Fórum de Reflexão Económica e Social

«Se não interviermos e desistirmos, falhamos»

segunda-feira, novembro 25, 2013

Descrédito das forças de segurança ‑ Umbiguismo e recuo dos espermatozoides


Tenho feito um enorme esforço para ser fiel à postura de me manter distante em relação aos instintos que me assolam e que são causados pelos constantes acontecimentos que surgem na nossa sociedade. Perante disparates em catadupa, às vezes o melhor é ignorá-los. No entanto, há momentos em que é nossa função reagir e levantar bem alto a voz quando a razão está encalhada e a Nação ameaçada.

A razão deve ser transparente e imiscível. Não obstante, é frequente misturá-la com outras substâncias menos objetivas, tais como a emoção, o egoísmo e o corporativismo; em suma: com o umbiguismo – versão atual do nosso modelo, ora opaco ora translúcido, de organização social. O egocentrismo atingiu proporções tão extremas que já não basta cada um olhar para si como um todo enquanto indivíduo; agora a concentração e o enfoque estão direcionados unicamente para o próprio umbigo.

Indo ao centro da questão: a execrabilidade da atuação dos (milhares de) polícias e outros elementos das forças de segurança no passado dia 21 merece uma declaração de repúdio por parte de toda a gente com o mínimo de bom senso. Pelo contrário, vários barões usaram o seu tempo de antena e a sua influência para se apoderarem da demagogia e elogiarem o procedimento dos cidadãos que não souberam estar ao seu nível.

Longe de mim questionar a desmotivação e as dificuldades severas e porventura quase desumanas por que passam os profissionais da segurança nacional. Concedo-lhes até alguma afeição pelo facto de se organizarem muito eficazmente para a manifestação que terminou em frente à Assembleia da República. A afeição só não é total porque descreio sinceramente de que a união, tal como o voto, seja uma boa solução para atingir a mudança necessária. As melhores soluções são a arma e a palavra; como vivemos em democracia, temos de nos restringir à palavra como a arma para a mudança.

Quando quaisquer grupos de cidadãos decidirem manifestar-se à porta da Assembleia da República e derrubarem pacificamente as barreiras de segurança, nada mais os esperará do que suportarem o peso dilacerante dos bastões e, se tal for insuficiente, a obediência irracional dos cães de polícia. Para além disso, alguns mais apaixonados serão premiados com uma viagem à esquadra ou até ao tribunal. Será o legítimo e mui merecido preço pago pelos energúmenos que ousam pisar o risco do dever democrático de obediência legal. Concluiu-se que apenas haverá condescendência se os manifestantes energúmenos pertencerem à mesma estirpe dos seus congéneres da arte da bastonada.

Como cidadão sinto-me enxovalhado pela vil provocação demonstrada altivamente pelos manifestantes, tentando provar que estão acima da lei e que têm o direito de se distinguirem dos comuns mortais. Lindo serviço prestado à nossa democracia. É somente mais um indelével sinal do que merecemos. Haja decoro.

Os espermatozoides irrompem e dirigem-se à procura do óvulo promissor. Ao invés, os polícias e restantes membros das forças de segurança derrubaram as barreiras, subiram a escadaria em direção aos seus colegas, bateram palmas – talvez pela humilhação de estes últimos fecharem os olhos à indisfarçável ilegalidade a que estavam a assistir –, cantaram o hino da Pátria do Povo e dispersaram, sem ter havido coragem para avançar rumo à conquista do seu ovócito. Quando os espermatozoides são de boa casta, estão convictos da sua missão, progridem sem hesitação e jamais recuam.

As pessoas que integram as forças de segurança encontram-se em situação semelhante à de centenas de milhares de portugueses. Portanto, em nome do elevado interesse de todos, juntem-se à multidão afetada e pensem em conjunto, derrubem todas as barreiras, invadam e destruam os dogmas; mas não sejam pretensiosos ao ponto de se julgarem diferentes do gentio. Caso contrário, sugiro que mudem de profissão, devendo a Nação recrutar polícias e demais elementos das forças de segurança noutros países, que certamente honrarão sem vacilações o supremo nome de Portugal. Esta sugestão é propositadamente surreal para espelhar o quão absurdo foi a decisão tomada pelas forças que devem incondicionalmente defender tanto a ordem como a lei.

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