Fórum de Reflexão Económica e Social

«Se não interviermos e desistirmos, falhamos»

sexta-feira, agosto 29, 2014

Competitividade – Do elixir do crescimento aos planos quinquenais de pensamento (parte I/II)

Relação robusta entre competitividade e riqueza dos países

1. Competitividade é uma palavra fadada que está associada ao elixir do crescimento. Mais do que isso, ela define frequentemente a potência do motor da riqueza material de cada nação, visto que tem uma relação estreita com o nível de produtividade, do qual dependem a magnitude do desenvolvimento económico, dos rendimentos gerados e do bem-estar usufruído pelas populações. O gráfico seguinte evidencia a forte correlação (ρ) positiva entre a competitividade e o PIB per capita (PIBpc) – ρ=0,839 –, para a totalidade das 148 economias consideradas para efeitos da elaboração do relatório do Fórum Económico Mundial (FEM) sobre a competitividade mundial, publicado em 2013 – The Global Competitiveness Report 2013-2014.


Os triângulos vermelhos representam os países da OCDE pertencentes à União Europeia – o triângulo maior, na área central do gráfico, localiza Portugal. Os quadrados amarelos, os círculos rosa e os losangos pretos simbolizam, respetivamente, os países da OCDE não pertencentes à União Europeia, os países da União Europeia não pertencentes à OCDE e os países da OPEP (excluindo o Iraque). Os três pontos assinalados com “+” (na zona do canto superior direito) traduzem os Tigres Asiáticos – inclui Hong Kong, não obstante ser uma região administrativa chinesa (tal como Macau, ainda que não presente no relatório); falta a Coreia do Sul, por integrar a OCDE.

2. O tratamento efetuado à informação original constante do relatório do FEM – e posto em prática unicamente por facilitar a análise dos dados e a exposição gráfica dos mesmos – cingiu-se em logaritmizar o PIBpc – em base neperiana – e transformar a escala do índice de competitividade – de 1-7 em 0-100. Das duas séries de dados resulta a seguinte equação de regressão linear:

ln PIBpc = 2,731 + 0,113.competitividade
                                                 (0,3298)  (0,0061)

sendo o coeficiente de determinação de 0,704 (= 0,839^2), pelo que cerca de 70% da variação do logaritmo do PIBpc explicam-se pelo índice de competitividade global mensurado pelo FEM – abordado na próxima secção –, o que é relevante tanto do ponto de vista estatístico como do económico. Em virtude de nenhum país registar um nível competitivo nulo ou próximo de zero – o valor mínimo é de quase 31 –, não há interpretação económica para a estimativa 2,731.

3. Cumpre referir que, para o teste unicaudal aplicado ao coeficiente de correlação, o valor da estatística empírica – em concreto 18,632 – excede incomparavelmente o valor da correspondente estatística teórica para qualquer região crítica – 2,352 para o nível de confiança de 99%, por exemplo. Assim, o valor de probabilidade (ou p-value) é infinitesimal, o que confirma a intensa significância estatística da relação entre a competitividade e o PIBpc (pese embora as séries se reportem a anos diferentes), ou seja, dada a abrangente dimensão da amostra – 148 observações –, a probabilidade de essa relação não ser fortuita é praticamente 100%. A análise de variância da regressão indica que o modelo obtido parece encontrar-se ajustado à realidade refletida nos dados inscritos do relatório e pode ser utilizado para realizar previsões. Tendo em conta o erro-padrão estimado do coeficiente de inclinação (0,0061), para um nível de confiança de 99% para tal coeficiente a sensibilidade ou elasticidade do PIBpc (em base logarítmica) face ao índice de competitividade situar-se-á entre 9,9% e 12,8%.

4. Adiante-se que, quaisquer que sejam os usuais níveis de significância considerados (nomeadamente 1%), são válidos os pressupostos de que os resíduos são independentes e identicamente distribuídos e seguem a distribuição Normal com média 0 e variância constante (0,663). Para verificar a hipótese da normalidade dos resíduos recorreu-se ao teste de Kolmogorov-Smirnov, e para rejeitar as hipóteses de autocorrelação e de heterocedasticidade dos mesmos – por outras palavras: hipóteses de que não são independentemente distribuídos e que a sua distribuição não tem uma única variância – adotaram-se os testes de Durbin-Watson e de Breusch-Pagan, respetivamente. A escolha deste último teste deve-se às circunstâncias de se estar em presença dum número suficientemente grande de observações e de se ter provado que os resíduos seguem assintoticamente uma distribuição Normal.

5. De modo a tentar incrementar a qualidade estatística da regressão – que é de 0,704, conforme mencionado –, procurou acrescentar-se outras variáveis para além da competitividade, desde que não fossem redundantes (para não incorrer no problema da multicolinearidade). Com vista à redução dos 29,6% da variação do PIBpc não explicados pela competitividade, ensaiaram se como variáveis explicativas o peso do comércio externo – exportações e importações – face ao PIB, o nível de desigualdade na repartição dos rendimentos – medido pelo índice de Gini –, o grau de religiosidade dos cidadãos e a inserção (ou não) – variável artificial – nos espaços da OCDE ou da União Europeia. A inclusão (de forma isolada ou conjunta) destas quatro variáveis contribuiu imaterialmente para a qualidade da regressão, não chegando o coeficiente de determinação a atingir 0,75. Importa portanto atribuir especial cuidado à competitividade, a variável-chave para que se criem oportunidades de crescimento e emprego e o calcanhar de Aquiles para que muitas sociedades não se consigam libertar da pobreza castigadora.

6. Graficamente conclui-se com facilidade que os outliers são os pares de observações (35,8; 8,7), (39,2; 9,5) e (53,5; 6,5), afetos a Angola (A), Venezuela (V) e Ruanda (R), por terem, em termos relativos, por um lado, valores reduzidos para a competitividade e elevados para o PIBpc – os dois primeiros pares – e, por outro, um valor elevado para a competitividade e reduzido para o PIBpc – o último par. Mediante os dados divulgados pelo FEM conclui-se que os percentis da competitividade e do PIBpc são 4 e 47 (A), 9 e 66 (V), e 55 e 9 (R). Do ponto de vista analítico confirma-se que os maiores resíduos da regressão – 2,293 (V), 1,88 (A) e -2,262 (R) – correspondem nitidamente aos anteriores três pontos identificados. Com a exclusão dos mesmos, a qualidade da regressão melhoraria ligeiramente, passando a equação a ser definida por lnPIBpc=2,52+0,117.competitividade. Os coeficientes de correlação e de determinação passariam de 0,839 e 0,704 para 0,862 e 0,743, e a elasticidade de 0,113 para 0,117.

Índice de competitividade global

7. O índice de competitividade obtido pelo FEM é fidedigno e completo. Foi construído através de 114 indicadores – dos quais a maioria (80) refere-se a informação de natureza qualitativa extraída do inquérito anual de opinião dirigido aos gestores executivos –, repartidos por uma dúzia de pilares, a saber:
1) Consolidação das instituições públicas e privadas (21 indicadores)
2) Oferta de infraestruturas (9 indicadores)
3) Estabilidade do ambiente macroeconómico (5 indicadores)
4) Saúde e educação básica da força de trabalho (10 indicadores)
5) Educação e formação da mão de obra (8 indicadores)
6) Acessibilidade ao mercado (16 indicadores)
7) Funcionamento do mercado de trabalho (10 indicadores) 
8) Desenvolvimento do mercado financeiro (8 indicadores)
9) Aproveitamento dos benefícios tecnológicos (7 indicadores)
10) Dimensão do mercado interno ou externo (4 indicadores)
11) Sofisticação dos processos de negócio (9 indicadores)
12) Fomento da inovação (7 indicadores).
8. Retomando a elasticidade PIBpc-competitividade expressa na última parte do ponto 3, constata-se que o acréscimo duma unidade de competitividade (na escala até 100) pode passar por uma melhoria inicial num item. Esta melhoria terá um efeito multiplicador, dado que os indicadores não são completamente exclusivos. A resposta ao aumento – concreto ou, nas situações de informação qualitativa, apreendido – dum indicador no PIB é economicamente válida, pois a atração de investimento (nacional ou estrangeiro) depende da taxa de retorno do capital investido, a qual varia bastante em função do nível de produtividade dos fatores de produção. É aí que reside porventura a principal fonte de competitividade entre os países, necessária para um efetivo crescimento sustentável.

9. Para calcular o índice de competitividade global o FEM empregou uma metodologia própria. Criou três subíndices e ponderou-os consoante o tipo de economias, aliás em linha – como o próprio Fórum reconhece – com as teorias (neoclássicas) sobre o estádio de desenvolvimento dos países. O primeiro subíndice – de requisitos básicos, segundo a sua terminologia – inclui os quatro primeiros pilares; o segundo – de eficiência reforçada – abarca os seis seguintes; e o terceiro – de inovação e sofisticação – contempla os dois últimos. Para as economias que se encontram no patamar mais baixo de crescimento, os referidos subíndices tiveram a ponderação de 60%, 35% e 5%. Para as que pertencem ao segundo nível, os ponderadores foram 40%, 50% e 10%, enquanto para as que estão no limiar superior de crescimento passaram a ser 20%, 50% e 30%. Para os países em fase de transição – entre o primeiro e o segundo e entre o segundo e o terceiro níveis –, os ponderadores foram escolhidos individualmente adotando dois critérios: o PIBpc e o peso das exportações de produtos minerais no total das exportações (de mercadorias e serviços).

10. Há todavia a frisar que se prescindia da incursão do FEM aos modelos económicos de desenvolvimento para determinar o grau de competitividade. Não tanto por serem controversos para algumas correntes de pensamento mas sim por se revelarem indiferentes para o caso em apreço. Entre optar pela metodologia intricada descrita no ponto anterior – da qual resultou ρ=0,839, como já indicado – e adotar a média simples dos três subíndices – donde provém ρ=0,842 – ou aplicar aos vários países as ponderações supra apresentadas – advindo ρ=0,865, 0,856 ou 0,832, para os pesos 60%-35%-5%, 40%-50%-10% ou 20%-50%-30%, seguindo a mesma ordem –, conclui-se que se mantém o nível da robustez da correlação entre a competitividade e o PIBpc. Tal sucede porque os vários subíndices estão fortemente relacionados entre si – entre 0,833 e 0,925.

11. Como o FEM sublinha, a competitividade é uma condição necessária mas insuficiente para a prosperidade, não apenas porque os valores modernos de cidadania conduzem a que o progresso esteja intimamente associado ao respeito pelo Homem e pela Natureza - este argumento não foi evocado pelo Fórum -, mas também devido ao evidente impacto benéfico que a sustentabilidade social e ambiental provoca nas políticas económicas e no respetivo desempenho, constituindo ela própria desse modo um fator competitivo de crescimento de longo prazo. Assim sendo, o FEM efetuou um ajustamento ao índice de competitividade global, incorporando as componentes social e ambiental. Concretamente aplicou ao índice de competitividade quer um coeficiente de sustentabilidade social, quer outro de sustentabilidade ambiental, os quais variam entre 0,8 e 1,2. Por ausência de informação, 27 dos 148 territórios foram excluídos da análise. Para os 121 países para os quais foi possível calcular o índice de competitividade global corrigido, a correlação deste com o PIBpc – 0,843 – é praticamente igual à obtida sem o ajustamento – 0,832 (que era de 0,839 para o conjunto das 148 economias, como se tem repetido).

12. Os dois coeficientes acima citados contêm certas limitações, decorrentes nomeadamente do facto de eles permitirem compensações entre os diferentes indicadores que comportam cada um dos coeficientes, por um lado, e de diversas importantes métricas sociais e ambientais não terem sido incorporadas por falta de informação, por outro. Não obstante, são um barómetro fragrante (e flagrante) das condições de vida duradouras e da prosperidade sólida, porquanto a competitividade ajustada às dimensões social e ambiental fica dotada duma perspetiva de estabilidade temporal que o índice de competitividade global por si só não possui.

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