Fórum de Reflexão Económica e Social

«Se não interviermos e desistirmos, falhamos»

quinta-feira, janeiro 01, 2015

A placebomania dos mitos e o preço do vinho (parte V/X – Alta qualidade e singularidade)



Mito 4 – Os vinhos de alta qualidade têm marcantes características singulares.

82. Que uma zurrapa se distingue fácil e objetivamente dum néctar, ninguém duvida, tal como se consegue separar o azedo do amargo e o doce do salgado. Justifica-se portanto a variação de preços entre essas duas bebidas de opostas categorias. Para qualquer pessoa uma mistela é uma mistela e ponto final, sem mais delongas. O mercado das zurrapas é livre, concorrencial e democrático, onde o preço reflete a genuína lei da oferta e da procura, pelo que os enólogos e os críticos vinícolas dele se distanciam. No mercado dos néctares o cenário é completamente diferente, com a agravante de a diferença continuar camuflada para a generalidade dos consumidores.

83. Até se aceita que as características sejam singulares e únicas, desde logo porque se pode defender, ainda que ironicamente, que não há dois seres vivos iguais (mesmo que clonáveis) ou até dois objetos iguais, visto que a matéria de que são feitos é distinta. O que contesto é alguém apontar que as características sejam o reflexo duma dada região e por isso incomparáveis, com o pretexto de fundamentar o preço como se houvesse uma transmissão dinástica das regiões para os vinhos – desmistificada no post «A placebomania dos mitos e o preço do vinho (parte II/X – Terroir e côtes)». A legião dos críticos seguidores duma região comete esse equívoco quase de forma involuntária.

84. Se os vinhos superiores emanarem características invulgares, então admite-se – já lá vamos – que estas devam ser refletidas no preço final, desde que obviamente exista uma relação forte entre a qualidade do produto e o seu custo de fabrico. Mas também é crível, ao contrário do admitido na frase anterior, que a relação entre preços de venda e custos de produção não faça sentido, por nalgumas situações ser a antítese da eficiência de recursos.

85. Com efeito, num mercado de funcionamento normal, os produtores que, para a mesma qualidade dos bens oferecidos, registem maiores despesas face aos seus concorrentes desaparecem do mercado e são substituídos por outros mais eficientes, que praticam custos e preços competitivos. Porém, dado que uma parcela material do mercado do vinho não é suficientemente concorrencial, os compradores toleram inconscientemente que os produtores repercutam nos preços finais os elevados custos incorridos, acabando assim por beber ineficiência quando julgavam beber qualidade.

86. Seja-me permitido transcrever o que foi realçado no parágrafo 21 do post «A placebomania dos mitos e o preço do vinho (parte I/X – Premissas)». «É inquestionável que o preço deve refletir os custos (normais ou empolados) de produção e de comercialização. Aspeto bem diferente é cristalizar as sensações do público, injetando-lhe a mensagem de que preços elevados – que em regra estão associados a maiores custos operacionais – significam impreterivelmente uma reconhecida qualidade acrescida. Custos maiores implicam preços de venda maiores – a não ser que os produtores percam dinheiro –; mas maiores custos de produção (já para nem incluir os custos de propaganda) ou maiores preços de venda não representam forçosamente maior qualidade. É aqui que reside o ponto nevrálgico.»

87. Duvido da classe superior proclamada com apego pelos fazedores de opiniões, não apenas por uma questão de ceticismo mas sobretudo por razões empíricas. Formigam os episódios de provas cegas em que, para os próprios sapientes da aparência, do aroma e do sabor, os resultados dos seus sentidos puros – quando as garrafas se expõem nuas – divergem sobremaneira das preferências manifestadas através dos sentidos formatados – quando os vinhos se apresentam vestidos com os rótulos, como se se tratasse de festas de gala. Acontece que os sábios são humanos, e por isso erram – resignação inquietante expressa por algumas eminências, para branquear a irracionalidade.

88. Se os provadores especialistas se enganam redondamente, humilhando os vitivinicultores ufanados que creem produzir bebidas desiguais, é impossível esperar pior quando as provas envolvem consumidores ingénuos. Tanto para os profissionais como para os amadores a regra é a aleatoriedade, ou seja, perante vinhos de diferente jaez, a probabilidade de acertar, escolhendo os de melhor qualidade, é tendencialmente igual à de falhar, optando pelos de pior qualidade – claro que a hierarquização da qualidade depende dos critérios prévios definidos pelos peritos a seu bel-prazer.

89. Dado que a qualidade é uma perceção profundamente subjetiva e mesmo imaginária – como foi realçado em posts anteriores –, e visto que tanto para a crítica especializada como para o público em geral as degustações à cega nada atestam sobre a qualidade, há motivos lógicos para afastar a relação entre a qualidade e o preço. O preço não atesta a qualidade. Existem vinhos de qualidade baratos, enquanto outros, também de qualidade, são caros.

90. Haja humildade e reconheça-se que o preço do vinho depende dos encargos de produção e de comercialização. Haja decoro e tire-se a qualidade do filme da publicidade enganosa. A qualidade tem outrossim uma natureza subjetiva – repito –, dependente de imensas variáveis que afetam o estado de espírito de cada um. Estas variáveis explicam porque em determinadas circunstâncias há vinhos baratos que sabem bem, enquanto noutras existem vinhos caros que sabem mal. É tudo uma questão de momentos, irregulares como o tempo, a não ser que o preço seja um mero placebo do prazer.

91. Por conseguinte, estritamente sob o ponto de vista racional, não se pode anuir à ideia de quem pretende sustentar que as características singulares dum vinho são melhores do que as características únicas doutro, nem que seja por os conceitos de singularidade e unicidade dependerem fortemente da avaliação pessoal. A incontestável evidência da subjetividade só por si arrasa vários mitos acerca do vinho, e consequentemente refuta o preço com que bastantes rótulos e rolhas se apresentam.

92. Fica-se com a noção de que os críticos opiniáticos inventam léxico verborreico para descrever imagens, cheiros e paladares dos vinhos endeusados que lhes caem no goto e que querem colocar no pedestal. Eu também poderia inventar algo, tal como entender que há vinhos de qualidade suprema cujos olores são um misto, na proporção de três para dois, de sol primaveril com céu estival, enquanto noutros verifica-se paritariamente um travo de noite sem trovoada com aurora nublada, salpicado com subtis notas matinais de orvalho.

93. Todavia há quem possa retorquir, pugnando que os néctares com maior caráter estão iluminados pela égide das fragrâncias do xisto obliquamente laminado e dos seixos esbranquiçados e carnudos. Cada um invente à sua maneira, desde que reserve a teórica invenção para si. É o que deviam fazer muitos fazedores de opiniões e demais obscuros críticos luzeiros, tão blasfemos e insolentes quanto me possam considerar neste momento. Como retribuição do escárnio e das heresias que tenho proferido, devo estar a receber uma praga forte como a que sofrem as raízes das videiras não enxertadas. A sorte é que tenho os rizomas assentes em terrenos arenosos, repelentes da filoxera.

94. Ainda a propósito da falta de lógica para que, entre dois vinhos de qualidade análoga, um seja discriminado em detrimento do outro, relembrem-se as analogias da beleza, dos cavalos e dos fadistas constantes da primeira desmistificação («A alma do vinho é o seu terroir»). Um Chadornnay da Borgonha com dez anos, criado através da fermentação malolática, é inconfundível – juram os lacaios dos brancos borgonheses. É tão inconfundível como um Chadornnay chileno com quatro anos, nado e criado com o mesmo desvelo dos franceses.

95. Também posso afirmar que um branco de Bucelas com os mesmos quatro anos – feito com a lusitana casta Arinto, não afamada como a Chadornnay mas não atrás desta em nobreza – é ainda mais inconfundível, e por isso o seu preço deve ser incomparavelmente superior ao de qualquer Chadornnay. A substancial diferença entre a minha opinião e a de conceituados críticos – seguramente com opiniões não mais assépticas do que a minha – é a força do dinheiro das indulgências, como referido no terceiro mito («A produção massiva reflete-se negativamente na qualidade e no preço do vinho»).

96. Inúmeras contradições, ora entediantes ora aleivosas, pululam a memória. Há conceituados críticos (de opiniões uniformes e formatadas) a justificarem que o sul da França é, em todo o Mundo, a zona produtora dos vinhos mais fascinantes devido ao empenho pertinaz levado a cabo pelos vinicultores e enólogos, obcecados por (o lugar-comum de) a «excelência de qualidade». Paralelamente os mesmos indivíduos são perentórios quanto ao destino reservado ao Chile. Entendem que este país, por ter uma aptidão natural para produzir vinhos bons – solos férteis e próximos do mar, conforme abordado nos parágrafos 72 e 73 do post anterior (parte IV/X – Produção, qualidade e preço) –, não deve incorrer em riscos desnecessários e por isso é preferível não esforçar-se por tentar o estrato superior, o dos vinhos excelentes.

97. Laivos de arrogância que significam, por outras palavras, que para a maioria dos países está reservada a sina da mediania, e que a alta categoria está à mercê unicamente dos etéreos produtores predestinados com terroir. Ou seja, no subconsciente de certos conjuntos de fazedores de opiniões, as características marcantes das bebidas estão talhadas para um microconjunto de regiões, a quem cabe o feudo dos néctares nobres e de qualidade azul (por oposição aos vinhos republicanos elaborados pela chusma dos produtores).

98. Doutrina interessante. Os vitivinicultores profissionais e exigentes obterão, no máximo, bons vinhos, equilibrados nas várias vertentes aromático-gustativas, no entanto associados a uma persistência fugaz. Ao invés, os grandes vinhos – acima dos bons –, os que manifestam uma persistência prolongada, estão ao alcance somente dum punhado de alquimistas bafejados por vontades sobrenaturais. Alguns animais veem o espaço a duas dimensões; há pessoas que olham para a realidade e não conseguem escrutinar mais do que a dicotomia de escol e escumalha. Eis o medievo raciocínio ainda vigente no séc. XXI.

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