Fórum de Reflexão Económica e Social

«Se não interviermos e desistirmos, falhamos»

quarta-feira, outubro 15, 2014

A responsabilidade cívica e as moléculas do futuro

A. Lentes multifocais do conhecimento

Em qualquer instituição, independentemente do setor de atividade a que pertence, é possível entrar no incipiente cluster relativo à responsabilidade cívica. Para começar coloque-se a seguinte questão: em que medida a investigação científica encontra-se relacionada com a responsabilidade cívica? A resposta parece estar ao alcance da escassa minoria de visionários cientes de que o melhor laboratório não se esgota nos tubos de ensaio e nas experiências de acontecimentos certos. A investigação científica e a responsabilidade cívica constituem os elementos moleculares do futuro. O exórdio poderá parecer enigmático. Então decifremo-lo.

O futuro da inovação científica – e tecnológica – dependerá duma abordagem holística, que articule os saberes das ciências ditas exatas (como a Química ou a Física) com o domínio das consequências sociais decorrentes da materialização das soluções que a ciência desvenda. Tal significa inevitavelmente que os microscópios dos investigadores terão de se renovar, passando a dotar-se de lentes multifocais do conhecimento: as lentes para a visão ao perto continuarão a concentrar-se na ampliação celular, enquanto as lentes para a visão ao longe possibilitarão analisar a realidade sob outros pontos de vista – entre os quais o cívico.

No mundo moderno os decisores que se destacam não restringem a sua atuação aos negócios que gerem, por mais especialistas e profissionais que eles sejam. Deverão procurar distinguir-se, no tempo e no espaço, através de condutas e pensamentos polivalentes próprios, não raras vezes em contraciclo. Para os projetos de negócios atingirem a ambicionada sustentabilidade torna-se cada vez mais essencial que sejam dinâmicos e resilientes, elaborados necessariamente para se adaptarem aos vários planos de mercado, em que a componente financeira, ainda que fulcral, é apenas um dos planos.

B. Lançamento do livro do FRES

Da cabotagem…

Tomada a decisão de o FRES – Fórum de Reflexão Económica e Social (doravante FRES ou simplesmente Grupo) publicar o livro, houve que selecionar um prefaciador e um patrocinador elegíveis à luz do respeito dos princípios de rigor e isenção previamente identificados pelos seus elementos. Tal como os fresianos previram, o desfecho do processo da escolha do prefaciador foi desmesuradamente célere, pois a pessoa em causa – o Prof. Augusto Mateus –, para além de deter marcantes aptidões técnicas e profissionais, é uma personalidade que conjuga as capacidades de sobriedade, honestidade e sensatez reconhecidas, aptidões e capacidades que outrora tive oportunidade de comprovar e apreciar na generalidade quando o tempo nos intersetou.

Porém, tal como numa relação conjugal, mais importante do que dispor dum padrinho amigo e fiel, com quem o(a) nubente possa contar, é sentir-se convicto que a(o) consorte enquadra-se nos critérios da sua afeição em termos de atitude e temperamento e por isso confere-lhe uma desejável estabilidade, acima de tudo emocional. Saliento que esta menção não retira ao prefaciador uma gota do seu mérito, até porque para que uma relação seja harmoniosa é conveniente que haja uma convivência fraterna entre todos os intervenientes.

Ao invés, o processo da escolha do patrocinador antevia-se mais lento e difícil, não só por envolver o habitual e inevitável ingrediente financeiro, mas também por depender duma articulação meticulosa entre os itens de elegibilidade definidos pelo Grupo e a dimensão da oferta disponível. Seguiu-se uma abordagem fora da recomendada pelos cânones; não se enveredou pela opção de contacto com entidades de comunicação social, abdicando-se portanto das vantagens respeitantes à eventual notoriedade associada a tal opção.

Igualmente não se abordaram instituições que, por via direta ou indireta, estivessem ligadas a organizações políticas ou a corporações de qualquer natureza, para assim podermos assegurar de maneira plena a independência que tem caracterizado e orgulhado o FRES. Pensávamos que o patrocinador natural seria uma entidade do foro académico, fosse de direito público ou privado, por termos entendido que as análises fresianas são complementares à típica missão das universidades que lecionam cursos ligados às ciências económicas, sociais ou políticas.

A relação com o mundo académico revelou-se infrutífera, apesar de termos recolhido amáveis palavras de incentivo – umas menos circunstanciais que outras –, que muito agradecemos. Zarpámos depois para uma organização cívica não-governamental conceituada, mas perdemo-nos no nevoeiro antes da aurora. Não obstante a longa viagem costeira que até aí efetuáramos para alcançar o patrocinador apropriado, faltava ir mais além; carecia ousadia para sair da cabotagem e começar a aventura da navegação em mar-alto, indo até…

… ao Porto Salvo

Claramente a nossa abordagem estava mal delineada. Incorrêramos na inocência, examinando a duas dimensões o espaço que nos rodeava e com o qual melhor nos familiarizávamos, sem ter sopesado devidamente o facto de que as soluções repousam muitas vezes para lá do horizonte do nosso instinto e da nossa vontade. Tivemos de içar as velas e preparar as asas para outros domínios: latitudes, longitudes e sobretudo altitudes – ou não fosse do cimo que melhor se pressente e afere o desconhecimento. Foi então que se formataram as ideias já prensadas e se decidiu alargar o pensamento a desbravadas perspetivas. Refinaram-se os critérios preferenciais para encontrar corretamente o parceiro que não hesitasse em confiar numa equipa de ignotos atrevidos.

Desejava-se que a entidade patrocinadora conjugasse história com futuro. Adicionalmente, entendia-se por conveniente que articulasse, por um lado, uma gestão exigente orientada para a competitividade e, por outro, a observação escrupulosa da conduta social e das normas ético-legais. Como se este conjunto de requisitos não fosse só por si limitativo, ainda se aspirava, a título de tentativa de perfeição, que fosse um agente de referência tanto no âmbito interno como no contexto mundial, e que operasse num mercado aberto e regulado. Ocorreu uma tempestade de hipóteses, na medida em que, se os novos critérios permitiam alargar os alvos a mais setores do que inicialmente prevíramos, os mesmos restringiam as soluções visto que a conjugação dessas três condições tornava a meta mais distante e incerta.

Foi uma odisseia de silêncios incessantes, até que em ditosa hora um argonauta do Grupo assumiu o papel de comandante e vislumbrou uma conexão telepática, um calmo destino que não estava assinalado no nosso portulano. Levou o FRES a aportar num local mais que seguro – Porto Salvo –, onde a tradição rima com inovação, onde se cruzam os aspetos concorrencial e social, e onde há um equilíbrio entre as dimensões nacional e internacional dos mercados, razões explicativas para que a bonança tenha sido atingida, sem resquícios de hesitação, numa empresa filial dum grupo económico multinacional da indústria farmacêutica. Ou seja, conseguiu-se a gesta que não se antevia fácil: assegurar a tríade condicional enunciada no parágrafo precedente.

Com a aliança entre os fresianos e a empresa em apreço evitou-se a consanguinidade e, mais do que isso, dada a nítida e natural diferença de cromossomas entre as duas partes, registou-se um contributo para o reforço da qualidade genética de ambas. O êxito desta parceria reveste-se duma característica adicional de utilidade: a simbiose voluntária e incondicional entre as partes está isenta de subterfúgios ou interesses camuflados. Releva apenas o reconhecimento mútuo, bem como os sãos e harmoniosos elos de amizade.

A crónica da viagem poderia terminar aqui. Seria o suficiente quer para quem lê este post, quer para a própria empresa patrocinadora – a Jaba Recordati, S.A. Todavia para mim não basta, pois o patrocínio concedido ao FRES deve ser entendido como um convicto incentivo e não como um vulgar donativo com contrapartidas. Fica-nos bem que sejamos verdadeiros na apreciação e avaliação que fazemos dos acontecimentos, e que não haja timidez em elogiar, com sinceridade e sem bajulação, o perfil das pessoas e das instituições que nos rodeiam. Fundamentemos portanto a escolha do FRES.

C. Empresa patrocinadora

Binómio tradição-inovação

A conciliação da tradição com a inovação é uma das imagens vincadas da empresa. Ela, que se orgulha do passado, tem sabido usar as suas origens para catapultar o anterior grupo de empresas donde surgira, fornecendo produtos e prestando serviços de elevado valor acrescentado. É de enaltecer a forma harmoniosa como, após oito décadas em que o grupo português Jaba – acrónimo associado ao ilustre farmacêutico que esteve na sua génese, em 1927, o Dr. José António Baptista d’Almeida – e o grupo italiano detido pela empreendedora família Recordati – nascido em 1926 e hoje em dia com negócios espalhados por quase 140 países, cuja representação em cerca de seis dezenas deles é feita através de filiais e sucursais – andavam naturalmente por caminhos separados e, cientes do seu peso desproporcional, souberam dar as mãos, partilhando as virtudes e perfilhando as imperfeições de cada um.

A partir de 2007, ano do início da efetiva ligação luso-itálica, tem havido uma preocupação de a empresa consolidar economias de escala em todas as áreas de negócio onde opera, bem como de granjear sinergias nas atividades ligadas à vanguarda da investigação e do desenvolvimento. Tratou-se dum caso paradigmático de como, com a união, a perda parcial de autonomia da decisão nacional foi mais que compensada tanto com a consolidação da posição de mercado, como com doses adicionais de padrões de qualidade e de rigor científico dos produtos e serviços oferecidos.

Como exemplo deste último aspeto da compensação pode ser apresentada a crescente utilidade marginal que tem resultado da adoção de boas práticas nos campos do controlo laboratorial e clínico dos produtos, da segurança do processo de fabrico dos mesmos e do enraizamento da cultura de farmacovigilância. O tradicional enfoque na materialização de novas ideias terapêuticas tem sido uma permanente exigência, néctar donde são extraídos os resultados que permitem melhorar a vida dos cidadãos e disponibilizar medicamentos de acrescido valor científico e social.

O avultado e sistemático investimento efetuado nas áreas da inovação e da investigação, com recurso às técnicas modernas e aos equipamentos de topo, tem constituído um fator-chave para que a empresa e o grupo onde ela se insere solidifiquem o postulado de que a saúde é a felicidade diariamente renovada. Creio ser graças à genuína absorção deste postulado que a empresa tem articulado de forma notória a experiência acumulada com a facilidade com que encara e suplanta os sucessivos desafios de mercado.

Preocupações concorrencial e social

Outra valência específica da filial portuguesa do grupo Recordati reside no tato diferenciador de conjugar o inadiável objetivo de bom desempenho financeiro dos investimentos efetuados com o persistente respeito multidimensional do meio envolvente, especialmente na perspetiva dos equilíbrios humano, social e ambiental. A empresa, ciente que não pode abrandar a cadência da remada e que tem de harmonizar-se com o mercado e adaptar-se aos constrangimentos exógenos, entra em todas as oportunidades de negócio para deixar a sua indelével marca.

Como aparte refira-se que entre tais constrangimentos estão as restrições orçamentais e legais, compreensíveis e portanto válidas na medida em que decorrem, respetivamente, do facto de o orçamento do Serviço Nacional de Saúde ter vindo a sofrer avultados cortes e o setor farmacêutico ser um dos mais apertados em termos regulamentares (atentos o valor da saúde pública e a obrigação de assegurar a credibilidade clínica dos medicamentos). No entanto incluem um dos custos de contexto portugueses dispensáveis e facilmente ultrapassáveis: as limitações burocráticas, entre as quais residem os atrasos, às vezes injustificados, na atribuição de autorizações de novos produtos.

Seja nos produtos de marca própria – de prescrição médica ou de venda livre –, seja nos genéricos, a evolução contínua é um desiderato ininterrupto. O profissionalismo revela-se tanto na capacidade de alcançar os objetivos e na motivação de transpô-los, como na humildade de aceitar e assimilar falhas, transformando-as em desafios profícuos, razões pelas quais o umbilical compromisso com a auto-supervisão é uma evidência que define e honra a identidade da empresa.

Não obstante, a forte preocupação com a concorrência do mercado é equilibrada com a óptica social presente no quotidiano da empresa. Para a prossecução da faceta multidimensional já evocada, a empresa tem interiorizado o implícito lema de que satisfazer é tão importante quanto vender. A empresa dá valor aos seus credíveis orçamentos, todavia jamais descura os alheios sentimentos. Associar uma postura de proximidade (com os doentes, os seus familiares e a comunidade médica) à responsabilidade social consiste numa caracterização bastante redutora da realidade.

Na verdade a empresa trata sem exceção cada stakeholder como um parceiro estável. Assume inequivocamente que a satisfação das necessidades dos clientes passa tanto pelo pleno cumprimento das normas legais vigentes como pelo estabelecimento de exigentes regras ético-deontológicas próprias que credibilizam o caráter humano do serviço de saúde. Para tal procura munir-se dos apoios certos, tendo para o efeito sabido compatibilizar a dedicação e o talento dos seus empregados com a adequada recompensa – ao ponto de ser uma referência no contexto do mercado laboral português.

Mercados nacional e internacional

A cultura de governação instituída no grupo transalpino, de que os responsáveis executivos das filiais e sucursais sejam cidadãos nativos – o Dr. Nelson Pires, no caso da lusitana Jaba Recordati, com quem nunca me cruzei – é uma prática comprovadamente benéfica para todas as partes envolvidas no processo de delegação dos poderes de gestão. A circunstância de a empresa-mãe ser uma conceituada entidade cotada na bolsa de valores de Milão há 30 anos – cuja maioria das ações continua a ser detida pela família Recordati – não constitui um argumento usado para minguar o poder das filiais e sucursais espalhadas pelo Mundo. Antes pelo contrário; há a plena noção que é imprescindível manter a decisão, operacional e estratégica, no domínio nacional se se pretender concretizar o jargão que, na realização de negócios à escala planetária, há que agir localmente e pensar globalmente.

Apenas com tamanha abertura de espírito – de que quem se senta no cume hierárquico tem a humildade de delegar poder – é possível defender e consolidar o mercado nacional e levar à prática a máxima de que se deve promover a indústria portuguesa. É isto o que a Jaba Recordati tem contínua e incessantemente atingido – apesar de Portugal não ser a melhor solução em termos de custos de produção –, o que constitui um contributo para o crescimento da economia e do emprego nacionais.

Contudo a missão não se resume à escala nacional. A empresa assume compromissos igualmente ousados a nível internacional: reforçar o seu peso no seio do grupo, ajudando-o a conquistar quota de mercado. Neste âmbito, tem havido uma cooperação estreita e intensa entre a empresa portuguesa e os mercados africanos lusófonos, a qual vem sendo coroada de êxito para todos os intervenientes negociais. Recorrendo a tal experiência de cooperação, ela adota como uma das prioridades estratégicas o estabelecimento de laços comerciais com outros países africanos.

É notório o crédito crescente da filial portuguesa tanto sob o ponto de vista económico como científico. Apesar de a Jaba Recordati só representar aproximadamente 4% do volume de negócios do grupo – a filial espanhola regista um peso semelhante e o mercado italiano é responsável por 30% do montante global –, é reconhecida como uma das mais conceituadas em comparação com as congéneres. Mediante a influência e o impulso exercidos pela empresa, o nosso País tem tido uma participação ativa em programas de elevado valor científico acrescentado, nomeadamente na investigação de novas moléculas, algumas das quais desenvolvidas com o fito das descobertas revolucionárias para a cura de doenças raras, rondando os medicamentos para as combater os 10% do total das vendas farmacêuticas do grupo. Este último indicador reveste uma importância assinalável porquanto apenas cerca de 1% das doenças raras já identificadas dispõe de medicamentos autorizados para o seu tratamento.

D. Conclusão

O lançamento do livro do FRES evidenciou a invulgaridade que consiste na capacidade de os agentes ajustarem de forma espontânea os tradicionais microscópios à especificidade da era moderna, incorporando aos aparelhos de precisão revólveres de diversas lentes. Ademais, permitiu comprovar que não é paradoxal existirem entidades que, pese embora estarem literalmente focadas em áreas deveras minuciosas tais como obter soluções eficazes e eficientes para as aflitivas doenças raras, conseguem compatibilizar este nobre trabalho com a adoção de medidas que fomentem a interdisciplinaridade e os seus efeitos multiplicadores.

Cumpre repetir que com o post em apreço não se pretende fazer a apologia da empresa, mas tão-somente explicitar os motivos por que entendemos ela pertence a um conjunto muito limitado de entidades nacionais que observam as três condições traçadas e refinadas pelos fresianos, expostas no segundo parágrafo da segunda subsecção do ponto B. Ante a vontade e a capacidade de a filial portuguesa e as empresas do grupo multinacional em apreço compatibilizarem o rigor e a segurança das experiências e descobertas científicas com as consequências práticas na vida das pessoas que beneficiarão do conhecimento científico, é de enaltecer a sua perspicácia de olhar atenta e concentradamente para o microscópio da Humanidade.

O FRES regozija-se por ser uma das moléculas-alvo da investigação microscópica, e com isso permitir que a empresa se distinga também em termos de responsabilidade cívica, um dos elementos moleculares do futuro. Face ao exposto, conclui-se que a Jaba Recordati tem exportado para o Mundo a imagem dum Portugal moderno e dinâmico, conferindo um prestigiante contributo da prova que o País está preparado para encontrar soluções para os sucessivos problemas com que se vai deparando.

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