Fórum de Reflexão Económica e Social

«Se não interviermos e desistirmos, falhamos»

domingo, agosto 17, 2014

Os dois lados do bacalhau


Para ser bom juiz é imprescindível ouvir as duas partes, para atender ao contraditório. Quando propagandeiam práticas samaritanas, é legítimo ficar com o sobrolho em alerta. Um cético incorrigível coloca a si mesmo a questão recorrente de como desvendar o lado oculto da verdade que lhe tentam impingir. A mesma mensagem pode literalmente ser lida tal e qual como é exposta, por mais enviesada que seja; ou pode ser decifrada de acordo com a interpretação do leitor. É um problema de perspetiva. Se calhar as duas formas estão certas, por se complementarem. Qualquer verdade é una e indivisível mas, tal como a Lua, há sempre a face escondida.

As verdades parciais não têm autonomia para serem consideradas verdades. A pesca dos lugres bacalhoeiros é um exemplo. Primeiro analisem-se os parágrafos seguintes conforme estão escritos e depois proceda-se à análise omitindo as linhas pares, i.e., selecionando unicamente as linhas ímpares, assinaladas a negrito. Da comparação decorrem algumas ideias opostas, apesar de os dois lados da análise poderem paradoxalmente estar corretos. Depende se a observação é feita do ângulo anverso ou do reverso.

O bacalhau é tolo e possui doses iguais de instinto devorador e de perspicácia diminuta, algo
que o caracteriza na facilidade da pesca à linha. Ataca o isco e depois de fisgado não luta, aliás
semelhante aos seus intrépidos pescadores, que por ele tudo trocavam: dignidade e vida.
Ora romantismo do padecimento, ora saudosismo da aventura - talvez ambos os sentimentos.
A vã resignação dos homens não cabia no mar da labuta e por vezes da desgraça, enquanto
em terra a vida circulava consoante se podia, onde a safra dos familiares durava de sol a sol, e
a sua esperança não enchia sequer uma mão de trabalho gretada com dor. Basta relembrar
as agruras de quem, no carinho do próprio lar, sofria com privações e doenças, secundarizando
a intimidação das mães daquele tempo: «Se te portares mal, embarcas como salgador.»

Na pesca longínqua, os nossos navios de linha - por oposição aos arrastões - eram dos mais
tradicionais (ou nós não tivéssemos descoberto os bancos do Atlântico Norte), genuínos e não
obsoletos. Desde o séc. XV, somente na curta dinastia filipina a lendária epopeia do bacalhau
foi interrompida porque os ingleses não nos deixavam chegar às áreas de pesca. Tempo que
deu descanso aos portugueses. Por outro lado, nesse período de jugo castelhano a maioria
das lusas embarcações pesqueiras foi convertida em finalidades bélicas, donde grande parte
da frota desapareceu. Até à Revolução dos Cravos, quando o peixe abundava, trabalhava-se
com garra acrescida. Muitas vezes os pescadores iam nos dóris quase a dormir, após estarem
mais de 20 horas sem parar no amanho e na escala - a salga era para outros duros (foto) -; e
tinham força para 15 horas de solidão, entre nevoeiros, icebergues e tempestades, mas nem
por isso os homens se perdiam no mar gélido e no vento traiçoeiro.

Quem visita o emblemático navio-hospital Gil Eannes fica munido de todos os dados sobre a
importância humanista dessa embarcação junto da companha do bacalhau, esvaziando-se a
sua relevância como veículo de propaganda política. Inicia uma viagem sob diversos ângulos.
Foi um navio mercante alemão - ex-Lahneck - apresado no Tejo em 1916 pelos portugueses.
Serviu também de rebocador, salva-vidas e quebra-gelo. Era mais que a Misericórdia do Mar:
para os bravos da Tropa do Bacalhau, era o Messias, o conforto que esquecia a vida do lar, do
espelho da fome, humilhação e miséria de espírito a rodos de egrégios e humildes lusitanos.
Anunciava a boa‑nova. Concedia ajuda médica e apoio logístico - p.e., redes para a faina e sal.
Matava as saudades, trazendo a alegria e a agonia quotidianas dos entes queridos; e levando
o bálsamo de quem trabalha motivado pelo bem da Nação, calando a má-língua acerca dos
silêncios censurados dos maus tratos praticados pelos capitães dos lugres veleiros.

Seis campanhas de bacalhau (entre abril e outubro) livravam da Guerra do Ultramar. Opção
fácil para tantos, pois no mar ganhava-se bem mais que na selva. Para outros a escolha era
difícil, para quem cada dia revelava dois infernos: o da água salgada e o dos homens. Entre a
vontade de respirar a prisão do mato ou a liberdade do horizonte, entre morrer com a
precisão de tiros, granadas e bombas, ou a brutalidade das vagas e a cegueira do nevoeiro,
conclui-se quão nobre era a lida de pescar e tratar a bordo o bacalhau. Na morte facilmente
afere-se a dimensão do sofrimento das duas vias de brigar com a vida. O regime político
valorizava quem enfrentava tenazmente os perigos dos Grandes Bancos. Para tanto, às vezes
protegia quem dava aos pescadores um litro de água potável ao fim do dia, se fosse possível;
as refeições regavam-se com um pequeno copo de água, é autêntico. Mas nem por isso se
honrava com fome e ameaças de prisão os mareantes que consolavam o estômago do povo.

Para assegurar o espírito de grupo, os capitães e os chefes de equipa dos lugres tratavam dos
desordeiros, tal como na outra tropa. Impunha castigos aos quezilentos, e jamais aplicava
corretivos a quem reclamasse das condições a bordo. A tripulação do Gil Eannes sabia disso.
Para manter a vida era necessário ultrapassar martírios, a bem último e exclusivo do País.
Entre os partidos dos fortes e dos fracos, o veredicto dos oficiais no navio-príncipe era claro.
Ligar aos tormentos das companhas significava desautorizar os capitães e os donos dos barcos.
Os animais de criação alimentavam-se melhor que os soldados do bacalhau. Para retribuir e
defender as almas dos dóris, os superiores atribuíam um balde de isco e uma bússola e, para
alimentar a solidão, os heróis levavam um pão e duas postas de peixe frito de uma semana.
Urgia pescar depressa, até porque as temperaturas negativas impediam preguiças e delongas.
O espaço rareava, pelo que apenas existia lugar para um punhado de figos ou azeitonas de
típico sabor e um termo com café para impedir a hipotermia e combater o luto e a miséria de
Portugal, terra de cujos aventureiros solitários mereciam a compaixão dos outros países.

O abrigo do porto de São João da Terra Nova levava o ímpeto dos marinheiros a terra firme;
e trazia o reconhecimento dos locais pela sua resistência. Mas havia quem não quisesse sair:
os que estavam imundos - em corpo e roupa - quedavam-se nos navios, por vergonha pátria.
Os “comandantes” da flotilha dos dóris impunham-se. Os capitães apoiavam tal briosa decisão.
Acontecia marcadamente durante a guerra colonial, o auge do esforço da Faina Maior. O
objetivo último do Estado Novo foi somente reduzir as importações do fiel amigo. Eis porque o
sacrifício do gentio - pescadores, escaladores e salgadores - era levado ao limite da exaustão.
Cada trabalhador da Frota Branca era um bravo guerreiro. Não era como nos restantes povos.
Outrora nos demais países os dóris levavam dois homens - com provisões dignas -, que não
sentiam o seu passado marítimo nem a ansiedade dilacerante da saudade da Nação. Eles não
temiam a repartição da pescaria mas tinham a sensatez de dividir o risco de morte. Daí que a
companha dos lugres portugueses supere em valentia a tripulação das estranjas escunas, e a
nossa miséria tenha sido tardiamente afogada só com a liberdade vinda do Mar de Abril.

O equilíbrio da balança comercial e posteriormente a manutenção do território além-mar
fizeram com que nos anos 70 do séc. XX Portugal se orgulhasse de ter navios à vela, e como tal
impediram a modernização da frota nacional como sucedera nos demais países bacalhoeiros.
O anacrónico método de pesca transformou-se num símbolo da grandeza dos Descobrimentos.
Dominaram o tempo quatro icónicos lugres: Gazela, Creoula, Santa Maria Manuela e Argus.
O ano de lançamento ao mar dos segundo e terceiro - gémeos - foi 1937. O do último foi 1939.
O lugre sobrevivente mais antigo - Gazela (de 1901) - é uma relíquia saída de casa que, sem
qualquer embaraço em exportar a singular magnificência do passado piscatório, e respeitando
a nobreza lusitana, foi vendido (1971) aos EUA e atualmente é um museu, honrando o país.
Honra de que país? Provavelmente dos dois, o do velho continente e o do novo mundo.
Cumpre a cada pessoa ajuizar e formular a sua interpretação sobre os assuntos em apreço.

A pesca tradicional tinha o dom de preservar as espécies, pois eram escolhidos só os peixes
maiores. Foi vencida pela pesca com redes de arrasto, cuja sobrepesca dizimava cardumes
grandes, que economicamente eram mais apetecíveis. Por isso a concorrência dos arrastões
(dotados com potentes motores e longas redes) aniquilou a corajosa pesca longínqua à linha e
acabou com a angústia dos argonautas dos dóris, fossem verdes ou maduros. A odisseia de
arriar os dóris, lançar as linhas de trol, saborear a bordo a permanente fidelidade do cão e
regressar a casa com o soldo para a família ou o dever de ter sobrevivido a soldo da Tropa
terminou definitivamente em 1974, como atrás frisado. Apesar da imortalidade da memória,
parece ainda não estar bem estudada desapaixonadamente. A História continua incompleta.
Percebe-se que o arrastão-museu Santo André (1948) valorize o processamento do pescado.
Falta um espaço que reproduza a vida do exército do bacalhau, soldados voluntários do mar.
O museu Gil Eannes, por ser um ex-navio-hospital, dá fortes pinceladas na atividade dos dóris.
O mar camuflava-se com nevoeiro e depois vestia-se de negro por razões que importa saber.

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