Fórum de Reflexão Económica e Social

«Se não interviermos e desistirmos, falhamos»

quinta-feira, dezembro 04, 2014

A placebomania dos mitos e o preço do vinho (parte I/X – Premissas)

A. Premissas

1. No presente longo post (dividido em dez partes) procurarei desmontar vários mitos, socorrendo-me essencialmente de evidências. Tal como mencionado no post do pretérito dia 13 de novembro, intitulado «O preço do vinho e os mercados imperfeitos», entendo que fervilha uma série de dogmas que vêm embaciando sobremaneira o preço do vinho e distorcendo o mercado internacional – e por conseguinte a concorrência –, a saber:

1) A alma do vinho é o seu terroir.
2) O corpo do vinho consiste nas castas.
3) A produção massiva reflete-se negativamente na qualidade e no preço do vinho.
4) Os vinhos de alta qualidade têm marcantes características singulares.
5) Os vinhos ambiciosos melhoram com a idade.
6) Os vinhos superiores dispensam a boca.
7) A Cabernet Sauvignon é de Bordéus e o resto não passa de imitação.
8) A França contém as regiões vinícolas mais distintas do Mundo.

2. Pelo menos dois mitos teriam de ser acrescentados: os relacionados com as côtes e com o carvalho. Para manter-me fiel ao referido post de novembro, por um lado, e para não densificar a análise, por outro, incluí-os de forma superficial no primeiro e no quinto mitos, respetivamente. Pode haver terroirs sem côtes; mas deve reconhecer-se que não são terroirs de tanto nível. E pode envelhecer-se sem a ajuda do carvalho; mas este, se for novo, valoriza a idade, como a maioria concordará.

3. Evitei as desagradáveis incoerências. Assumo todavia subsistirem determinadas passagens em que se nota a impressão de a exposição não estar perfeitamente articulada. O mesmo aconteceu com a repetição de ideias. Nem sempre consegui evitá-la pois os mitos não são exclusivos, pelo que ocasionalmente foi preciso evocar argumentos semelhantes para rebater os dogmas, embora adotando diferentes perspetivas. Podem ainda acusar-me pelo emprego dalgumas palavras ou expressões opacas para descrever pensamentos que, à luz do reduto da especialidade, são consideradas intrusas. Peço desculpa pela intrusão do vocabulário – não do pensamento.

4. Sobre as incoerências indicadas no início do parágrafo anterior: admito que por vezes se fique com a noção de que pretendo atacar os vinhos de qualidade, independentemente da sua origem. Noutras ocasiões, e por entender que, na generalidade, os vinhos franceses são comercializados a preços injustificadamente excessivos, é possível que persista a sensação de que não nutro simpatia por eles, ou seja, parece que o alvo das minhas palavras é as regiões francesas, qualquer que seja a qualidade apresentada. Nada disso.

5. O post assenta unicamente na sustentação – ou falta dela – subjacente à fixação do preço do vinho. O móbil consistiu em tentar identificar as variáveis explicativas do preço justo. Para materializar o desiderato é fulcral encontrar o intervalo adequado para a afinação da relação entre a qualidade e o preço, seja quais forem os volumes de produção e de exportação e a respetiva proveniência.

6. Modas estereotipadas, situações de conflito de interesses, ditames preconcebidos sem direito ao contraditório: eis exemplos contra os quais não podemos resignarmo-nos. Não é preciso aferrarmo-nos a polémicas ao ponto de cortar radicalmente o raciocínio fabricado quanto à propensão dos preços altos para a qualidade invulgar. Basta estar ciente de que, com frequência, os preços são placebos para os ínscios consumidores e se calhar para os apurados provadores, conforme demonstram infinitos casos, a esmagadora maioria deles não denunciada. Assim, e para dirimir eventuais ruídos de interpretação, exponham-se três premissas subjacentes a todo o passeio ao mitológico submundo vínico.

Globalização das virtudes e dos defeitos

7. O Antigo Egito foi o berço do vinho, bebida que, apesar de não ser a corrente – papel ocupado pela cerveja, incomparavelmente mais acessível ao povo –, era assaz enaltecida por todas as classes, desde logo porque ela funcionava como remédio. Para além disso, era consumida pelos estratos sociais privilegiados, sobretudo em momentos solenes e festivos; e era igualmente usada como oferendas dos faraós aos deuses, como se duma imolação se tratasse.

8. Depois, quando os fenícios levaram o vinho até à Grécia – e não só; também trouxeram as primeiras videiras para algumas áreas litorais ibéricas, tal como para locais hoje pertencentes à conhecida Península de Setúbal –, logo os íncolas do Monte Olimpo granjearam o consenso atípico e decidiram plantar cepas pelo mundo helénico, cabendo ao deus Dionísio o papel de democratizar pelo povo o consumo do vinho. Após o declínio da civilização grega, os romanos encarregaram-se de prosseguir a missão de expandir a vinha e o vinho pelo seu vasto império.

9. Durante mais de dois milénios a zona de produção propagou-se a passo de caracol: da Grécia Antiga até ao resto da Europa com clima temperado. Apenas a partir do final do século passado a realidade alterou-se profundamente, ao ponto de se poder afirmar que hoje em dia os países do Novo Mundo – em concreto a África do Sul, a Argentina, a Austrália, o Chile, os EUA e a Nova Zelândia – estão para a democratização da produção assim como a civilização grega esteve para a democratização do consumo.

10. A globalização da produção e dos processos de fabrico estende-se impreterivelmente às virtudes e aos defeitos de cada região. Na era global a maximização das primeiras e a minimização dos segundos está no fito permanente dos vitivinicultores audazes e astutos, designadamente no dos que não têm posses nem paciência para dominar o marketing. É portanto descabido continuar a jurar com firmeza que uma região supera outra. Nuns aspetos talvez seja superior; nos sobrantes não é de excluir que será inferior.

11. No entanto, através duma forma sub-reptícia e ao arrepio da nobre razão, tem-se verificado um fenómeno merecedor de fina atenção: a globalização de gostos formatados, ou melhor, a coação de gostos. Preferências não se discutem; cada um tem a sua, desde que – aditamento meu, para desafiar a norma instituída – elas se mostrem transigentes com as da doutrina reinante. Citemos um mero exemplo. Uma das campanhas que se impinge com regularidade, dirigida principalmente aos consumidores endinheirados e antipatizantes dos prazeres filistinos, passa por divulgar a opinião parcial de que os vinhos de qualidade estão associados a matizes escuras e a acidezes acentuadas.

12. Contudo deve ser objeto de discussão o facto de tais vinhos, mais escuros e ácidos do que os concorrentes, serem vendidos a um preço muito superior ao dos restantes que não têm as referidas características. E, para surpresa das surpresas, é curiosa a circunstância de aqueles vinhos serem os produzidos nas áreas setentrionais europeias, onde existe uma grande variação das temperaturas médias diurna e noturna, que se crê ser a causa para apresentarem a identidade respeitante à cor escura e ao aroma e sabor ácidos, marcas tão apreciadas pelas agências de publicidade vínicas.

Natureza-Homem e subjetividade

13. À guisa de corolário da premissa anterior, tem de se reconhecer que pode haver – e há – vinhos de grandiosa qualidade em todas as faixas temperadas do Mundo que conheçam as quatro estações. Tal afirmação tem duas explicações. Em primeiro lugar, na era da globalização, a origem da excelência depende inexoravelmente do binómio Natureza-Homem, o qual está ao alcance da generalidade dos enólogos ambiciosos e exigentes.

14. Os vinhos de alta qualidade são, em parte, uma dádiva da Natureza, ao permitir que o clima torne harmoniosa a combinação entre os (sub)solos e as videiras. Porém a Natureza, traduzida pelas regiões e pelas castas, é somente uma condição necessária para o nascimento de néctares memoráveis. Estes carecem dum dom não hereditário, o único capaz de valorizar as virtudes da Natureza: as mãos e a sabedoria do Homem.

15. Em segundo lugar, existe a dimensão menos linear, vincada na qualificação das bebidas em apreço: a subjetividade, o cerne de todas as desmistificações. Basta a sua presença para que seja legítima a manifestação de dúvidas quanto aos critérios utilizados pelos críticos especialistas – dúvidas que eles próprios normalmente assumem, como via de expiação pelas consequências dos juízos incorretos por si formulados. Apesar de a subjetividade não poder nem dever ser mensurada, revela um poder quase absoluto. Existem subjetividades mais deterministas e credíveis do que outras, como se fossem certificadas ou convalidadas por uma organização internacional para a qualidade da subjetividade.

16. Não é exagero. O poder da subjetividade assinala o rumo do êxito dos vinhos. Uns produtores (ingénuos), ao fim de contínuo afã, limitam-se a conquistá-lo; outros (avarentos), para atalhar caminho, compram-no; mas os (estrategas) que conseguem chegar ao topo e lá permanecer muito tempo, afastando a concorrência, são os que trabalham para conquistar o sucesso, e decidem confirmar a conquista comprando-o. É uma questão de opção. Está visto que a melhor delas é não vacilar em comprar o sucesso.

17. Excluindo os casos objetivos de bom ou mau vinho, que um vulgar consumidor sabe identificar, na maioria das ocasiões os conceitos certo ou errado não existem. A aferição da relação entre o cheiro e o paladar é muito subjetiva, e mais será se a relação provier, ainda que ligeiramente, de artifícios enológicos. O que existe são vinhos diferentes ou – diversas vezes é o caso – apreciados em momentos diferentes.

18. De facto – dois cenários insólitos –, um vinho caro, gorgolejado através dum copo de plástico durante um piquenique, seria apodado de corrente, enquanto um barato, absorvido mediante um copo de cristal num restaurante de luxo, ascenderia à categoria de excelente. A conjugação dos sentidos, em especial da visão, do olfato e do sabor, coadjuvada pela química da atmosfera, conduz os indivíduos para o mundo subjetivo (real ou imaginário), conforme o que a memória, o desejo ou o sonho pessoais direcionarem.

Custo, qualidade e preço

19. A terceira premissa prende-se com a ligação entre custo, qualidade e preço. Não se pode escamotear que um vinho fermentado e estagiado num pipo novo de carvalho tem de ser comercializado a um preço superior ao dum vinho idêntico – ou seja, feito com uvas gémeas, da mesma vinha e de igual qualidade – que viveu dentro duma cuba de aço inoxidável. E se estiver em barris de carvalho francês, muito mais caros do que os de carvalho americano, então a desproporção de preço será abissal. Até neste aspeto a França se destaca: a cobiça pelo seu carvalho.

20. Ao que parece, segundo o que preconiza a elite dos engenheiros de aromas e sabores, o carvalho francês concede ao vinho discretas notas de especiarias, enquanto o americano atribui-lhe acentuados travos a coco, embora num e noutro caso as imagens transmitidas sejam também função do tempo de queima a que os cascos foram submetidos. Eis um motivo para que a associação ambientalista Quercus – carvalho, em latim – encete uma campanha de proteção de tão distinta árvore dotada de longevidade secular. Observação irónica que eu não podia ignorar.

21. É inquestionável que o preço deve refletir os custos (normais ou empolados) de produção e de comercialização. Aspeto bem diferente é cristalizar as sensações dos consumidores, injetando-lhes a mensagem de que preços elevados – que em regra estão associados a maiores custos operacionais – significam impreterivelmente uma reconhecida qualidade acrescida. Custos maiores implicam preços de venda maiores – a não ser que os produtores percam dinheiro –; mas maiores custos de produção (já para nem incluir os custos de propaganda) ou maiores preços de venda não representam forçosamente maior qualidade. É aqui que reside o ponto nevrálgico.

22. Por último, quero realçar que a referência assertiva mas pouco abonatória que farei aos fazedores de opiniões (ou críticos opiniáticos) jamais pode ser extensível a todos os críticos vitivinícolas. Como em quaisquer grupos, há quem seja honesto, enquanto há quem, por ação ou omissão, não seja bem assim. Sucede o mesmo com o marketing: existe uma parte que fornece informação útil aos consumidores e funciona sob princípios éticos, ao passo que outra, não despicienda, é supérflua porque o exclusivo valor que carrega é para o promotor das ações publicitárias.

23. Volvido o prolongado exórdio, iniciemos enfim a viagem ao âmago dos principais mitos. Uns são universalmente conhecidos e teorizados; alguns não passam de adaptações minhas ante as vulpinas observações a que tenho assistido por parte de fazedores de opiniões, sobretudo estrangeiros. Termino com a mensagem sublinhada no início do post: os dogmas têm inflacionado o preço do vinho e estropiado o funcionamento do mercado internacional. Este conjunto de posts contribuirá para quebrar as fantasias entranhadas nos sentidos. No fim brindemos ao FRES Vinhos e à luta pacífica de ideias – com o vinho que cada subjetividade preferir... e puder adquirir.

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