Fórum de Reflexão Económica e Social

«Se não interviermos e desistirmos, falhamos»

sexta-feira, abril 25, 2014

Carta aberta a Abril Amigo


Exmo. Senhor Abril Amigo,

Em primeiro lugar, peço imensa desculpa por, neste dia tão festivo – e controverso entre os atuais democratas do poder e os democratas patriarcas da liberdade – e de suprema felicidade para si e sobretudo para nós, escreverlhe para manifestar a minha avaliação sobre o balanço da sua idade. Admito que não me considere simpático, perante as observações que passo a expor. Acaso se melindre com algumas delas, gostaria que ficasse ciente que apenas pretendo ser prático. Acredite que a exposição é um pouco incisiva porque o aprecio e valorizo… profundamente. Se bem que possa prescindir da minha atenção, eu não dispenso a sua – lamento ser sincero consigo e honesto comigo.

Reconhecerá seguramente que naquela primavera o sol brilhou demais e, com tamanha alegria, cegou. Para as trevas da ignorância silenciosamente foi e continua a ir, e o seu próprio destino enterrou, levantando por oposição – contudo nem sempre legitimamente – o de tantos. Os inocentes são contagiados pelo vício de vaidade daqueles que o amigo Abril Amigo ajudou a levantar – i.e., a desequilibrar. Mais do que contágio, provavelmente é uma persistente doença – provinda da hereditariedade ou então do obscuro surgimento –, que propagou ao ponto de não se vislumbrar um tratamento que a contenha.

Por norma, o Senhor refundese no esquecimento e na sina desventurada, aguardando que um milagre venha, agora que a enfermidade foi desvendada. Tem convivido com camuflados padrastos, que o conspurcam e nem assim mostra ofensa. Viu a alma ser lancetada pelos obreiros e lordes fazedores de opinião e transformada em colossal e solidificada desgraça e em arcaica e dura mentalidade. A doçura redolente que em si brotou foi injetada pelo temporal infernal. Os sinais são reveladores dum estado febril permanente, interrompido pela loucura, típico de que o seu organismo anda fraco. Custa perguntar: desanimado e com o orgulho ferido, existe cura para a rara descrença?

Vinte e cinco e os quarenta vilões é um lugar de mansos e galifões, um reino de convívio de leões, tubarões, abutres e restantes carnívoros concorrentes à altura das galinhas no poleiro que não se importam com quem está debaixo. Duma sardinha para três pessoas, o caro Abril aceitou que frequentemente a canastra passasse para uma só. Concordará que dispõe duma infinita capacidade de encaixe: vãolhe às entranhas e não se magoa; aceita os pulhas – com as fingidas imagens boas – que esmifram tudo, sem apelo ou dó; e em contrapartida sobrevive a apertado nó. Sem querer, tem fantasiado filhos e netos; mas a involuntária tentação não releva, pois sabe que faltam valores nobres e retos.

Enquanto usufrui da profunda e completa anestesia, parece que respira gáudio em ser manchado, mesmo cheio de dívidas – enforcado. Eis o fruto duma vasta hipocrisia de quem o pôs nessa vergonhosa situação. A angústia veio na esgalha porque a testosterona, irrompida em abril, no início de maio abalou. O Senhor Amigo teme os papões, permanece infantil e esquecese do que o Zeca lhe ensinou. Propagamse as colónias de fungos, vírus e bactérias, cujos vastos danos são tratados com lérias, ou não fosse a especialidade dos lentes insignes e trapaceiros.

No manicómio do pensamento castrado estão os pais que foram pelos próprios filhos desonrados e torpemente condenados. O estimado Abril tem uma grave consciência decadente, segundo apregoa a maioria da sua população. Com esse problema sério e incurável os parasitas continuam em frente e tornam a honra permeável. Possui a visão afetada mas vê de bomtom os conselhos que o afundam. Classificamno de invejoso se é causídico e reclama e, quando aponta o dedo, tomamno como malcriado. Emana raízes quadradas e cúbicas, e tãopouco uma simples erva abana.

As suas metástases abundam, e pelos vários órgãos se alastram. Julgo que para a mente destonificada a solução encontrará, embora não seja fácil, atendendo ao que tem acontecido. Constatará certamente que a ciência tem saído refutada, pois as vacinas e os cicatrizantes que lhe administram causam contraindicações más, com os antibióticos idem, e sem efeito resultam os tranquilizantes. O Senhor é refém da cura enganada, onde nem os sedativos incidem e os demais fármacos valem nada. Em si estacaramlhe o egoísmo, e por isso está pejado de ostentação e futilidade.

Equivocase, não se apercebendo que tem sido a irrefletida perfeição do servilismo. No fim de contas, para pôr no prego, sobra a saudade dos que partem levando a esperança e deixando a agonia. Paralelamente, abunda o livre fascismo disfarçado, com boys e lobbies do alto ao lado, e para música de fundo foi contratada a imprensa – que mora em igual tacho (por opção dela) ou então na ínfima posição (imposta) que pode existir mais abaixo. Ninguém ousa tocar a rebate. Os comandantes políticos expõem ações para abate, e até com o voto o povo é capacho – da esquerda à direita, a escolha revelase impossível ou demasiado estreita. Quase nada o salva, inclusive a prece, Abril – entendo que, após o que já transmiti nesta carta, posso dirigirme a si com acrescida proximidade.

Não seja dono dum corpo oco, de lógica queimada e de inteligência muda – senão mesmo decepada. Por outras palavras: embargue o império dos ilustres artistas, vestidos à moda dos claros mafiosos moralistas, onde o logro é passatempo e regalo. Alguns socialistas fascistas, ou antes, democratas oportunistas, roubamlhe as vísceras mais o falo, e o meu caro não acorda nem com forte abalo. Uma sentença suja foi declarada – ou melhor, tentada –: como é difícil a correção da direção, querem que se acomode à regeneração arruinada. Faltando a terapêutica eficaz, o desfecho passa porventura pela prevenção, ou talvez pelo sacrifício dos deuses. Acordando e sabendo onde está, concluirá quanto é carente. A cegueira endémica a atacar é o infortúnio e o abismo que assolam a sua gente.

Da romântica revolução da puberdade, uma distinta odisseia urge surgir. Acorde e mude o espírito para a responsabilidade surtir. Não pode negar que, sem humildade e justiça, nem vontade para terminar o jugo, a cunha agora corróio e enfeitiça. Atenda a que o mérito não é refugo. Não se iluda com o tradicional legado e com o corporativismo enraizado. Adote antes o genuíno e salutar empreendedorismo, declare guerra aberta à ignóbil (e ancestral) corrupção, dignifique os notáveis pescador e agricultor – nem que seja por terem sido os bobos ultrajados da adesão à CEE, como se recordará, que consolidou quer a perspetiva democrática, quer a dogmática dos capatazes das eleições –, troque o especulador (que não é necessariamente o financeiro, ao invés do que o seu estigma indica) pelo produtor e valorize a força eterna da razão, ainda que esta possa não lhe convir.

Desmonte do asno velho e lento – atitude benéfica para os dois – e prossiga o caminho pelo seu pé. Não tolere que a fome e a caridade sejam o panteão dos pobres. Há outras formas de padecer e de distribuir o pão – migalhas não, por favor. A virtude da modéstia consoláloá tãosó quando decidir aplicar oportunamente a dose adequada de sulfato para prevenir a moléstia que o atinge. Com inúmeras experiências realizadas, falase que as suas dúvidas não advêm da doença mas sim da metafísica ou de algo transcendente – os efeitos resistem há tanto que até poderão advir do quebranto. Independentemente da origem terá de inverter a sua estratégica: não votar – única alternativa.

Deixe de ser refém de incomprovada verdade. Afaste quem usa a palavra liberdade para brincar com a democracia. Sabe bem que jamais dramaturgo testava tal brincadeira. Não queira ser o laboratório de escuros padrões nem o chão de sol com luz sombria, onde para a horda é noite e para o escol é dia. Enjaule os bichos que o envenenam, cumpra a paz com o futuro e descreia dos mentirosos que acenam com promessas fúteis de bom fado. Atice o seu brio. Não permita que lhe chamem sociedade hipotecada fora de tempo gerada. O Abril Amigo será o que sonhar e mais o que concretizar.

A revolta em si começa. Para defender o seu interesse – o nacional – não basta mexer somente numa peça quando a avaria tem mal geral. O partido da sensatez e a ideologia da coerência são a benévola aliança, senão a incompetência (que cada vez mais avança) ficará tatuada na sua testa. Alistese em nova consciência, desfaça o cordão da resignação e aposte sem medo na convicção. Com esforço e coragem consegue o rumo que há décadas persegue. Ainda que com problemas de natalidade – não forçosamente de virilidade –, implore que nasça o povo merecedor da querida e excelsa Nação.

Caríssimo amigo Amigo, nunca se esqueça que a ilusão é efémera, ao contrário das necessidades, e por isso lembrese que nada é ilimitado, nomeadamente a paciência. Subscrevome com a máxima consideração, desejandolhe, neste seu 40.º aniversário, imensurável saúde e felicidade, na companhia de todos nós – que infinitamente o estimamos – e dos vindouros – espero e acredito que trilhem semelhante estima. Estime(n)os bem, pois o seu nome de Abril é para os que já foram, os que estão e os que virão.

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