as castas nacionais não vingam como seria expectável e lógico. É expectável e lógico que não vinguem. Prescinde-se de repetir a importância que revestem o marketing e a compra de indulgências.

139. Vejo a situação de Portugal com um sentimento agridoce: agre em consequência e doce em potencial. Nos brancos e talvez mais nos tintos a maioria dos nossos vitivinicultores tem conseguido manter a sua personalidade, conquanto sejam frequentes os cálidos combates entre os amantes das castas nacionais, orgulhosos da identidade que estas demonstram, e os arautos das variedades internacionais, seguidores da tentação de entrar na cadeia viciosa padronizada do fastwine de preço acrescentado. Voltaremos a estes assuntos na décima e última parte.

140. Continua a dar-se ouvidos aos fazedores de opiniões, e estes persistem em prestar vassalagem aos produtores mais assertivos na sua missão de conquistar o mercado. A mensuração da assertividade depende tanto do produto como do marketing. Está visto que é um problema linguístico, a começar pelos rótulos das garrafas. Os críticos opiniáticos e os escanções (ou sommeliers, como é mais apropriado para o mito em apreço) só conhecem o francês da rainha Cabernet Sauvignon das “côtes planas” de Médoc e das suas correligionárias infantas do mesmo idioma.

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